Quem já provou reconhece na primeira mordida. Começa com um formigamento, vem a dormência e, de repente, parece que a boca inteira está vibrando. É uma experiência difícil de confundir e que transformou o jambu em um dos sabores mais marcantes da Amazônia.
No Pará, a hortaliça está profundamente ligada à culinária e aparece em receitas que fazem parte da identidade regional. Durante o Círio de Nazaré, ganha ainda mais protagonismo nas mesas das famílias, especialmente em dois clássicos: o tacacá e o pato no tucupi.

Mas o jambu já não cabe apenas dentro das panelas.
A erva que faz a boca “tremer” passou a aparecer em cachaças, licores, farinhas, chocolates e outros produtos. Ao mesmo tempo, uma substância responsável por sua característica mais famosa colocou a planta também no radar de pesquisadores e das indústrias cosmética e farmacêutica.
É essa transformação que a série especial “Sabores do Círio”, da TV Norte SBT Pará, apresenta ao percorrer os ingredientes, pratos e histórias que ajudam a explicar a relação entre comida, memória e identidade paraense.
Do Ver-o-Peso à mesa: os sabores que contam a história do Círio de Nazaré
Por que o jambu faz a boca tremer?
Por trás da sensação de formigamento e dormência está principalmente o espilantol, composto bioativo encontrado no jambu.
Quando a planta é mastigada, a substância provoca aquela sensação característica na língua e nos lábios, transformando o consumo do ingrediente em uma experiência que envolve não apenas sabor e aroma, mas também sensações.
É justamente o espilantol que ampliou o interesse científico e econômico pela planta.
Pesquisas realizadas ao longo dos anos investigam diferentes propriedades do composto e suas possíveis aplicações. Estudos também desenvolveram métodos para extrair o espilantol com elevado grau de pureza, abrindo possibilidades de utilização em produtos farmacêuticos, cosméticos e de higiene pessoal.
Da tradição do Círio para novos produtos
Durante muito tempo, para boa parte do público de fora da Amazônia, falar em jambu significava pensar imediatamente em tacacá.
No Pará, porém, sua presença é muito mais ampla.
O ingrediente também acompanha o pato no tucupi, prato tradicional do almoço do Círio, e passou a ganhar novas formas à medida que produtores, cozinheiros e empreendedores começaram a explorar a experiência sensorial provocada pela planta.
Hoje é possível encontrar o jambu em bebidas alcoólicas, bombons de chocolate, farinhas, temperos e outros produtos.
A característica que antes surpreendia quem experimentava uma cuia de tacacá virou também um elemento de identidade para produtos amazônicos.
Jambu também chegou aos laboratórios
A versatilidade da planta despertou o interesse de pesquisadores.
No Pará, estudos realizados no Laboratório de Tecnologia Supercrítica, instalado no Parque de Ciência e Tecnologia do Guamá, em Belém, investigam formas de aproveitar o jambu desde o cultivo e processamento até a obtenção de extratos.
O espilantol está no centro de parte dessas pesquisas.

A substância tem sido estudada por suas propriedades biológicas e pelo potencial de utilização em diferentes segmentos. Pesquisadores já conseguiram produzir extratos ricos no composto utilizando processos que buscam evitar solventes tóxicos.
Há pesquisas voltadas, por exemplo, ao desenvolvimento de produtos cosméticos e farmacêuticos.
A existência desses estudos, porém, não significa que consumir jambu funcione como tratamento de doenças. As pesquisas analisam compostos, extratos, concentrações e mecanismos específicos, em condições controladas.
E o coração?
A relação entre o espilantol e o sistema cardiovascular também já despertou interesse científico.
Pesquisas experimentais investigaram a ação do composto extraído do jambu sobre a atividade elétrica cardíaca e outros mecanismos relacionados ao funcionamento cardiovascular.
Parte desses trabalhos foi realizada em modelos experimentais, incluindo estudos com animais.
Por isso, os resultados não permitem afirmar que comer jambu previna ou trate doenças do coração. Eles mostram, sobretudo, que os compostos presentes na planta possuem características que continuam sendo investigadas pela ciência.
É justamente essa distância entre o uso tradicional e as possibilidades científicas que faz do ingrediente um objeto de pesquisa.
Cosméticos também exploram o espilantol
Outro campo de interesse é a indústria de cosméticos.
Pesquisas brasileiras já desenvolveram processos para obtenção de extratos de jambu ricos em espilantol, e o composto é estudado para aplicações em formulações cosméticas.
No Pará, pesquisadores também trabalham no desenvolvimento de produtos a partir da planta, entre eles formulações destinadas à pele.
A Unicamp possui ainda tecnologia patenteada para obtenção de espilantol e análogos, voltada a possíveis aplicações nos setores farmacêutico e cosmético.
A planta amazônica que durante gerações foi reconhecida principalmente pelo sabor, portanto, também passou a ser observada pelo valor de seus compostos.
Um ingrediente que carrega a identidade do Pará
Apesar das novas aplicações, é à mesa que o jambu mantém uma de suas relações mais fortes com a cultura paraense.
No período do Círio, essa ligação se torna ainda mais evidente.
A celebração religiosa movimenta Belém e reúne famílias em torno de receitas transmitidas entre gerações. Ingredientes regionais ajudam a construir um almoço no qual comida, afeto e memória se misturam.
O jambu participa dessa história.
Ele está na cuia fumegante de tacacá, acompanha o tucupi, chega aos pratos do almoço e, cada vez mais, aparece também em produtos que reinterpretam os sabores da Amazônia.
Entre a tradição e a inovação, a erva que faz a boca tremer mostra como um ingrediente profundamente ligado à cultura paraense pode atravessar fronteiras: sai da feira, chega à cozinha, passa pela indústria e entra no laboratório sem perder a ligação com o lugar onde se tornou símbolo.
Série percorre os Sabores do Círio
O jambu integra a série especial “Sabores do Círio”, exibida pela TV Norte SBT Pará.
A produção percorre ingredientes e receitas que fazem parte da relação dos paraenses com o Círio de Nazaré e mostra como a culinária também preserva histórias familiares e a memória coletiva.
Entre os destaques da série está ainda a maniçoba, um dos pratos mais tradicionais do almoço do Círio e receita que costuma reunir famílias durante a celebração.
Mais do que apresentar pratos, a série mostra que, no Pará, os sabores também ajudam a contar a história de uma das maiores manifestações religiosas do país.