O atual El Niño, classificado por especialistas como um dos mais intensos já observados, já muda o regime de ventos e chuvas em vários continentes e empurra o clima global para uma fase de extremos: tufões mais fortes no Pacífico, ausência inédita de furacões no Atlântico, enchentes violentas, secas históricas, quebras de safra e aumento do risco de surtos de doenças em países vulneráveis.
O fenômeno aquece de forma anormal o Pacífico tropical e atua sobre um planeta que já registra 1,4°C de aquecimento em relação aos níveis pré-industriais, o que, na prática, turbina a energia disponível para tempestades e ondas de calor. “Há mais umidade na atmosfera e mais energia no sistema climático”, resume o meteorologista Tim Stockdale, do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo.
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Onde o El Niño está atuando atualmente?
Neste momento, o El Niño influencia diretamente o Pacífico tropical, o Atlântico, partes da Ásia, da África, das Américas e o cinturão de recifes de corais nos oceanos tropicais. As anomalias de temperatura na faixa equatorial do Pacífico são o motor que reorganiza a circulação atmosférica, deslocando regiões de formação de nuvens e alterando ventos em larga escala.
No Atlântico, esse rearranjo fortalece ventos em altos níveis e enfraquece a circulação mais próxima da superfície. O resultado é um cisalhamento de vento que “desmonta” furacões em formação. Segundo o meteorologista Nick Dunstone, do serviço de meteorologia britânico, “esses sistemas estão sendo desfeitos enquanto se formam”, o que explica o início de temporada sem furacões de plena intensidade, algo que não ocorria havia mais de um século.
Do outro lado do globo, no Pacífico, o efeito é o oposto: ventos em altitude ficam menos hostis às tempestades e o cisalhamento diminui, criando uma espécie de corredor para tufões mais organizados e duradouros. Como a área de intensa convecção se desloca para leste, essas tempestades percorrem um caminho mais longo sobre águas excepcionalmente quentes, absorvendo calor e umidade antes de avançar sobre o leste da Ásia, em especial Filipinas e Japão.
Na faixa tropical da América do Sul, o sinal do El Niño já aparece em episódios de chuva extrema no Peru e em países vizinhos, com enchentes e deslizamentos. No leste africano, o mesmo padrão atmosférico empurra algumas áreas para uma seca prolongada e outras para temporais intensos que transbordam rios e destroem lavouras. Até a Califórnia, na costa oeste dos Estados Unidos, sente os efeitos em forma de elevação anômala do nível do mar e risco maior de deslizamentos quando as frentes frias associadas ao El Niño ganham força.
Entenda o contexto
O El Niño é uma oscilação natural do sistema oceano-atmosfera que, de tempos em tempos, aquece as águas superficiais do Pacífico tropical. Em um clima ainda estável, isso já bastaria para deslocar zonas de chuva, alterar ventos de grande escala e mexer com safras, pesca e risco de desastres em diversas regiões.
Agora, porém, o fenômeno atua sobre um fundo climático mais quente. A combinação eleva a probabilidade de extremos simultâneos: ondas de calor mais intensas, blocos de tempestades mais úmidos e persistentes e períodos de seca mais longos. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos projeta que o calor acumulado pelo atual episódio ainda levará alguns meses para se espalhar pelo globo, mantendo os efeitos do El Niño em destaque no clima planetário.
Secas, enchentes e fome no leste africano
A África Oriental é hoje um dos pontos mais sensíveis ao El Niño. O norte e o leste da Etiópia registram quebras de safra e colheitas frustradas, enquanto o Sudão do Sul se aproxima de um cenário de fome após uma estação chuvosa excepcionalmente seca entre junho e setembro, ligada ao aquecimento do Pacífico.
