A Polícia Civil de São Paulo investiga a morte de seis bebês e crianças atendidos no Hospital e Maternidade Salvalus, localizado na Mooca, zona leste da capital paulista. As suspeitas apresentadas por familiares envolvem possíveis infecções adquiridas durante a internação, falhas na assistência médica e inconsistências em prontuários. Paralelamente, a Secretaria de Estado da Saúde informou que equipes de vigilância realizaram uma inspeção na unidade para examinar as circunstâncias de 35 óbitos de bebês registrados em 2026.
O caso ganhou repercussão após mães que perderam seus filhos compartilharem relatos sobre os atendimentos recebidos no hospital, pertencente à rede Hapvida. Segundo a assistente jurídica Eduarda Fragnan Gomes, há relatos de pelo menos 36 mães que perderam crianças na unidade ao longo de aproximadamente nove meses. A instituição afirma que os pacientes apresentavam condições clínicas diferentes e que não foi identificada uma origem infecciosa comum entre os casos examinados.
Mortes de 36 bebês em hospital de SP levantam suspeitas e mobilizam famílias
Polícia investiga seis mortes no Hospital Salvalus
A investigação é conduzida pelo 8º Distrito Policial, no Brás. Segundo a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, os casos foram comunicados oficialmente às autoridades na quarta-feira (21).
Os investigadores deverão analisar integralmente os prontuários médicos das crianças, ouvir profissionais de saúde e colher depoimentos de familiares e testemunhas.
O objetivo é esclarecer as circunstâncias de cada morte e verificar se existem elementos que indiquem possíveis irregularidades nos atendimentos.
Entre os pontos que poderão ser examinados estão os procedimentos realizados durante as internações, a administração de medicamentos, a evolução dos quadros clínicos e as medidas adotadas para prevenir infecções.
Até o momento, não há conclusão policial que comprove negligência médica ou estabeleça uma causa única para os seis óbitos investigados.
Secretaria da Saúde analisa 35 mortes registradas em 2026
Além da investigação criminal, o caso passou a ser acompanhado pelos órgãos estaduais de vigilância em saúde.
A Secretaria de Estado da Saúde informou que equipes da Vigilância Sanitária e da Vigilância Epidemiológica realizaram uma inspeção no Hospital Salvalus para verificar as circunstâncias de 35 óbitos de bebês registrados neste ano.
Durante a fiscalização, foram avaliadas as condições das unidades neonatal e pediátrica, os protocolos de higienização e os procedimentos de prevenção e controle de infecções.
A documentação recolhida está sob análise prioritária para determinar se serão necessárias medidas administrativas.
A inspeção não significa que todas as 35 mortes tenham ocorrido por uma mesma causa ou que exista comprovação de falhas na unidade.
Os números também se referem a levantamentos diferentes: seis casos estão inicialmente sob investigação policial, enquanto 35 óbitos são objeto de avaliação sanitária.
Famílias suspeitam de infecções adquiridas durante internações
Segundo representantes das famílias, algumas crianças apresentaram complicações infecciosas durante o período em que permaneceram internadas.
Entre as condições mencionadas em certidões de óbito estão sepse, choque séptico, pneumonia, insuficiência respiratória aguda e insuficiência renal aguda.
A sepse é uma resposta grave do organismo a uma infecção, capaz de comprometer o funcionamento de órgãos. Nos quadros mais severos, pode evoluir para choque séptico e representar risco de morte.
Entretanto, a presença dessas condições em documentos médicos não comprova, isoladamente, que a infecção tenha sido adquirida no ambiente hospitalar.
Para esclarecer a origem de cada quadro, é necessário analisar exames laboratoriais, registros clínicos, histórico médico, procedimentos realizados e protocolos de controle de infecção.
As famílias também levantam a hipótese de contaminação cruzada, situação em que agentes infecciosos podem ser transmitidos entre pacientes, profissionais, equipamentos ou superfícies.
Essa possibilidade ainda depende de investigação técnica.
Relatos apontam possíveis problemas durante atendimentos
Entre as situações relatadas às autoridades estão dificuldades no atendimento de emergências, questionamentos sobre procedimentos realizados e divergências nas informações registradas em prontuários.
Em um dos episódios apresentados por familiares, há alegação de que um equipamento utilizado para auxiliar a respiração de um bebê não estava corretamente conectado durante uma emergência.
