A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu intensificar os alertas sobre possíveis consequências de uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições de 2026. Segundo reportagem publicada pelo jornal O Globo nesta sexta-feira (9), a estratégia busca associar o adversário a riscos de redução de programas sociais, mudanças na política de valorização do salário mínimo e alterações em benefícios destinados à população de baixa renda.
A mudança ocorre após Lula terminar o primeiro turno atrás de Flávio, com uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos. A campanha petista pretende utilizar a propaganda eleitoral, os discursos do presidente e a atuação de ministros para apresentar comparações entre os governos do PT e de Jair Bolsonaro. ,
Flávio rejeita as acusações e afirma que não pretende realizar cortes que prejudiquem aposentados ou pessoas de baixa renda.
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PT pretende destacar riscos de cortes em programas sociais
Uma das prioridades da campanha de Lula será questionar como Flávio Bolsonaro pretende executar seu plano de ajuste fiscal sem comprometer políticas públicas.
Entre os programas mencionados nas discussões estão o Farmácia Popular, que oferece medicamentos gratuitos ou subsidiados, e iniciativas voltadas à educação e à assistência social.
A equipe petista também pretende explorar diferenças entre as políticas de valorização do salário mínimo adotadas pelos governos Lula e Jair Bolsonaro.
Durante a gestão do ex-presidente, os reajustes do salário mínimo não seguiram uma política permanente de aumento real acima da inflação. O atual governo retomou uma fórmula de valorização vinculada à inflação e ao crescimento econômico, posteriormente submetida a limites fiscais.
A campanha de Lula pretende utilizar esse histórico para questionar as prioridades econômicas de Flávio. Entretanto, decisões adotadas no governo de Jair Bolsonaro não comprovam, por si só, que o filho repetiria as mesmas medidas caso fosse eleito.

Lula critica proposta de corte de gastos de Flávio
Na quinta-feira (8), Lula publicou um vídeo nas redes sociais para questionar a proposta de ajuste fiscal defendida pela equipe econômica de Flávio Bolsonaro.
O presidente afirmou que medidas de contenção de despesas podem atingir a população mais vulnerável e criticou a possibilidade de redução de investimentos em políticas públicas.
A declaração faz parte da tentativa de associar o debate econômico às consequências práticas das propostas apresentadas pelas candidaturas.
A equipe de Flávio defende um ajuste equivalente a aproximadamente 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB), mas sustenta que pretende concentrar a redução de despesas em desperdícios, privilégios e gastos considerados ineficientes.
Até que sejam detalhadas as medidas e as áreas atingidas, não é possível afirmar quais programas sofreriam cortes ou qual seria o impacto efetivo do ajuste.
Ministro da Educação alerta para possíveis impactos
O ministro da Educação, Leonardo Barchini, também passou a questionar publicamente as propostas econômicas da candidatura de Flávio Bolsonaro.
Em entrevista ao colunista Fabio Graner, de O Globo, Barchini afirmou que uma redução de gastos da dimensão anunciada poderia comprometer programas educacionais, bolsas de pesquisa e o orçamento das universidades federais.
Ao comentar o possível impacto, declarou:
“O Pé-de-meia é o primeiro a acabar. Acaba o discricionário das universidades. A conta não fecha.”
A afirmação representa uma avaliação do ministro sobre as consequências potenciais do ajuste fiscal, e não uma decisão anunciada pela campanha de Flávio de encerrar o Pé-de-Meia ou reduzir bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
A proposta econômica ainda precisaria ser detalhada para permitir uma avaliação precisa de seus efeitos sobre cada área do orçamento federal.

Flávio Bolsonaro nega intenção de prejudicar aposentados
Flávio Bolsonaro reagiu às críticas e negou que seu plano econômico tenha como objetivo reduzir benefícios de aposentados ou retirar recursos de pessoas que dependem de programas sociais.
Na quinta-feira, o candidato do PL afirmou:
“Não vou fazer economia em cima de quem precisa.”
Flávio também pediu que aposentados não acreditassem nas afirmações feitas por seus adversários, classificando como desinformação a possibilidade de que sua candidatura pretendesse prejudicar esse grupo.
O posicionamento demonstra uma divergência central entre as campanhas: enquanto Lula questiona os possíveis efeitos do ajuste fiscal, Flávio afirma que pretende preservar os benefícios sociais e direcionar os cortes a outras despesas.
