Flávio teria pago R$ 600 mil a empresa que oferece sistema de IA para manipular eleições, afirma Intercept
Campanha de Flávio Bolsonaro pagou R$ 600 mil à empresa que ofereceu tecnologia de inteligência artificial para influenciar eleições nos Estados Unidos; candidato nega irregularidades.
A campanha do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) pagou R$ 600 mil à Elytron, empresa de cibersegurança que ofereceu nos Estados Unidos um sistema de inteligência artificial voltado a operações clandestinas de influência política. A informação foi revelada nesta sexta-feira (16) pelo Intercept Brasil, com base em documentos e relatos de um ex-consultor da companhia.
Segundo a investigação jornalística, a tecnologia apresentada pela empresa permitiria mapear perfis de eleitores, criar contas falsas em redes sociais, disseminar informações enganosas e executar estratégias para desacreditar adversários políticos. Os documentos descrevem mecanismos de segmentação de públicos e distribuição coordenada de conteúdos digitais.
Apesar das informações sobre os pagamentos e das características do sistema oferecido no exterior, a reportagem ressalta que não há evidências de que a campanha de Flávio Bolsonaro ou o Partido Liberal tenham utilizado a ferramenta de manipulação eleitoral. A assessoria do candidato nega a contratação de serviços ilegais e afirma que o trabalho da Elytron se restringiu à proteção de sistemas e comunicações contra ataques cibernéticos.
Pagamentos de R$ 600 mil aparecem nas contas eleitorais de Flávio Bolsonaro
De acordo com o Intercept Brasil, os pagamentos à Elytron constam no DivulgaCand, sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) utilizado para consultar receitas e despesas declaradas por candidatos e partidos.
Os registros consultados pela reportagem incluem três notas fiscais emitidas pela companhia. Duas delas, no valor de R$ 500 mil cada, foram emitidas em 16 de setembro de 2026, mas uma consta como cancelada. A terceira, de R$ 100 mil, foi emitida em 2 de outubro.
Considerando as notas não canceladas, os valores somam R$ 600 mil. A reportagem também identificou uma divergência na prestação de contas parcial apresentada no fim de setembro, na qual a campanha havia declarado uma despesa de R$ 1 milhão com a empresa.
Além dos pagamentos atribuídos à campanha presidencial, o Partido Liberal declarou ter destinado R$ 131,9 mil à Elytron.
Nas notas fiscais, os serviços aparecem classificados como consultoria em tecnologia da informação. As descrições incluem atividades de apoio forense, investigação de phishing, testes de segurança e monitoramento de infraestrutura.
Essas atividades podem integrar contratos legítimos de segurança cibernética. A existência dos pagamentos, isoladamente, não demonstra que a campanha tenha contratado ou utilizado mecanismos de manipulação eleitoral.
Logo da Elytron, empresa de cibersegurança que recebeu R$ 600 mil da campanha de Flávio Bolsonaro, segundo registros de despesas eleitorais.
Empresa ofereceu sistema de inteligência artificial para influenciar eleitores
A investigação do Intercept Brasil teve acesso a documentos que descrevem uma tecnologia desenvolvida pela Elytron para operações de influência política.
Segundo o material apresentado nos Estados Unidos, o sistema combinaria grandes volumes de dados com ferramentas de inteligência artificial para identificar grupos específicos de eleitores e direcionar conteúdos de acordo com características demográficas, localização e comportamento nas redes sociais.
Entre as funcionalidades descritas estão a criação de perfis falsos, a utilização de avatares digitais, a disseminação de rumores e a produção de conteúdos destinados a prejudicar a imagem de adversários.
Os documentos também mencionam estratégias de infiltração em comunidades digitais e operações psicológicas para influenciar percepções políticas.
O ponto central da investigação é a diferença entre ferramentas convencionais de análise de dados, amplamente utilizadas em campanhas eleitorais, e operações coordenadas que utilizam identidades falsas ou informações enganosas para interferir no debate público.
Ex-consultor afirma ter identificado riscos na tecnologia
Os documentos foram apresentados ao Intercept Brasil pelo empresário e especialista em tecnologia Vincent Edward Reed, que atuou como consultor da Elytron entre 2024 e 2025.
