O ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, pressionou funcionários e diretores da instituição para acelerar a compra de carteiras de crédito do Banco Master, mesmo após receber alertas sobre possíveis irregularidades nas operações. A informação consta em um relatório parcial da Polícia Federal (PF), divulgado nesta quarta-feira (28).
Segundo a investigação, mensagens obtidas pelos agentes mostram que Costa determinava quais negociações deveriam ser priorizadas, estipulava prazos e cobrava diretamente a conclusão das transações.
Em dezembro de 2024, após a identificação de problemas em uma carteira de crédito ainda em análise, o então presidente solicitou urgência na avaliação de uma operação de R$ 71 milhões.
Em resposta, o ex-diretor de Finanças e Controladoria do BRB, Dario Oswaldo Garcia Junior, informou que pressionaria a equipe responsável pela análise.
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O documento da PF aponta que a atuação de Costa ultrapassava as funções de supervisão normalmente exercidas pela presidência do banco, com interferência direta na execução das operações.
Operações ultrapassavam R$ 1 bilhão no Master
Uma das conversas analisadas pelos investigadores ocorreu em 23 de dezembro de 2024. Na ocasião, Paulo Henrique Costa apresentou cinco operações que pretendia concluir, envolvendo compras de carteiras de crédito e vendas de créditos inadimplentes.
As negociações somavam aproximadamente R$ 1 bilhão. Entre elas, estavam operações de R$ 408 milhões, R$ 200 milhões e R$ 196 milhões, consideradas prioritárias pelo então presidente.
A Polícia Federal identificou que as cobranças coincidiam com necessidades financeiras do Banco Master, controlado pelo empresário Daniel Vorcaro.
Para os investigadores, as mensagens indicam que o ex-presidente do BRB acompanhava diretamente os prazos das transações e mobilizava os setores técnicos para garantir a liberação dos recursos.
Banco recebeu alertas sobre irregularidades
As cobranças ocorreram mesmo depois de a direção do BRB receber informações sobre inconsistências nas carteiras oferecidas pelo Master.
De acordo com a PF, os alertas apontavam margens consideradas incompatíveis com as operações, índices de inadimplência de 15% e 28%, além de falhas nas planilhas utilizadas para avaliar os créditos.
A investigação identificou ainda que 13 das 14 notas executivas que iniciavam os processos de aquisição foram aprovadas antes da conclusão dos pareceres técnicos.
Os investigadores também encontraram indícios de fracionamento das operações para evitar a necessidade de aprovação pelo Conselho de Administração.
Pelas regras internas do BRB, a Diretoria Colegiada tinha autorização para aprovar negociações de até R$ 750 milhões. Valores superiores precisavam ser submetidos ao conselho.
Segundo o relatório, foram aprovadas 25 transações que somavam R$ 17,5 bilhões. Dessas, 21 tinham exatamente R$ 750 milhões, o limite máximo permitido para deliberação da diretoria.
PF indicia 15 pessoas no caso Master
A Polícia Federal indiciou 15 pessoas no âmbito da investigação sobre as operações entre o Banco Master e o BRB.
Entre os investigados estão Daniel Vorcaro, Paulo Henrique Costa e Augusto Lima, ex-sócio do Master. O relatório também aponta a participação de antigos executivos das duas instituições e de empresários ligados à Tirreno, empresa investigada por supostamente integrar o esquema.
Costa e Vorcaro estão presos no âmbito da Operação Compliance Zero.
O BRB, cujo acionista majoritário é o governo do Distrito Federal, enfrenta uma crise relacionada às operações realizadas com o Master.
A instituição chegou a movimentar R$ 16,7 bilhões em negócios com o banco de Vorcaro. Posteriormente, foram identificadas carteiras de crédito fraudulentas e sem lastro.
O BRB também tentou adquirir o Banco Master, mas a operação foi barrada pelo Banco Central.
O que dizem as defesas
A defesa de Paulo Henrique Costa contestou o indiciamento pelos crimes de gestão fraudulenta e organização criminosa. Os advogados afirmam que o ex-presidente desconhecia as fraudes nas carteiras e que foi ele quem identificou irregularidades, exigiu garantias e comunicou os problemas ao Banco Central.
Segundo a defesa, as decisões eram tomadas de forma colegiada e seguiam as regras de governança da instituição.
Já os advogados de Daniel Vorcaro, do Master questionaram o indiciamento antes da conclusão das investigações. A defesa sustenta que não há comprovação pericial de prejuízo ao BRB e afirma que as carteiras consideradas problemáticas foram substituídas por outros ativos. A investigação segue em andamento no Supremo Tribunal Federal (STF).