A definição dos impactos dependeria da apresentação de medidas específicas e, em determinados casos, da aprovação de mudanças pelo Congresso Nacional.
Estratégia já apareceu em eleições anteriores
O uso de alertas sobre possíveis consequências de uma vitória adversária não é novidade nas campanhas presidenciais brasileiras.
Em 2014, durante a disputa pela reeleição de Dilma Rousseff (PT), a propaganda petista apresentou críticas à proposta de autonomia do Banco Central defendida por Marina Silva, então candidata à Presidência.
Uma das peças publicitárias associava a medida a riscos para a alimentação das famílias, utilizando imagens para representar possíveis consequências econômicas.
A campanha, comandada pelo publicitário João Santana, procurava questionar propostas da adversária e influenciar a percepção dos eleitores sobre seus efeitos.
O recurso também foi utilizado por adversários do PT em diferentes eleições.
Em 2002, a atriz Regina Duarte participou da propaganda eleitoral de José Serra (PSDB) e expressou preocupação com a possibilidade de Lula chegar à Presidência.
“Eu tenho medo.”
A frase ganhou repercussão nacional e se tornou uma das referências mais conhecidas daquele segundo turno.
Já em 2022, a campanha de Jair Bolsonaro associou uma eventual vitória de Lula ao risco de o Brasil seguir caminhos semelhantes aos da Venezuela, argumento utilizado para criticar o projeto político petista.
Esses episódios mostram que campanhas de diferentes orientações políticas já recorreram a mensagens sobre riscos futuros. A existência de uma estratégia eleitoral, contudo, não determina se os alertas apresentados são fundamentados. Cada afirmação precisa ser examinada a partir das propostas, dos dados e do contexto.
Propaganda eleitoral ganha importância no segundo turno
A nova linha de comunicação deve aparecer nos programas de rádio e televisão, retomados nesta sexta-feira (9), além das redes sociais e dos eventos de campanha.
Segundo O Globo, integrantes da equipe de Lula avaliam que o primeiro turno poderia ter contado com críticas mais diretas às propostas de Flávio Bolsonaro.
A orientação agora é apresentar possíveis consequências de uma mudança de governo e confrontar o adversário sobre temas econômicos e sociais.
Ao mesmo tempo, Lula ampliou sua presença digital, com a gravação de vídeos curtos e a participação de parlamentares jovens nas publicações.
O presidente também pretende comparecer a debates, depois de não ter participado dos confrontos entre presidenciáveis realizados na primeira etapa da eleição.
Diferença no primeiro turno ajuda a explicar mudança
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno, realizado em 4 de outubro, com 56.104.268 votos, equivalentes a 47,03% dos votos válidos.
Lula recebeu 53.876.617 votos, ou 45,16%. A diferença foi de 2.227.651 votos.
Na primeira pesquisa Datafolha divulgada para o segundo turno, realizada entre 6 e 7 de outubro, Flávio apareceu com 49% das intenções de voto totais, contra 45% de Lula. A margem de erro do levantamento é de dois pontos percentuais.
O instituto entrevistou 2.520 eleitores de 16 anos ou mais. A pesquisa foi registrada na Justiça Eleitoral sob o número BR-02949/2026.
Além de buscar votos entre os eleitores que escolheram outras candidaturas, os dois concorrentes tentam mobilizar brasileiros que não compareceram às urnas na primeira votação.
Campanhas disputam interpretação sobre o futuro das políticas públicas
A estratégia adotada pelo PT coloca o debate sobre programas sociais e gastos públicos no centro da disputa presidencial.
Lula pretende apresentar sua candidatura como garantia de continuidade de políticas públicas e questionar os efeitos de um eventual governo Flávio Bolsonaro.
O candidato do PL, por sua vez, defende mudanças na gestão econômica e afirma que é possível reduzir despesas sem comprometer benefícios destinados à população mais vulnerável.
As duas posições envolvem propostas e projeções que precisam ser avaliadas individualmente. Alertas sobre o encerramento de programas não equivalem a decisões efetivamente tomadas, assim como promessas de preservação de benefícios dependem de sua execução e viabilidade orçamentária.
Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, a comparação entre os projetos de governo deve ganhar espaço na propaganda eleitoral, nos debates e nas próximas agendas dos candidatos.