O afastamento de importantes líderes evangélicos de Flávio Bolsonaro (PL) depois da derrota na disputa presidencial expõe uma mudança de postura que vai além das divergências sobre a reação do senador ao resultado das urnas. Depois de participarem da mobilização em torno da candidatura, representantes de grandes denominações passaram a enfatizar a independência das igrejas em relação aos partidos e a necessidade de respeitar a decisão dos eleitores.
O movimento levanta uma pergunta: é uma revisão de convicções políticas ou uma tentativa de reduzir os custos de permanecer associado ao bolsonarismo?
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O recuo da Igreja Universal do Reino de Deus
Um dos sinais mais evidentes veio da Igreja Universal do Reino de Deus. No dia seguinte à eleição, o bispo Alessandro Paschoal, apontado como interlocutor da denominação em assuntos políticos, republicou trecho de uma pregação de Edir Macedo, fundador e principal liderança da igreja, em que ele questiona o lema “Deus, Pátria e Família”, associado ao bolsonarismo.
“Na Universal, nós priorizamos essa hierarquia. Primeiro Deus, depois a família e depois o resto”, afirmou Macedo.
O bispo argumentou que não existe pátria sem família e que a família, por sua vez, tem origem em Deus. A declaração marca distância de um dos principais símbolos usados pelo bolsonarismo para aproximar conservadorismo político e identidade religiosa, e sinaliza que a instituição não pretende ter a própria identidade subordinada a uma bandeira política.
Outras lideranças também recuam
O bispo Abner Ferreira, da Assembleia de Deus de Madureira, reconheceu a vitória de Lula já no dia seguinte à eleição e defendeu que a democracia exige maturidade, equilíbrio e respeito às decisões populares. O bispo JB Carvalho, da Comunidade das Nações, igreja de Brasília onde Flávio foi batizado em 2024, afirmou que as eleições terminaram e que não existe terceiro turno, em referência à contestação do resultado.
Já o apóstolo César Augusto, líder da Igreja Fonte da Vida e aliado do senador, disse que Flávio foi muito mal orientado ao divulgar a carta na qual, segundo o relato, se apresentou inicialmente como o verdadeiro presidente eleito do Brasil.
Malafaia chama filhos de Bolsonaro de “jumentos”
Até Silas Malafaia, um dos principais aliados religiosos da família Bolsonaro, demonstrou insatisfação. Em conversa reservada com aliados, divulgada inicialmente pelo jornal O Globo e confirmada pelo NC News, o pastor chamou os filhos de Jair Bolsonaro de “jumentos”, em reação à carta de Flávio que questionava o resultado das urnas.
“Esses filhos de Bolsonaro são uns jumentos. Só se aconselham com gente errada! Faz carta, fala bobagem, depois corrige”, escreveu Malafaia.
A crítica, porém, não foi um rompimento. No dia seguinte à divulgação das mensagens, Malafaia disse que a conversa era privada e que havia sido vazada por alguém em quem confiava, e voltou a defender Flávio publicamente, inclusive em relação à saída do senador do Brasil por perseguição política. O episódio mostra a distinção entre apoiar o projeto político bolsonarista e aprovar as decisões tomadas pela família.

Igrejas enfrentam dificuldades nas urnas, mas bancada evangélica cresceu
O distanciamento político acontece em paralelo a um cenário eleitoral desfavorável a representantes tradicionais das grandes denominações:
- Na Universal, metade dos 12 deputados federais ligados à instituição que tentaram a reeleição não renovou o mandato.
- Na Assembleia de Deus de Madureira, os dois principais representantes na Câmara, Cezinha de Madureira (PL-SP) e Otoni de Paula (PSD-RJ), também não se reelegeram.
- Em São Paulo, dez dos 31 membros da composição anterior da Frente Parlamentar Evangélica da Assembleia Legislativa não conquistaram a reeleição.
Apesar disso, a representação de parlamentares evangélicos no Congresso cresceu, impulsionada por nomes com forte presença nas redes sociais, como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato. O que mudou foi a composição dessa bancada: candidatos ligados às estruturas tradicionais das igrejas perderam espaço, enquanto nomes identificados com o bolsonarismo e com atuação mais independente das hierarquias religiosas ganharam votações expressivas.

Pragmatismo político ou mudança de convicção?
Durante a campanha, parte dos representantes religiosos participou de manifestações, cultos e articulações em favor de Flávio. Depois da derrota, o discurso mudou: ganharam espaço a defesa da autonomia das igrejas, a rejeição à continuidade da disputa e críticas à condução política do senador.
Não é possível atribuir a todas as lideranças a mesma motivação: algumas podem estar reagindo a posições incompatíveis com suas convicções políticas, enquanto outras podem avaliar que a associação com um grupo derrotado ameaça a própria influência.
O eleitorado evangélico segue sendo um segmento importante das disputas presidenciais, mas não é politicamente homogêneo: a preferência por pautas conservadoras não significa fidelidade permanente a uma família, partido ou liderança religiosa. Nomes como Michelle Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Nikolas Ferreira ocupam espaços diferentes na direita e têm relações próprias com o eleitor religioso.
O recuo de parte das lideranças, portanto, não significa o fim da aproximação entre religião e bolsonarismo. Pode ser uma tentativa de reorganizar essa relação em novas bases. A questão que permanece é se o movimento será acompanhado de revisão efetiva dos critérios usados pelas igrejas para participar da política, ou se é só uma mudança de posicionamento diante de um grupo que perdeu a eleição.