Com o fortalecimento do fenômeno durante o outono e o inverno do hemisfério norte, previsões indicam uma virada brusca: chuvas intensas e enchentes repentinas devem atingir o sul da Etiópia, o Quênia e a Somália, regiões que já conviveram com inundações mortais em episódios anteriores. Em eventos passados de El Niño, enchentes no leste africano mataram quase 3 mil pessoas em um único episódio de forte intensidade e outras 700 em um evento mais recente, mostrando o potencial destrutivo quando infraestrutura frágil encontra chuvas extremas.
Ao mesmo tempo, países como Maláui, Zâmbia e Zimbábue caminham para registrar as menores chuvas em 75 anos no fim do outono e ao longo do inverno. A projeção acende o alerta para a principal cultura da região, o milho, e para a segurança alimentar de milhões de pessoas que dependem da agricultura de subsistência e têm pouca proteção contra perdas consecutivas de safra.
Peru volta a ser epicentro dos impactos
Na costa oeste da América do Sul, o Peru, berço da identificação do fenômeno, volta a concentrar alguns dos maiores impactos. Quando as águas normalmente frias da região se aquecem, o ar sobre o Pacífico sobe com mais força, alimentando nuvens carregadas que despejam volumes excepcionais de chuva sobre áreas áridas ou mal estruturadas para lidar com enchentes.
Em episódios de El Niño de grande escala, chuvas volumosas já transformaram trechos de deserto peruano em lagos, destruíram estradas e pontes no Equador e soterraram infraestruturas, como minas, na Bolívia, com centenas de mortos. Em outro evento extremo, enchentes combinadas com surtos de doenças de veiculação hídrica mataram mais de 9 mil pessoas apenas no Peru.
Mais recentemente, pelo menos 52 peruanos morreram em consequência de enchentes e deslizamentos associados ao chamado El Niño costeiro, fase em que o aquecimento começa pela faixa litorânea antes de se espalhar pelo Pacífico tropical. A tendência, com a continuidade do aquecimento atual, é de novos episódios de chuva intensa, erosão, perda de moradias e danos em série à infraestrutura de transportes.
Tufões mais fortes na Ásia, furacões rareando no Atlântico
No Pacífico Oeste, o padrão é de reforço das tempestades. Em super episódios anteriores, quase duas dezenas de tufões atingiram o leste asiático apenas durante o outono. Em meio a um desses episódios intensos, o super tufão Koppu destruiu milhares de casas nas Filipinas e matou 47 pessoas, deixando um rastro de deslizamentos, inundações e interrupções prolongadas de serviços básicos.
Neste ano, tufões já alcançaram Filipinas e Japão, e a expectativa dos centros de previsão é de que novas tempestades ganhem força à medida que a superfície do mar continue esquentando. Com mais energia e umidade disponíveis, cada sistema que se forma tem maior chance de se tornar uma tempestade intensa, percorrer distâncias maiores sobre o oceano e chegar ao continente ainda organizado e destrutivo.
No Atlântico, a mesma engrenagem atmosférica funciona como freio. A intensificação dos ventos em altitude cisalha as nuvens organizadas sobre águas quentes, impedindo que se consolidem em ciclones tropicais de pleno desenvolvimento. O resultado é um contraste marcante: forte atividade no Pacífico, calmaria relativa no Atlântico.
Doenças e colapso de recifes ampliam a crise
As consequências do El Niño extremo não se limitam à chuva e ao vento. Ao sobrecarregar sistemas de drenagem e esgoto, enchentes podem contaminar água potável e abrir caminho para surtos de doenças como cólera e leptospirose. A combinação de água parada com temperaturas mais altas também favorece a proliferação de mosquitos vetores de malária, dengue e outras viroses.
Em episódios anteriores fortes de El Niño, o norte da América do Sul registrou ondas de cólera associadas a enchentes, enquanto o leste africano viu chuvas até 100 vezes a média provocarem um aumento explosivo de malária e de febre do Vale do Rift, doença transmitida por mosquitos e originada em animais. Para a epidemiologista Rachel Lowe, do Centro de Supercomputação de Barcelona, “os maiores problemas tendem a ocorrer onde o clima incomum coincide com desigualdades socioeconômicas”, ou seja, onde falta saneamento, acesso a serviços de saúde e redes de proteção social.