Reed afirmou ter participado de contatos para apresentar a tecnologia a pessoas ligadas à campanha de Donald Trump nos Estados Unidos, em 2024. Segundo a reportagem, houve uma demonstração do sistema, mas não existe confirmação de que a campanha norte-americana tenha contratado a ferramenta.
O ex-consultor relatou preocupação com o potencial da tecnologia para direcionar conteúdos manipulados a eleitores, inclusive materiais produzidos por inteligência artificial.
De acordo com Reed, o sistema ultrapassaria a simples análise de dados e permitiria desenvolver estratégias para influenciar comportamentos e opiniões políticas.
O ex-consultor afirmou ter comunicado suas preocupações ao FBI e ao Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos. Segundo o relato, as iniciativas não resultaram no avanço de investigações conhecidas.
Como funcionaria a operação descrita nos documentos?
O material analisado pelo Intercept apresenta um modelo de operação dividido em etapas, começando pela definição de objetivos políticos e pela identificação de públicos específicos.
Em seguida, seriam escolhidas estratégias de comunicação e influência, que poderiam incluir a produção de imagens, vídeos, memes e conteúdos sintéticos criados com inteligência artificial.
As apresentações também descrevem a possibilidade de distribuir conteúdos por diferentes canais digitais, incluindo redes sociais, blogs e outras plataformas.
Uma das características destacadas na investigação é o uso de segmentação para atingir grupos de eleitores com mensagens específicas, de acordo com interesses e comportamentos identificados a partir de dados.
O uso de dados para conhecer o eleitorado não é, por si só, irregular. Entretanto, a criação coordenada de contas falsas, a disseminação deliberada de desinformação e a utilização enganosa de conteúdos sintéticos podem violar normas eleitorais e regras das plataformas digitais.
Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República nas eleições de 2026.
Campanha de Flávio Bolsonaro nega contratação de serviços ilegais
Procurada pelo Intercept Brasil, a campanha de Flávio Bolsonaro negou qualquer contratação de serviços destinados à manipulação eleitoral.
A assessoria afirmou que a campanha “não contrata nenhum serviço que viole a legislação eleitoral” e sustentou que o contrato com a Elytron teve como finalidade exclusiva proteger sistemas de comunicação contra ataques cibernéticos.
A campanha também classificou como grave a tentativa de associar a contratação de serviços de segurança da informação a práticas de manipulação política e afirmou que os procedimentos contratuais foram regulares.
Em manifestação divulgada posteriormente, a Elytron também negou envolvimento com operações de desinformação e reafirmou que sua atuação está relacionada à segurança cibernética preventiva.
Até o momento, as informações publicadas não comprovam que o sistema descrito nos documentos tenha sido utilizado na campanha presidencial brasileira.
O que diz a legislação eleitoral sobre inteligência artificial e desinformação?
O uso de ferramentas de inteligência artificial em campanhas eleitorais está sujeito às regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral, especialmente quando envolve produção de conteúdo sintético, transparência, propaganda e proteção da integridade do processo democrático.
As normas procuram impedir que eleitores sejam induzidos ao erro por conteúdos fabricados ou manipulados, além de combater práticas que comprometam a autenticidade do debate público.
Uma eventual irregularidade, entretanto, depende da análise dos fatos concretos, da finalidade dos serviços contratados, dos materiais produzidos e das provas disponíveis.
No caso da Elytron, a investigação jornalística apresenta documentos sobre a oferta de uma tecnologia de influência política nos Estados Unidos e registros de pagamentos feitos pela campanha de Flávio Bolsonaro no Brasil. Não demonstra, porém, que a ferramenta tenha sido utilizada pelo candidato.
Revelação ocorre durante a disputa presidencial de 2026
A reportagem foi publicada em meio à campanha do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro, quando Flávio Bolsonaro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltarão a disputar os votos dos brasileiros.
O episódio acrescenta ao debate eleitoral questões relacionadas à contratação de empresas de tecnologia, à transparência dos gastos de campanha e aos limites do uso de inteligência artificial na comunicação política.
A investigação também evidencia a importância de distinguir serviços legítimos de proteção digital de eventuais operações clandestinas de influência, cuja existência e utilização precisam ser demonstradas por evidências específicas.
Até que novas informações sejam apresentadas, permanecem documentados os pagamentos declarados à Justiça Eleitoral e a oferta, pela empresa, de uma tecnologia de influência política no exterior, sem comprovação de vínculo operacional entre os dois fatos.