Estudo da USP encontra fentanil em 32% dos usuários de drogas sintéticas analisados em SP

Substância foi identificada em 21 dos 65 participantes da pesquisa, embora nenhum tenha declarado uso intencional de opioides; cientistas alertam para risco de exposição desconhecida.
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Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificou a presença de fentanil em 32% das pessoas analisadas que relataram consumo recente de canabinoides sintéticos na capital paulista. A substância, um opioide de alta potência, foi detectada em 21 dos 65 participantes, embora nenhum deles tenha declarado uso intencional desse tipo de droga.

Os resultados, repercutidos nesta quinta-feira (22), acendem um alerta sobre a possibilidade de exposição ao fentanil sem o conhecimento dos consumidores. Os pesquisadores investigam se a presença da substância pode estar relacionada à adulteração de drogas vendidas ilegalmente, ao consumo não informado de opioides ou a outras formas de exposição.

A pesquisa, publicada na revista científica Drug and Alcohol Review, analisou amostras de saliva de pessoas atendidas por serviços especializados em dependência química e atenção psicossocial em São Paulo. Os autores ressaltam que o grupo estudado é pequeno e específico, o que impede concluir que três em cada dez usuários de drogas sintéticas da cidade estejam expostos ao fentanil.

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Fentanil foi encontrado em 21 dos 65 participantes da pesquisa

O estudo acompanhou pessoas que relataram ter utilizado canabinoides sintéticos nos quatro dias anteriores à coleta das amostras.

Os participantes foram recrutados entre agosto de 2024 e agosto de 2025, em um centro especializado no tratamento da dependência química e em dois serviços comunitários de atenção psicossocial da capital paulista.

Após responderem a um questionário sobre o consumo de substâncias e possíveis sintomas, os voluntários forneceram amostras de saliva para análise toxicológica.

Os exames identificaram fentanil em 21 pessoas, equivalentes a aproximadamente 32% do grupo.

Nenhum dos participantes que apresentou resultado positivo informou ter consumido opioides intencionalmente.

A diferença entre os relatos e os resultados laboratoriais é um dos principais pontos de preocupação dos pesquisadores.

O que é o fentanil e por que a substância preocupa?

O fentanil é um opioide sintético extremamente potente, utilizado legalmente na medicina, sob controle rigoroso, para anestesia e tratamento de determinados quadros de dor intensa.

Fora do ambiente médico, o consumo sem supervisão pode provocar intoxicações graves, especialmente quando a pessoa desconhece a presença da substância em outro produto.

O fentanil atua no sistema nervoso central e pode reduzir perigosamente a frequência respiratória. Em casos de overdose, essa depressão respiratória pode levar à perda de consciência e à morte.

O risco é especialmente elevado quando há associação com outras drogas ou quando a concentração da substância é desconhecida.

A possibilidade de consumir fentanil sem saber também dificulta o reconhecimento precoce de uma intoxicação.

Pesquisa investigou usuários de drogas conhecidas como K2, K9 e spice

Os participantes do estudo relataram consumo de canabinoides sintéticos, substâncias frequentemente comercializadas sob nomes como K2, K9 e spice.

Esses produtos atuam em receptores do sistema endocanabinoide, mas não possuem composição ou efeitos necessariamente equivalentes aos da maconha.

A composição química pode variar consideravelmente entre diferentes amostras, aumentando a imprevisibilidade dos efeitos e dos riscos à saúde.

No mercado ilegal, os produtos podem conter diferentes compostos e misturas não informadas aos consumidores.

Pesquisas forenses anteriores em São Paulo já haviam identificado a presença simultânea de fentanil e outras substâncias em materiais apreendidos.

O novo estudo acrescenta uma informação importante: a detecção do opioide em amostras biológicas de pessoas que relataram utilizar canabinoides sintéticos.

Participantes com fentanil apresentaram mais sintomas

Os pesquisadores também compararam características e sintomas dos participantes que tiveram resultado positivo ou negativo para fentanil.

Entre aqueles com detecção da substância, 90,5% relataram náuseas ou vômitos, enquanto o percentual foi de 43,2% no grupo sem fentanil.

Dores musculares foram relatadas por 61,9% dos participantes com resultado positivo, contra 11,4% daqueles com resultado negativo.

Outro dado observado foi a maior proporção de pessoas em situação de rua no grupo com detecção do opioide: 52,4%, diante de 13,6% entre os demais participantes.

Os resultados indicam associações dentro da amostra estudada, mas não permitem afirmar que o fentanil tenha provocado isoladamente todos os sintomas relatados.

Os autores também não identificaram fatores independentes associados à detecção da substância nas análises estatísticas exploratórias.

Estudo não confirma que drogas estavam adulteradas com fentanil

Embora a possível contaminação de drogas sintéticas seja uma das hipóteses levantadas, os pesquisadores destacam uma limitação importante: as substâncias efetivamente consumidas pelos participantes não foram analisadas.

Isso significa que o estudo comprovou a presença de fentanil nas amostras de saliva, mas não conseguiu determinar exatamente como cada pessoa entrou em contato com o opioide.

Entre as explicações possíveis estão a adulteração dos produtos, o consumo de opioides não declarado pelos participantes e outras vias de exposição.

Por isso, ainda não é possível afirmar que todas as pessoas com resultado positivo tenham consumido fentanil misturado às drogas sintéticas.

Também não há evidências suficientes para concluir que o resultado represente uma tendência generalizada entre usuários de drogas em São Paulo ou no Brasil.

Pesquisadores defendem ampliação da vigilância toxicológica

Diante dos resultados, os autores defendem o fortalecimento de sistemas de monitoramento capazes de identificar rapidamente novas substâncias e possíveis misturas no mercado ilegal.

Uma das recomendações é ampliar a análise toxicológica de drogas e de amostras biológicas, permitindo que profissionais de saúde reconheçam padrões de exposição ainda pouco documentados no país.

O estudo também destaca a importância de considerar a possibilidade de contato com opioides mesmo quando o paciente não relata ter consumido esse tipo de substância.

A preocupação está relacionada à gravidade das intoxicações e à necessidade de atendimento rápido em situações de overdose.

Em casos de suspeita de intoxicação grave, especialmente quando há respiração lenta, perda de consciência ou dificuldade para despertar, a orientação é procurar atendimento de emergência imediatamente, pelo Samu, no telefone 192.

A pesquisa reforça a necessidade de vigilância e prevenção, mas não demonstra que o Brasil esteja enfrentando uma crise de fentanil semelhante à registrada em outros países.

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