Segundo o relato, a equipe precisou providenciar uma extensão para utilizar o aparelho, o que teria provocado demora no atendimento.
A criança sofreu uma parada cardíaca e morreu posteriormente.
A investigação deverá verificar se o episódio ocorreu conforme descrito, quais procedimentos foram adotados e se houve relação entre o atendimento e o desfecho clínico.
Os relatos apresentados pelas famílias constituem elementos para apuração e não representam conclusões definitivas sobre a conduta dos profissionais.
Prontuários médicos serão analisados
A análise dos prontuários é considerada uma etapa central da investigação.
Esses documentos registram informações sobre o estado de saúde dos pacientes, diagnósticos, medicamentos administrados, exames solicitados, procedimentos realizados e evolução durante a internação.
Eventuais inconsistências podem dificultar a reconstrução dos acontecimentos e exigir esclarecimentos adicionais dos profissionais responsáveis.
Os investigadores deverão confrontar os registros hospitalares com os relatos das famílias, os documentos de óbito e os demais elementos reunidos.
Também será necessário verificar se os atendimentos seguiram os protocolos aplicáveis às condições clínicas de cada criança.
A existência de informações divergentes não comprova automaticamente adulteração de documentos ou erro médico.
Conselhos profissionais também acompanham o caso
As mortes também estão sob análise de órgãos responsáveis pela fiscalização do exercício profissional na área da saúde.
O Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo e o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo acompanham os questionamentos relacionados aos atendimentos.
A atuação dessas entidades pode envolver a avaliação de condutas profissionais e o cumprimento de normas éticas e assistenciais, dentro de suas respectivas competências.
Essas apurações são distintas da investigação conduzida pela Polícia Civil e da fiscalização realizada pelos órgãos de vigilância sanitária.
Representante das famílias relata dezenas de casos
A assistente jurídica Eduarda Fragnan Gomes afirma ter recebido relatos de pelo menos 36 mães que perderam seus filhos após atendimentos no Hospital Salvalus.
Segundo ela, parte das famílias passou a compartilhar experiências depois de estabelecer contato durante as internações.
Ao comparar os acontecimentos, algumas mães começaram a questionar se poderiam existir problemas semelhantes nos atendimentos.
A representante jurídica afirma que há famílias que já registraram boletins de ocorrência e outras que ainda buscam orientação sobre como proceder.
O número de relatos não corresponde necessariamente à quantidade de casos formalmente incluídos no inquérito policial.
Também não é possível afirmar, neste momento, que todas as mortes apresentem relação entre si.
O que diz o Hospital Salvalus?
A rede Hapvida, responsável pelo hospital, afirma que trata os relatos com seriedade e ressalta que os pacientes mencionados apresentavam condições clínicas distintas.
Segundo a instituição, o Salvalus é referência em maternidade de alto risco e assistência pediátrica de alta complexidade, recebendo crianças com prematuridade extrema, malformações, síndromes genéticas e quadros infecciosos graves.
A empresa informou que mais de mil crianças foram atendidas na unidade em 2026, com acompanhamento individualizado e equipes especializadas.
A rede sustenta que as avaliações realizadas até o momento não identificaram uma origem infecciosa comum entre os casos examinados.
O hospital também afirma manter procedimentos de segurança assistencial e canais de acolhimento para familiares.
Na manifestação divulgada à imprensa, a instituição informou que ainda não havia recebido notificação formal sobre os procedimentos mencionados e declarou estar à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
A empresa ressalta que conclusões sobre as causas das mortes dependem de comprovação técnica e da análise individual de cada paciente.
Próximos passos da investigação
A Polícia Civil deverá prosseguir com a coleta de depoimentos e a análise dos documentos médicos relacionados aos seis casos inicialmente investigados.
Paralelamente, os órgãos estaduais de vigilância deverão concluir a avaliação das informações recolhidas durante a inspeção no hospital.
Os resultados poderão orientar eventuais medidas administrativas e indicar se existem elementos que justifiquem novas providências.
As famílias aguardam esclarecimentos sobre as causas das mortes e sobre a assistência prestada às crianças.
Até a conclusão das apurações, não é possível afirmar que os óbitos tenham uma origem comum ou que tenham sido provocados por negligência médica.