Pré-treino pode fazer mal? Relatos de reações acendem alerta

Pesquisa da USP analisou efeitos cardiovasculares dos suplementos; endocrinologista explica os riscos da combinação com café e energéticos e os sinais que exigem atendimento médico
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Tremores, coração acelerado, ansiedade e aumento da pressão arterial estão entre as possíveis reações ao consumo de suplementos pré-treino, utilizados por quem busca mais energia e disposição durante os exercícios físicos. Embora algumas formulações possam contribuir para o desempenho, a presença desses sintomas não significa que o organismo esteja respondendo melhor ao treinamento. Em determinadas situações, os sinais podem indicar a necessidade de avaliação médica.

Uma revisão científica publicada em março de 2025, com participação de pesquisadores brasileiros, analisou 24 estudos sobre os efeitos dos pré-treinos na saúde cardiovascular. Quatro trabalhos investigaram complicações ou alterações cardiovasculares, enquanto os outros 20 não identificaram mudanças prejudiciais nos parâmetros avaliados. Os resultados mostram que os efeitos variam conforme a composição dos produtos, as doses e as condições de saúde dos consumidores.

A pesquisa foi publicada na revista internacional Journal of Cardiovascular Development and Disease e contou com pesquisadores ligados a instituições brasileiras, incluindo o Instituto do Coração da Universidade de São Paulo (InCor-USP). Os autores destacam que ainda são necessários novos estudos para esclarecer os efeitos dos suplementos e estabelecer orientações mais precisas sobre a segurança do consumo.

Tremores e coração acelerado durante os treinos

O arquivista Breno Silveira, de 31 anos, pratica musculação há aproximadamente seis anos. Durante esse período, decidiu experimentar um suplemento pré-treino para melhorar o desempenho e aumentar a disposição durante os exercícios.

O consumo durou três meses, tempo suficiente para perceber que os efeitos não correspondiam ao resultado que esperava.

“Eu malho há cerca de seis anos. Dentro desse período, utilizei pré-treino por três meses. Foi o tempo que o pote durou, mas eu suspendi o uso justamente porque, quando eu tomava, sentia muitas tremedeiras, taquicardia, meu coração muito acelerado”, relata.

Segundo Breno, a decisão de consumir o suplemento estava relacionada à expectativa de melhorar o rendimento físico. Entretanto, as reações começaram a interferir na experiência durante a atividade.

“Eu comecei a tomar com o intuito de melhorar o meu desempenho no treino, mas durante esse processo parece que ele estava mais atrapalhando do que ajudando”, afirma. Diante dos sintomas, o arquivista decidiu não continuar utilizando o produto.

O relato chama a atenção para uma situação que pode ser confundida com um efeito esperado dos estimulantes: a aceleração dos batimentos cardíacos. Embora a frequência cardíaca aumente naturalmente durante exercícios físicos, os estimulantes presentes em alguns pré-treinos podem provocar palpitações e intensificar essa resposta.

A endocrinologista Flora Nascimento da Paz, especialista em clínica médica, conversou com a reportagem do NC News e explicou que não existe uma reação única para todos os consumidores. “Os pré-treinos não são todos iguais. Alguns vão ter doses mais elevadas de cafeína e outros estimulantes, podem causar palpitação, aumento da pressão, tremores, taquicardia, insônia, ansiedade”, elenca.

Segundo a especialista, a composição, a quantidade consumida e as condições de saúde individuais ajudam a determinar como o organismo reage às substâncias presentes nos suplementos.

Empresária procurou hospital após sentir dormência no corpo

A empresária Suelen Trindade, de 38 anos, também começou a consumir pré-treino em busca de mais energia para os exercícios. Neste ano, com uma frequência maior na academia, decidiu utilizar o suplemento para melhorar a disposição.

Ela costumava consumir o produto cerca de dez minutos antes do treinamento e percebia os efeitos pouco depois.

“Eu tomava pra aumentar muito a minha disposição. Então eu tomava uns dez minutos antes de ir pra academia, sentia um formigamento, mas aumentava muito a minha disposição na hora do treino. Então me ajudou bastante”, conta.

A experiência inicial foi positiva. Com o passar do tempo, porém, Suelen aumentou a frequência de consumo, na tentativa de manter a sensação de energia.

“Só que eu comecei a aumentar a frequência de tomar o pré-treino pra aumentar essa disposição que eu tinha. Ao longo do tempo, eu fui sentindo que o formigamento foi diminuindo, porque eu acho que eu tava acostumando com o pré-treino no corpo”, relata.

A situação mudou recentemente, quando a empresária decidiu consumir o suplemento no fim de um dia em que já estava cansada. “Eu tomei também no final do dia, eu já tava bastante cansada, e aí eu comecei a ter uma reação como se fosse um princípio de um AVC”, afirma.

Suelen começou a sentir dormência em diferentes partes do corpo e decidiu procurar atendimento médico imediatamente. “Eu comecei a sentir dormência no braço, dormência na perna, dormência de um lado do rosto, e aí eu fui direto pro hospital”, recorda.

Após a avaliação médica, o diagnóstico relatado foi de enxaqueca com aura, uma condição neurológica que pode provocar alterações visuais e sensitivas, incluindo formigamentos e dormência.

Segundo a empresária, o médico explicou que o pré-treino poderia contribuir para o aparecimento dos sintomas e recomendou que ela interrompesse o consumo. “E aí o médico me proibiu de continuar fazendo uso de pré-treino, apesar de ser um produto que eu gosto muito e que me ajudava muito a ter disposição pra treinar”, afirma.

O episódio não permite concluir que o suplemento tenha provocado a crise de enxaqueca. A própria empresária relata uma possível relação apontada durante o atendimento, sem confirmação de causa direta.

