Carros elétricos podem causar mais enjoo? Entenda o que diz a ciência

Ausência de ruídos do motor, acelerações rápidas e frenagem regenerativa podem provocar náuseas em passageiros mais sensíveis; pesquisas ainda buscam entender o fenômeno.
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Carros elétricos podem provocar mais enjoo em alguns passageiros do que veículos tradicionais movidos a combustão. A possibilidade, relatada por motoristas e ocupantes desses automóveis, tem sido investigada por pesquisadores que apontam o silêncio do motor, as acelerações rápidas e a frenagem regenerativa como possíveis causas do desconforto. Apesar dos indícios, ainda não existe comprovação científica suficiente para afirmar que todos os veículos elétricos provocam mais enjoo.

O problema é conhecido como cinetose, condição que ocorre quando o cérebro recebe informações conflitantes sobre os movimentos do corpo. Os sintomas incluem náuseas, tontura, suor frio e, em casos mais intensos, vômitos. Embora também aconteça em carros convencionais, algumas características dos modelos elétricos podem tornar o desconforto mais intenso para determinadas pessoas.

Em reportagem publicada nesta segunda-feira (12), pesquisadores e especialistas ouvidos pela BBC News explicaram que o fenômeno ainda está sendo estudado. Enquanto alguns passageiros relatam dificuldades até mesmo em trajetos curtos, outros afirmam não perceber qualquer diferença entre carros elétricos e veículos a combustão.

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Por que carros elétricos podem provocar mais enjoo?

Uma das principais hipóteses envolve a ausência de sons e vibrações que normalmente ajudam o cérebro a antecipar os movimentos do veículo.

Nos carros a combustão, o barulho do motor, as mudanças de marcha e as vibrações funcionam como sinais de aceleração e desaceleração. Nos elétricos, esses estímulos são menos perceptíveis, o que pode dificultar a interpretação dos movimentos por alguns passageiros.

A pesquisadora Irene Di Giulio, professora de anatomia e biomecânica do King’s College London, explica que estudos realizados até agora sugerem que determinadas pessoas apresentam sintomas mais intensos de cinetose em veículos elétricos.

O neurologista Nicholas Hac, da Northwestern Medicine, nos Estados Unidos, também relatou que recebe pacientes que associam o aumento dos episódios de enjoo às viagens nesses automóveis.

Segundo os especialistas, o desconforto acontece quando os olhos, o ouvido interno e os receptores sensoriais do corpo enviam informações diferentes ao cérebro.

Isso pode ocorrer, por exemplo, quando uma pessoa olha para o celular enquanto o automóvel acelera ou faz curvas. A visão identifica uma imagem praticamente parada, enquanto o ouvido interno percebe o movimento.

Frenagem regenerativa pode aumentar o desconforto

Outra característica investigada é a frenagem regenerativa, tecnologia que permite recuperar parte da energia utilizada pelo veículo durante a desaceleração.

Em muitos carros elétricos, retirar o pé do acelerador já faz o automóvel reduzir a velocidade, mesmo sem o motorista pressionar o freio.

Dependendo da intensidade configurada, essa desaceleração pode ocorrer de maneira mais perceptível e provocar uma sensação de movimento para frente e para trás.

Um estudo publicado em 2025 no International Journal of Human-Computer Interaction analisou 16 participantes com maior predisposição ao enjoo.

Os pesquisadores observaram que níveis mais elevados de frenagem regenerativa estavam associados ao aumento dos sintomas. O estudo também identificou que sinais sonoros capazes de antecipar os movimentos ajudaram a reduzir o desconforto.

Entretanto, como a pesquisa envolveu um grupo pequeno de participantes, os resultados não podem ser generalizados para todos os passageiros.

Aceleração rápida também influencia

Os motores elétricos conseguem entregar torque elevado praticamente de forma imediata, permitindo acelerações rápidas e respostas instantâneas aos comandos do motorista.

Embora essa característica seja considerada uma vantagem de desempenho, mudanças bruscas de velocidade podem aumentar a sensação de enjoo em pessoas mais sensíveis.

A forma de dirigir também influencia o conforto durante a viagem. Acelerações progressivas, frenagens suaves e curvas realizadas sem movimentos repentinos podem ajudar a diminuir os sintomas.

Especialistas ressaltam que o desconforto não depende exclusivamente da tecnologia do automóvel, mas também do comportamento do motorista, das condições da estrada e da sensibilidade de cada passageiro.

Enjoo em carros elétricos pode ser mais comum entre mulheres e crianças

Crianças e mulheres podem ser mais sensíveis

A predisposição à cinetose varia entre as pessoas e pode estar relacionada a fatores genéticos e características individuais.

Segundo especialistas ouvidos pela BBC, crianças e mulheres apresentam maior suscetibilidade ao enjoo de movimento.

O pesquisador John Golding, que estudou o fenômeno na Universidade de Westminster, explica que os sintomas costumam atingir maior intensidade entre os 8 e os 10 anos de idade.

Com o passar dos anos e a exposição repetida a determinados movimentos, parte das pessoas pode desenvolver maior tolerância.

Isso ajuda a explicar por que alguns passageiros relatam melhora após se acostumarem com as viagens em carros elétricos.

Por que motoristas costumam sentir menos enjoo?

Quem está dirigindo geralmente consegue antecipar acelerações, frenagens e curvas porque controla o veículo e acompanha constantemente a estrada.

Já os passageiros não têm o mesmo controle sobre os movimentos, especialmente quando estão sentados no banco traseiro.

A situação pode piorar quando o ocupante utiliza o celular, lê um livro ou permanece olhando para baixo durante o trajeto.

A falta de referências visuais sobre o deslocamento aumenta o conflito entre as informações recebidas pelo cérebro e pode favorecer o aparecimento dos sintomas.

Como evitar enjoo durante viagens?

Algumas medidas podem ajudar a reduzir o desconforto, independentemente do tipo de automóvel.

Entre as principais recomendações estão olhar para a estrada, evitar o uso prolongado do celular, manter a cabeça apoiada e permitir a entrada de ar fresco no veículo.

Sempre que possível e respeitando as regras de segurança, viajar no banco dianteiro também pode ajudar, já que permite acompanhar melhor os movimentos do carro.

Manter uma boa hidratação, dormir adequadamente e evitar refeições muito gordurosas antes de viagens longas são outras orientações apresentadas pelos especialistas.

Nos veículos elétricos que permitem ajustar a intensidade da frenagem regenerativa, configurações mais suaves podem contribuir para uma viagem mais confortável.

Medicamentos contra enjoo também podem ser utilizados em determinadas situações, mas devem ser indicados por um profissional de saúde, especialmente porque alguns provocam sonolência.

Fabricantes estudam soluções para reduzir o problema

Com o crescimento do mercado de veículos elétricos, pesquisadores e fabricantes investigam tecnologias capazes de melhorar o conforto dos passageiros.

Entre as alternativas estão sistemas que suavizam acelerações, recursos sonoros que antecipam mudanças de movimento e ajustes automáticos na frenagem regenerativa.

Também são estudadas vibrações discretas nos bancos e outras soluções que ajudam os ocupantes a perceber melhor os movimentos do automóvel.

Apesar dos avanços, especialistas destacam que ainda são necessárias pesquisas com grupos maiores de participantes para determinar a frequência do problema e compreender suas causas.

Por enquanto, a principal conclusão é que algumas características dos carros elétricos podem contribuir para o enjoo de pessoas mais sensíveis, mas isso não significa que todos os passageiros apresentarão sintomas.

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