O avanço da violência e a perda de interesse dos estudantes pela escola marcam a passagem dos anos iniciais para os anos finais do ensino fundamental. Um levantamento da Great Place to Study Brasil mostra que a parcela de alunos que afirma se sentir feliz e empolgada para ir às aulas cai de 79,9% no 4º ano para 50,8% no 7º ano. No mesmo intervalo, o percentual dos que relatam exposição à violência mais que dobra, passando de 16,6% para 39%.
Os dados fazem parte da terceira edição do relatório anual de Saúde Mental & Bem-Estar Escolar, divulgado em outubro de 2026. A pesquisa ouviu quase 90 mil pessoas, entre estudantes, professores e familiares, ao longo de 2025 e 2026.
Os resultados indicam uma redução de 29,1 pontos percentuais na percepção positiva sobre a escola e um aumento de 22,4 pontos percentuais nos relatos de violência entre as séries analisadas.
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Violência passa a fazer parte da rotina de mais estudantes
A situação se agrava nas etapas seguintes da educação básica. A partir do 8º ano, 57% dos estudantes pesquisados relatam conviver com situações de bullying ou violência física tratadas como normais no ambiente escolar.
Outro resultado chama a atenção para a confiança dos estudantes na capacidade das instituições de lidar com conflitos. Entre aqueles que sofreram bullying, 44% não acreditam que a escola adotará medidas efetivas para enfrentar o problema.
Os percentuais mostram que a violência não se limita aos episódios de agressão física. A intimidação recorrente entre colegas e a percepção de que as ocorrências não terão uma resposta adequada também aparecem como problemas para a convivência escolar.
O levantamento, porém, não permite concluir que a violência seja a única responsável pela queda no interesse dos alunos. Os dados registram uma associação entre as dificuldades de convivência e a perda do vínculo com a instituição, mas não demonstram, isoladamente, uma relação de causa e efeito.
Professores também relatam sofrimento emocional
O relatório aponta dificuldades que ultrapassam a experiência dos estudantes. Entre os professores ouvidos, aproximadamente um em cada sete apresenta sinais de sofrimento emocional severo.
A pesquisa também identificou que 66,3% dos docentes manifestaram arrependimento em relação à escolha da profissão, um resultado que chama a atenção para a maneira como os profissionais avaliam suas condições de trabalho e a própria trajetória na educação.
A combinação entre conflitos escolares, desgaste emocional e dificuldades de relacionamento pode comprometer a convivência entre professores e estudantes. Nesse ambiente, a capacidade das escolas de identificar situações de violência e oferecer apoio aos envolvidos passa a ser uma questão importante para a permanência e a aprendizagem dos alunos.
Famílias confiam nas escolas, mas participação é menor
Apesar dos problemas identificados, o levantamento mostra que mais de 95% das famílias entrevistadas afirmam confiar nas instituições de ensino. Esse resultado, no entanto, contrasta com a participação efetiva dos responsáveis na rotina escolar.
Segundo a pesquisa, apenas 54,6% das famílias mantêm diálogo ativo com a escola. A diferença entre os dois indicadores sugere que a confiança na instituição nem sempre se traduz em acompanhamento frequente das atividades e dos problemas enfrentados pelos estudantes.
A participação familiar é um dos aspectos considerados nas discussões sobre prevenção ao bullying, acolhimento dos alunos e identificação de mudanças de comportamento que possam indicar situações de sofrimento.