A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou um novo medicamento para o tratamento de câncer de pulmão em estágio avançado. O remédio, chamado Emrelis, tem como princípio ativo o telisotuzumabe vedotina e foi desenvolvido pela farmacêutica AbbVie. A autorização foi concedida em 16 de outubro e publicada no Diário Oficial da União na segunda-feira (19).
O tratamento é destinado a pacientes adultos com câncer de pulmão de não pequenas células, do tipo não escamoso, que apresentam alta expressão da proteína c-Met no tumor e já receberam tratamentos anteriores. A indicação inclui casos localmente avançados ou metastáticos, quando a doença se espalhou para outras regiões do organismo.
O Emrelis pertence a uma classe de medicamentos que combina um anticorpo com uma substância capaz de destruir células tumorais. A tecnologia permite direcionar o tratamento a células que apresentam determinadas características moleculares, mas não elimina o risco de efeitos colaterais.
Mais de 8 em cada 10 casos de câncer de pulmão são descobertos tarde
Como funciona o novo medicamento contra o câncer de pulmão?
O Emrelis utiliza uma tecnologia conhecida como conjugado anticorpo-medicamento, ou ADC, na sigla em inglês.
Esse tipo de tratamento combina um anticorpo, responsável por reconhecer uma característica das células tumorais, com uma substância citotóxica, que interfere no funcionamento das células e pode provocar sua morte.
No caso do Emrelis, o alvo é a proteína c-Met, encontrada em níveis elevados na superfície de determinados tumores.
O anticorpo se liga à proteína e transporta o medicamento até o interior da célula cancerígena, onde a substância atua para interromper processos necessários à sua multiplicação.
A estratégia busca aumentar a precisão do tratamento, embora células saudáveis também possam ser afetadas.
Por isso, a utilização exige acompanhamento especializado e avaliação dos possíveis riscos.
Quem poderá receber o Emrelis?
A aprovação da Anvisa não significa que o medicamento seja indicado para todos os pacientes com câncer de pulmão.
O tratamento foi autorizado para adultos que apresentam características clínicas e moleculares específicas.
Entre os critérios estão o diagnóstico de câncer de pulmão de não pequenas células, do tipo não escamoso, em estágio localmente avançado ou metastático.
O tumor também precisa apresentar alta expressão da proteína c-Met, identificada por meio de exame específico.
Além disso, a indicação contempla pacientes que já receberam tratamento anterior para a doença.
A avaliação dessas condições é fundamental para determinar se o medicamento poderá trazer benefícios em cada caso.
A escolha deve ser feita por um oncologista, considerando os resultados dos exames, o histórico de tratamento e as condições clínicas do paciente.
Estudo clínico mostrou redução dos tumores em parte dos pacientes
A aprovação do Emrelis foi fundamentada em resultados de um estudo clínico de fase 2, que avaliou a resposta ao medicamento em pessoas com câncer de pulmão avançado.
Entre os participantes com alta expressão da proteína c-Met, aproximadamente 34,5% apresentaram redução do tumor conforme os critérios utilizados na pesquisa.
A duração mediana da resposta foi de 7,2 meses.
Isso significa que, entre os pacientes que responderam ao tratamento, metade apresentou uma resposta com duração superior a esse período e metade, inferior.
Os resultados indicam atividade do medicamento contra determinados tumores, mas não representam garantia de resposta para todos os pacientes.
Também não significam que o tratamento seja capaz de curar o câncer de pulmão avançado.
A eficácia e os riscos devem ser avaliados individualmente pela equipe médica.
Como o tratamento é administrado?
Segundo as orientações da fabricante, o Emrelis é administrado por infusão intravenosa, diretamente na corrente sanguínea.
O procedimento dura aproximadamente 30 minutos e é realizado a cada duas semanas, conforme o esquema de tratamento indicado.
No Brasil, a Anvisa autorizou apresentações de 20 mg e 100 mg, em pó para preparo de solução para infusão.
A administração deve ocorrer em ambiente adequado, com acompanhamento de profissionais de saúde.
Durante o tratamento, a equipe médica poderá solicitar exames e avaliar a necessidade de ajustes de dose, interrupções temporárias ou suspensão do medicamento.
Quais são os possíveis efeitos colaterais?
Assim como outros medicamentos utilizados no tratamento do câncer, o Emrelis pode provocar reações adversas.
Entre os efeitos relatados pela fabricante estão cansaço, perda de apetite e inchaço.
Também podem ocorrer alterações nos nervos periféricos, que podem causar dormência, formigamento e outros sintomas.
Há ainda riscos de problemas pulmonares, alterações oculares e reações relacionadas à infusão.
Algumas dessas complicações podem ser graves e exigir a interrupção do tratamento.
Por esse motivo, pacientes que recebem o medicamento precisam informar à equipe médica qualquer sintoma novo ou alteração importante durante o acompanhamento.
Quando o medicamento estará disponível no Brasil?
Embora o registro sanitário tenha sido aprovado, o Emrelis ainda precisa cumprir etapas regulatórias antes de sua comercialização no país.
Entre elas está a definição do preço máximo pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED).
A expectativa divulgada pela imprensa é que o medicamento possa chegar ao mercado brasileiro em 2027, mas ainda não existe uma data oficial confirmada para o início das vendas.
Também não há previsão anunciada para a incorporação do Emrelis ao Sistema Único de Saúde (SUS).
O registro concedido pela Anvisa autoriza o uso do medicamento dentro das indicações aprovadas, mas não representa disponibilização imediata nas farmácias, nos hospitais ou na rede pública.
Câncer de pulmão costuma ser diagnosticado em estágio avançado
O câncer de pulmão está entre os principais desafios da saúde pública no Brasil, especialmente porque muitos casos são identificados quando a doença já está avançada.
Um levantamento com dados do SUS, divulgado anteriormente pelo NC News, mostrou que 87,9% dos pacientes analisados receberam o diagnóstico nos estágios 3 ou 4.
A análise considerou aproximadamente 49 mil registros de pessoas diagnosticadas entre 2020 e 2025 que apresentavam informação sobre o estágio do tumor.
Entre os sintomas que podem exigir investigação médica estão tosse persistente, falta de ar, dor no peito, rouquidão, perda de peso sem explicação e presença de sangue no escarro.
Esses sinais não indicam necessariamente câncer, mas precisam ser avaliados quando persistem ou representam uma mudança importante no estado de saúde.
O tabagismo continua sendo o principal fator de risco associado ao desenvolvimento da doença.
Aprovação amplia opções de tratamento
Com a autorização do Emrelis, o Brasil passa a contar com mais uma alternativa regulatoriamente aprovada para pacientes com características específicas de câncer de pulmão avançado.
A medida acompanha o avanço da chamada oncologia de precisão, que utiliza informações moleculares dos tumores para orientar a escolha dos tratamentos.
O país é o segundo a conceder autorização ao medicamento, depois dos Estados Unidos.
Apesar do avanço, o acesso efetivo dependerá das próximas etapas regulatórias e comerciais, além da avaliação médica de cada paciente.
A aprovação não substitui a importância do diagnóstico precoce, da prevenção e do acompanhamento especializado.