A experiência também mostra a importância de investigar sintomas inesperados, mesmo quando o consumidor está acostumado com os efeitos do produto.

Formigamento após consumir pré-treino é normal?

O formigamento está entre as reações que podem ocorrer após o consumo de determinadas formulações de pré-treino.

Uma revisão científica brasileira publicada em janeiro de 2025, no Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, analisou reações cutâneas relacionadas ao uso desses suplementos.

O trabalho identificou manifestações como vermelhidão e coceira, associadas principalmente à presença de ingredientes como niacina e beta-alanina.

A beta-alanina também pode provocar uma sensação temporária de formigamento na pele, conhecida como parestesia. Esse efeito, quando relacionado ao ingrediente e sem outros sinais preocupantes, geralmente não representa uma complicação grave.

Entretanto, existe uma diferença importante entre o formigamento transitório provocado por determinadas substâncias e a dormência repentina que atinge um lado do corpo.

Segundo o Ministério da Saúde, fraqueza ou formigamento súbito em um lado do rosto, braço ou perna estão entre os sinais de alerta para acidente vascular cerebral (AVC). Dificuldade para falar, alterações na visão e perda de equilíbrio também exigem atenção.

Nessas situações, a orientação é procurar atendimento de emergência imediatamente. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pode ser acionado pelo telefone 192.

Misturar pré-treino com café ou energético aumenta os riscos?

Um dos principais cuidados envolve a quantidade total de estimulantes consumida ao longo do dia. Alguns pré-treinos possuem cafeína na composição, substância também encontrada no café, em energéticos e em outros suplementos utilizados para aumentar a disposição.

A endocrinologista Flora Nascimento da Paz explica que a combinação pode intensificar os efeitos adversos, principalmente quando há consumo elevado ou algum problema de saúde preexistente.

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Isso significa que o consumidor precisa considerar não apenas a quantidade de pré-treino ingerida, mas também as outras fontes de estimulantes presentes na rotina.

Para a médica, sentir mais energia ou perceber o coração acelerado não significa, necessariamente, que o suplemento esteja proporcionando um resultado melhor.

“Mais energia não quer dizer melhor desempenho. E que coração acelerado não quer dizer exatamente que esse pré-treino é bom”, explica.

A avaliação médica também é importante para identificar condições de saúde que possam aumentar a sensibilidade aos componentes dos suplementos.

Os pré-treinos também podem afetar os rins?

Embora as alterações cardiovasculares estejam entre as principais preocupações relacionadas ao consumo de estimulantes, o funcionamento dos rins também merece atenção em determinadas situações.

Segundo a doutora, os pré-treinos não costumam provocar alterações renais na maioria dos consumidores. Entretanto, o uso excessivo, associado à desidratação, ao esforço físico intenso ou a outras condições de saúde, pode aumentar a possibilidade de complicações.

“Na maioria das vezes, os pré-treinos não vão causar alteração renal. Mas, se você faz uso em doses excessivas, com desidratação, uso de outros estimulantes, ou tem algum problema de saúde, isso pode acabar levando a complicações”, pontua.

A médica destaca que a avaliação precisa considerar o conjunto de fatores envolvidos, e não apenas o consumo isolado de um suplemento.

Manter uma hidratação adequada e respeitar as recomendações de uso são medidas importantes, mas não substituem a avaliação profissional quando surgem sintomas inesperados.

Parar de tomar pré-treino também pode provocar sintomas?

Outro aspecto destacado pela endocrinologista envolve as reações que algumas pessoas podem apresentar após interromper o consumo frequente de suplementos com elevadas quantidades de cafeína.

Segundo Flora, a suspensão abrupta pode provocar desconfortos temporários, especialmente em quem já desenvolveu o hábito de consumir estimulantes diariamente. “Quem faz uso com frequência desses pré-treinos, principalmente esses que têm muita cafeína, costuma ter sintomas quando para abruptamente o uso”, explica.

Entre as manifestações mais comuns, a médica cita dor de cabeça, fadiga, sonolência, dificuldade de concentração e irritação. Em geral, os desconfortos diminuem ao longo dos dias.

Nos casos de consumo elevado, pode ser necessário reduzir gradualmente a quantidade de cafeína, de acordo com a orientação de um profissional de saúde. “E aí outras medidas são importantes, como dormir bem, se hidratar bastante e evitar usar outros estimulantes”, orienta.

A recomendação é especialmente importante para pessoas que passaram a depender da sensação de energia proporcionada pelos produtos para conseguir manter a rotina de exercícios.

ANVISA orienta para que ingredientes sejam verificados pelo consumidor

Nem toda reação após o consumo de pré-treino representa uma emergência. Entretanto, alguns sintomas não devem ser ignorados, principalmente quando aparecem de maneira repentina, são intensos ou persistem.

A endocrinologista Flora Nascimento da Paz destaca que manifestações como dor no peito, falta de ar e alterações importantes no estado de saúde exigem investigação médica. “Se a pessoa sentir dor no peito, cansaço, falta de ar, aí não é só deixar passar. Realmente tem que procurar um profissional, um médico, para poder você ser avaliado”, alerta.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomenda que os consumidores verifiquem os ingredientes, as advertências, as restrições de uso e as quantidades indicadas nas embalagens dos suplementos alimentares.

Produtos regularizados também podem apresentar riscos quando utilizados acima das quantidades recomendadas ou por pessoas para as quais não são indicados.

A orientação profissional permite avaliar se existe necessidade de suplementação, qual produto é mais adequado e como o consumo deve ser acompanhado. Entretanto, não elimina completamente a possibilidade de reações individuais.

“Antes de começar o uso de pré-treino ou quando for parar, é importante ser acompanhado por um profissional, um nutricionista, um médico, para que você faça da melhor forma possível e com saúde”, conclui a especialista.

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