Senador eleito por Mato Grosso com 1.187.352 votos, o ex-governador Mauro Mendes (União Brasil) aproveita os primeiros dias após a vitória para defender uma guinada liberal na legislação trabalhista: ele é contra o fim da escala 6×1 e quer liberar jornadas de até 16 horas diárias, em modelo que compara ao praticado nos Estados Unidos.
Mendes usa imigração aos EUA para defender jornadas longas
Em entrevista concedida nesta semana, Mendes argumentou que muitos brasileiros aceitam trabalhar por longas jornadas no exterior em troca de salários maiores e melhor padrão de vida. “Lá nos Estados Unidos nós temos milhares e milhares e centenas de milhares de brasileiros que fogem daqui, entram clandestinamente nos Estados Unidos para trabalhar 12, 14, 16 horas por dia, 10 horas por dia, e ganham por isso. E ganham muito mais por isso, e têm uma qualidade de vida melhor”, afirmou o senador eleito.
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Ao fazer a comparação, ele classificou como exagero a forma como a legislação brasileira trata o aumento da carga horária. “No Brasil, se um trabalhador trabalhar 11 horas por dia, o patrão, a empresa, vai ser processada por trabalho escravo. Olha que absurdo!”, disse.
Mendes defende que o trabalhador possa escolher atuar em jornadas estendidas, de 10 a 16 horas diárias, em troca de maior remuneração. Para ele, o papel do Estado deve ser garantir uma relação “justa” entre capital e trabalho, mas sem impor limites rígidos que, em sua avaliação, atrapalham a produtividade e a economia.
Defesa de menos proteção estatal ao trabalhador
O senador eleito sustenta que as regras atuais foram pensadas para um cenário em que o trabalhador tinha pouco acesso à informação. Segundo ele, esse quadro mudou com a popularização da internet e dos celulares. “As pessoas não são mais imbecis ou desinformadas como eram antigamente. Hoje, todo mundo tem informação na palma da mão, as pessoas conseguem se autotutelar”, declarou.
Nessa linha, Mendes afirma que o país precisa de “mais liberdade econômica” e de flexibilização de normas trabalhistas que, segundo ele, “não são produtivas e não são eficientes para o Brasil”. A ideia, diz, é permitir que “os trabalhadores produzam mais e ganhem mais”.
Ele também critica a visão de que o Estado deve ser o principal protetor nas relações de trabalho. “Não precisa achar que o Estado tem que proteger todo mundo”, afirmou, ao defender que a negociação entre empresas e empregados tenha mais espaço e menos amarras legais.
Entenda o contexto
A fala de Mauro Mendes ocorre no momento em que o Congresso discute uma proposta de emenda à Constituição que acaba com a escala 6×1, regime que prevê seis dias de trabalho seguidos por um de descanso, amplamente usado em setores como comércio, serviços, indústria e agricultura.
O texto já foi aprovado na Câmara dos Deputados e aguarda votação no Senado. Diante da polêmica em torno do tema, o presidente da Casa decidiu adiar a análise para depois do primeiro turno das eleições. A mudança pode impactar diretamente a organização das escalas e o tempo semanal de trabalho de milhões de trabalhadores.
Ao se posicionar contra o fim do 6×1 e a favor de jornadas bem mais extensas, Mendes se alinha a setores empresariais que defendem maior flexibilidade para montar escalas e reduzir custos. Do outro lado, centrais sindicais e entidades de defesa de direitos trabalhistas argumentam que o aumento da jornada eleva riscos à saúde, à segurança e à qualidade de vida, especialmente entre quem tem menor poder de negociação.
Impacto no futuro debate trabalhista no Senado
Eleito com 33,21% dos votos válidos, Mauro Mendes toma posse no Senado em fevereiro de 2027, ao lado de José Medeiros (PL), também eleito por Mato Grosso. Embora ainda não esteja no exercício do mandato, o posicionamento público antecipa o tom que pretende levar às discussões sobre reforma trabalhista na próxima legislatura.
O próprio senador eleito defende que a legislação seja reformada “na amplitude do mundo moderno”, com uma revisão profunda das regras que definem jornada, descanso e proteção no trabalho. A tendência é que, com a consolidação do novo Senado, o embate entre propostas de flexibilização e a manutenção de salvaguardas históricas aos trabalhadores ganhe força, em meio à pressão de sindicatos, empresários e do próprio governo federal.
Além de influenciar votações como a da escala 6×1, uma reforma mais ampla, nos termos sugeridos por Mendes, pode alterar parâmetros de fiscalização, critérios para caracterizar condições degradantes e a forma como acordos coletivos tratam de compensação, horas extras e descanso semanal.