Os Estados Unidos realizam nesta terça-feira (3) eleições que podem mudar a relação de forças no Congresso e limitar o poder de Donald Trump nos dois últimos anos de seu mandato. A disputa coloca em jogo todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 vagas do Senado, além de eleições para governador em 36 estados.
O resultado também interessa diretamente ao Brasil. Uma eventual maioria democrata pode ampliar a fiscalização sobre decisões da Casa Branca, abrir investigações sobre a atuação do governo americano em assuntos brasileiros e dificultar medidas defendidas pelo presidente republicano. Ao mesmo tempo, uma mudança no Congresso não significa necessariamente uma alteração imediata na política comercial ou diplomática de Washington.
Mais de 50 milhões de americanos já haviam votado antecipadamente até os dias anteriores à eleição, segundo dados do Election Lab, da Universidade da Flórida.
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Atualmente, os republicanos controlam as duas Casas legislativas. Na Câmara, o partido tem uma maioria apertada, enquanto no Senado conta com 53 parlamentares, contra 45 democratas e dois independentes.
As eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, acontecem dois anos depois da escolha presidencial e funcionam como uma avaliação da administração em exercício. Embora Trump não esteja concorrendo, o próprio presidente transformou a votação em um teste de sua popularidade ao participar de comícios e pedir apoio aos candidatos republicanos.
Democratas podem ampliar fiscalização sobre Trump
As pesquisas nacionais indicavam vantagem democrata na reta final da campanha. Segundo a média de levantamentos compilada pelo RealClearPolling e citada pela Agência Brasil, os democratas apareciam com 51,5% das intenções de voto, contra 43,1% dos republicanos.
Esse número, entretanto, não representa uma previsão direta da quantidade de cadeiras conquistadas. A eleição para a Câmara é disputada em distritos individuais, enquanto as vagas do Senado são definidas em votações estaduais. Por isso, a distribuição dos votos e os resultados em cada região serão determinantes para estabelecer o controle das Casas.
Se os democratas conquistarem a maioria em pelo menos uma delas, Trump terá de lidar com um Congresso menos favorável à aprovação de sua agenda. A oposição também poderá assumir o comando de comissões parlamentares, convocar autoridades e ampliar investigações sobre decisões do Executivo e até trabalhar na abertura de processos de impeachment.
O que muda se os republicanos perderem o Congresso?
Uma derrota republicana em uma ou nas duas Casas não retira Trump da Presidência, mas pode reduzir sua capacidade de aprovar projetos, negociar o orçamento e implementar medidas que dependam de autorização legislativa.
O presidente já sinalizou que poderá utilizar o poder de veto para bloquear propostas da oposição. Em entrevista à Fox News, afirmou que poderia se tornar o chamado “senhor veto” caso os democratas assumam o controle do Legislativo.
Por outro lado, se os republicanos mantiverem as duas maiorias, Trump continuará com uma base parlamentar mais favorável para negociar sua agenda. Isso não elimina possíveis divergências dentro do próprio partido, mas reduz a capacidade de fiscalização da oposição.
Por que o resultado interessa diretamente ao Brasil?
A relação entre Brasil e Estados Unidos passou por um período de tensão durante o governo Trump, com disputas comerciais, medidas tarifárias e divergências políticas envolvendo o governo brasileiro e integrantes do Judiciário.
Uma das possibilidades discutidas por especialistas é que uma maioria democrata amplie as cobranças sobre a Casa Branca em relação às decisões envolvendo o Brasil. Parlamentares da oposição americana já questionaram medidas adotadas por Washington e pediram esclarecimentos sobre possíveis interferências na política brasileira.
Entre os assuntos que podem voltar ao centro das discussões estão as tarifas impostas a produtos brasileiros, as sanções contra autoridades e as relações de integrantes do governo americano com políticos brasileiros.
Em outubro, deputados democratas já haviam cobrado explicações do secretário de Estado, Marco Rubio, sobre medidas relacionadas ao processo eleitoral brasileiro. Uma eventual mudança na composição do Congresso poderá dar mais força política a iniciativas desse tipo.
Vitória democrata também pode trazer riscos econômicos
O cenário para o Brasil não é necessariamente de benefícios em todas as áreas. Os diferentes efeitos que uma mudança no Congresso pode produzir para os interesses brasileiros. O resultado precisa ser observado também pelo ângulo econômico.
O Brasil mantém uma relação comercial relevante com os Estados Unidos, e decisões de Washington sobre tarifas, investimentos e comércio internacional podem afetar empresas exportadoras e setores produtivos nacionais.
Uma eventual redução da margem de ação política de Trump poderia alterar o ambiente de negociação entre os dois países. Entretanto, a mudança no Congresso não garante uma revisão das tarifas nem a retirada de medidas comerciais já adotadas.
Economia e custo de vida pressionam Trump nas urnas
O cenário eleitoral também é influenciado pela insatisfação de parte da população americana com a economia. O aumento dos preços da gasolina, da habitação e dos serviços de saúde aparece entre as principais preocupações dos eleitores.
A guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã e seus reflexos sobre o mercado de energia também ampliaram a pressão sobre o custo de vida. As tarifas comerciais adotadas pelo governo republicano estão entre os fatores discutidos no debate sobre inflação e preços.
Trump tentou mobilizar sua base com promessas econômicas e participação direta na campanha. O presidente chegou a anunciar uma recompensa de US$ 1 milhão para informações sobre possíveis fraudes eleitorais e prometeu um pagamento de US$ 5 mil a adultos caso os republicanos vencessem, conforme relato da Agência Brasil.
Quando o novo Congresso começa a trabalhar?
Os primeiros resultados devem ser conhecidos ao longo da noite desta terça-feira, mas disputas apertadas e a contagem de votos antecipados ou enviados pelo correio podem atrasar a definição de algumas vagas.
A nova composição do Congresso americano assumirá oficialmente em 3 de janeiro de 2027. Até lá, a atual maioria republicana continuará em exercício.
O resultado das midterms será determinante para estabelecer o espaço político de Trump na segunda metade do mandato e poderá influenciar a relação de Washington com parceiros internacionais, incluindo o Brasil.