O calor extremo durante a gravidez está associado ao aumento do risco de parto prematuro, morte fetal, baixo peso ao nascer e complicações para a saúde das mães. O alerta foi feito pela Organização das Nações Unidas (ONU), que defende medidas urgentes para proteger gestantes e recém-nascidos diante do avanço das mudanças climáticas.
Uma pesquisa internacional apresentada nesta segunda-feira (5) revelou que 73% dos profissionais de saúde materna entrevistados observaram aumento de casos ou complicações relacionados às altas temperaturas nos últimos cinco anos. O levantamento ouviu mil profissionais no Brasil, Austrália, Índia, Reino Unido e Zimbábue.
O alerta foi apresentado por Simon Stiell, secretário executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, durante reuniões preparatórias para a COP31, realizadas em Fiji, no Pacífico Sul.
Enchentes, secas e calor extremo mostram como mudanças climáticas já afetam o Brasil
Por que o calor extremo preocupa durante a gravidez?
Durante a gestação, o organismo passa por mudanças na circulação sanguínea, no metabolismo e na regulação da temperatura corporal. Essas alterações podem aumentar a vulnerabilidade das grávidas durante períodos prolongados de calor intenso.
A exposição a temperaturas elevadas pode favorecer a desidratação e aumentar o esforço do organismo para controlar a temperatura interna. Pesquisas também identificam associação entre o calor extremo e complicações que podem antecipar o nascimento do bebê.
Entre os problemas apontados pela ONU estão o parto prematuro, que ocorre antes de 37 semanas de gestação, o baixo peso ao nascer e a morte fetal, também chamada de natimortalidade.
Isso não significa que toda gestante exposta ao calor terá complicações. Os estudos identificam aumento de risco, que pode variar conforme a intensidade e a duração da exposição, as condições de saúde e o acesso ao atendimento médico.
Brasil está entre os países pesquisados
O levantamento internacional ouviu profissionais que trabalham diretamente com gestantes e recém-nascidos. Além dos 73% que perceberam aumento de complicações relacionadas ao calor, 81% dos entrevistados demonstraram preocupação com os impactos das altas temperaturas sobre a saúde materna e neonatal.
No Brasil, a preocupação é ainda mais expressiva: 89% dos profissionais brasileiros ouvidos disseram estar preocupados com os efeitos do calor sobre recém-nascidos, enquanto 77% acreditam que os riscos para mães e bebês aumentarão nos próximos cinco anos.
Pesquisadores ligados ao Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs), da Fiocruz Bahia, também identificaram que a exposição ao calor extremo no início da gestação e nas últimas semanas antes do parto está associada a maior risco de nascimento prematuro.
Os resultados reforçam a necessidade de considerar as condições climáticas no acompanhamento pré-natal, especialmente em regiões que enfrentam ondas de calor frequentes.
Gestantes mais vulneráveis enfrentam riscos adicionais
A ONU alerta que os impactos das altas temperaturas não atingem todas as mulheres da mesma maneira. Gestantes que vivem em moradias sem ventilação adequada, trabalham expostas ao sol ou enfrentam dificuldades para acessar serviços de saúde podem estar mais vulneráveis.
A situação também preocupa em comunidades com abastecimento irregular de água e eletricidade, onde as possibilidades de reduzir a exposição ao calor são limitadas.
Outro problema está na infraestrutura das unidades de saúde. Hospitais e maternidades sem refrigeração adequada, fornecimento contínuo de energia ou acesso suficiente à água podem enfrentar dificuldades adicionais para atender pacientes durante ondas de calor.
Como se proteger durante os dias mais quentes?
Especialistas em saúde recomendam que gestantes adotem cuidados adicionais durante períodos de temperaturas elevadas, principalmente quando há alertas de ondas de calor.
Entre as medidas estão beber água regularmente, permanecer em ambientes frescos e ventilados, usar roupas leves e evitar atividades físicas intensas ou exposição prolongada ao sol nos horários mais quentes.
Também é importante manter o acompanhamento pré-natal e conversar com a equipe de saúde sobre os riscos associados ao calor, especialmente quando existem doenças anteriores ou complicações na gravidez.
Sintomas como tontura persistente, desmaio, confusão mental, febre ou sinais de desidratação intensa exigem avaliação médica. Sangramento, perda de líquido, contrações antes do tempo ou redução dos movimentos do bebê também precisam de atendimento imediato.
ONU cobra proteção às gestantes nos planos climáticos
A preocupação com a saúde materna passou a integrar as discussões internacionais sobre adaptação às mudanças climáticas. Durante o encontro em Fiji, Simon Stiell defendeu que os países considerem gestantes e recém-nascidos na elaboração de políticas para enfrentar o aumento das temperaturas.
A proposta envolve preparar os sistemas de saúde para eventos climáticos extremos, melhorar a infraestrutura de atendimento e ampliar a proteção de populações socialmente vulneráveis.
O tema ganha importância diante do aumento da frequência e da intensidade de ondas de calor em diferentes regiões do planeta. Para a ONU, proteger a saúde de mães e bebês precisa fazer parte das estratégias de adaptação climática, e não apenas das ações tradicionais de assistência médica.
Próximos passos
As discussões preparatórias para a COP31 devem contribuir para as negociações internacionais sobre financiamento climático e medidas de adaptação. A expectativa é que a proteção de populações vulneráveis, incluindo gestantes e recém-nascidos, receba maior atenção nas políticas de saúde e clima.
O desafio será transformar os alertas científicos em ações concretas, especialmente nos países onde o calor extremo se combina com desigualdade social e dificuldades de acesso à assistência médica.