Nos oceanos, o calor extra rompe a delicada relação entre corais e as algas que vivem em seu interior. Quando a água esquenta demais, a fotossíntese das algas se desregula, o coral as expulsa e perde sua principal fonte de alimento, passando por um processo conhecido como branqueamento. Se o calor persiste, o recife morre por inanição.
O mundo acaba de sair de um quarto episódio global de branqueamento em massa, que afetou 84% dos recifes. O alívio tende a ser curto. Como o El Niño inibe a ressurgência de água fria e profunda, episódios intensos do fenômeno historicamente vêm acompanhados de novos eventos de branqueamento em larga escala. A agência oceânica dos Estados Unidos avalia que recifes em quase todos os oceanos tropicais voltam a estar sob alto risco de aquecimento extremo à medida que este El Niño atinge seu pico.
Ajuda internacional aquém da necessidade
Diante do cenário de múltiplas crises climáticas, alimentares e sanitárias, a resposta internacional ainda está longe do necessário. As Nações Unidas destinaram US$ 100 milhões para ações emergenciais em áreas de alto risco, como o leste africano, mas conseguiram arrecadar apenas cerca de um terço do financiamento previsto em seus planos de resposta ao El Niño para países como Somália, Sudão e Sudão do Sul.
O montante é considerado insuficiente para preparar comunidades para enchentes, secas e deslocamentos forçados que já começam a ocorrer. Ao mesmo tempo, países ricos reduziram orçamentos de ajuda externa nos últimos anos, o que limita a capacidade de estabilizar populações em crise e reforçar sistemas de saúde e assistência antes que os desastres atinjam seu auge.
Para o pesquisador Ilan Kelman, da University College London, o problema central não é o fenômeno em si, mas a falta de preparo. “Clima não precisa significar desastre”, afirma. Segundo ele, desastres ocorrem quando governos e sociedade não investem com antecedência em obras de drenagem, moradia segura, sistemas de alerta precoce e redes de socorro capazes de agir rapidamente.
Oscilação com a La Niña e efeito pêndulo
Modelos climáticos indicam que o Pacífico deve caminhar, ao longo de alguns meses, para um enfraquecimento do El Niño até voltar a um estado fraco ou neutro. Historicamente, episódios intensos são seguidos com frequência por La Niñas fortes, a fase oposta da oscilação, em que ventos alísios mais vigorosos intensificam a ressurgência de águas frias no Pacífico.
Esse resfriamento temporário tende a derrubar ligeiramente a temperatura média global, mas não traz alívio automático. Em muitos casos, desencadeia um pacote de extremos de sinal contrário: secas severas e incêndios florestais em áreas que antes estavam sob chuva intensa e enchentes violentas quando a umidade retorna a solos degradados por queimadas, com a água escorrendo em vez de infiltrar.
Estudos recentes sugerem que o aquecimento global pode estar ampliando o vaivém entre El Niños e La Niñas fortes, aumentando o risco de um efeito pêndulo climático em regiões como a Califórnia e partes da bacia do Mediterrâneo. Para Kelman, isso reforça a urgência de investir em sistemas de alimentação, saúde, transporte e energia mais resilientes, preparados para lidar com extremos consecutivos de seca e enchente.
Nesse quadro, pequenos agricultores e comunidades pobres aparecem como os mais expostos. Depois de perder colheitas para uma seca associada ao El Niño, muitos não têm reservas financeiras ou apoio público para suportar uma safra seguinte arruinada por chuvas ligadas à La Niña. O resultado é um ciclo de endividamento, migração forçada e insegurança alimentar que tende a se repetir a cada grande oscilação do Pacífico.