Uma antiga granja de leite em Ijuí, no noroeste do Rio Grande do Sul, virou vitrine da nova olivicultura brasileira: em sete hectares, a família Gier hoje vive basicamente do azeite de oliva que produz, enquanto o setor cresce no país e assiste, à distância, à venda da maior engarrafadora do mundo, a espanhola Deoleo, por 520 milhões de euros.
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Como uma família de Ijuí trocou a produção de leite pela de azeite?
A mudança começou quando os Gier perceberam que o leite já não garantia renda suficiente para manter a família no campo. Em vez de ampliar o rebanho, decidiram reduzir as vacas e plantar oliveiras, até que o azeite passasse a sustentar a pequena propriedade em Ijuí.
Hoje, quatro dos sete hectares da Pé de Oliva estão cobertos por pés das variedades arbequina, arbosana e koroneiki, em uma região dominada por soja, milho e trigo. Na safra deste ano, mesmo após perder cerca de 40% da produção por granizo, a família colheu 20 toneladas de azeitonas — rendimento de cinco toneladas por hectare.
“A gente não tinha certeza que daria certo. A adaptação dela foi boa. Os problemas que nós temos aqui, o pessoal tem lá no Sul também”, conta o produtor Michael Gier, citando a fertilidade do solo argiloso como trunfo, apesar da dificuldade para operar máquinas em períodos muito chuvosos.
Um dos pontos que mudaram o negócio foi a instalação de uma estrutura própria de extração. A família comprou equipamentos de uma antiga associação de olivicultores de Caçapava do Sul e montou, na propriedade, a única unidade de processamento num raio de cerca de 200 quilômetros. As azeitonas colhidas são levadas ao lagar e viram azeite em duas a três horas, o que ajuda a preservar aroma e qualidade.
A Pé de Oliva também passou a integrar o Programa Estadual de Agroindústria Familiar (Peaf), coordenado pela Secretaria de Desenvolvimento Rural do RS, o que rendeu o selo Sabor Gaúcho e vaga em feiras. Na ExpoFest Ijuí deste ano, o interesse do público surpreendeu.
“Nossa primeira feira foi a ExpoFest aqui em Ijuí e realmente não esperávamos tanta venda e visibilidade, o pessoal parava pra ver. É muito importante, não só a venda, mas esse contato direto com o público”, diz Michael.
O antigo galpão de confinamento das vacas está em reforma para virar salão de eventos, com espaço para cerca de 200 pessoas e uma cafeteria envidraçada de frente para o olival. Antes disso, na safra de fevereiro e março, a família planeja receber grupos de visitantes para uma experiência completa, do pomar à garrafa.
“Tomam um café aqui dentro do pomar, acompanham o pessoal colhendo, vêm para dentro da fábrica, acompanham a extração e já saem com uma amostra do azeite que eles acabaram de ajudar a colher”, projeta o produtor. A ideia é aumentar a renda sem ampliar a área plantada. “Eu quero ficar nos quatro hectares e tentar trabalhar para melhorar a qualidade do meu produto dentro desses quatro hectares”, resume.
Como é a produção do azeite premiado em Bom Sucesso de Itararé?
O Azeite Bene Orgânico, produzido em Bom Sucesso de Itararé, no Sudoeste Paulista, nasceu de outra guinada de vida no campo — desta vez de um ex-bancário. Depois de se aposentar do setor financeiro e passar pela logística, Nelson Jorge decidiu investir em uma fazenda e, com o tempo, em oliveiras.
“Eu gosto de desafios. Não, vamos fazer azeitona aqui, por enquanto”, conta Nelson, sobre a decisão de apostar numa cultura ainda rara na região. Hoje, a Fazenda São Benedito reúne cerca de 11 mil árvores, de onde sai um azeite extravirgem orgânico que acumula seis distinções em cinco concursos internacionais na safra de 2026, com medalhas de ouro na Turquia e em Israel, prata na Itália e prêmios também no Brasil e na Argentina.
O produtor destaca que o planejamento longo é decisivo para quem entra na olivicultura. A oliveira leva anos até produzir em escala comercial, e o retorno financeiro não é imediato. “Você tem que pensar 20 anos na frente mesmo, que foi o que eu não fiz”, admite, rindo, ao lembrar que só depois de implantar o pomar entendeu o horizonte de tempo da cultura.
Na fazenda, a colheita é feita quando as azeitonas atingem o ponto ideal de maturação, variando entre verde e envero (quando começam a escurecer). O processamento é rápido e controlado, para preservar compostos aromáticos e garantir baixa acidez, característica essencial do azeite extravirgem de alta qualidade.
O Bene Orgânico é envasado em volumes como azeite de oliva 500ml e voltado a um público que busca produtos orgânicos e de alta rastreabilidade. O produtor também investe em visitas técnicas e em participação em concursos para dar visibilidade ao rótulo e abrir portas em mercados especializados no Brasil e no exterior.
Entenda o contexto
As histórias de Ijuí e Bom Sucesso de Itararé se inserem num movimento mais amplo de diversificação de renda no campo, em que famílias buscam alternativas à pecuária leiteira e às commodities tradicionais. No Rio Grande do Sul, a olivicultura vive ano de recuperação, com produção recorde de 1,17 milhão de litros de azeite, segundo o Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva).
Enquanto pequenos e médios produtores brasileiros apostam em azeites de nicho, com foco em qualidade e identidade de origem, o mercado internacional de azeite atravessa uma fase de reorganização, após instabilidades provocadas por secas e problemas de safra entre 2022 e 2024.
Por que a maior empresa de azeite do mundo teve queda de 23% após a venda?
A queda de 23,12% nas ações da Deoleo na Bolsa de Madri ocorre porque o valor estimado para os acionistas é bem menor que o número de 520 milhões de euros anunciado para a operação como um todo. O mercado reagiu à diferença entre o chamado “valor empresarial” e o montante que, de fato, deve chegar aos donos das ações.
A Deoleo, dona de marcas tradicionais como Carbonell e Carapelli e responsável também pela comercialização de rótulos como Bertolli sob licença, acertou a venda de até 100% do capital para um consórcio espanhol formado pela cooperativa Dcoop e pela empresa Acesur. O negócio foi fechado com base em um valor empresarial de 520 milhões de euros, mas os cálculos indicam que a fatia detida pela companhia listada em bolsa pode valer entre 190 milhões e 200 milhões de euros, antes de ajustes financeiros.
Na leitura dos investidores, isso significa que, apesar de o grupo como um todo ser avaliado em 520 milhões de euros, o que sobra para os atuais acionistas é bem menos — o que ajuda a explicar a forte correção nas cotações após o anúncio.
A Dcoop reúne mais de 75 mil famílias de agricultores e pecuaristas e é uma das gigantes mundiais na produção de azeite. A Acesur atua na indústria e na comercialização do produto, com marcas conhecidas na Europa. Cada uma ficará com 50% do negócio adquirido.
Na apresentação da operação, o presidente da Dcoop, Antonio Luque, chamou a parceria de “o consórcio da qualidade” e destacou a intenção de dar mais estabilidade à renda de produtores que se dedicam à oliveira há gerações. Já o CEO da Acesur, Gonzalo Guillén, afirmou: “Nossa ambição é reforçar esse vínculo e continuar levando o azeite a novos mercados, com qualidade, rastreabilidade e excelência como pilares”.
Para o CEO da Deoleo, Cristóbal Valdés, a transação marca uma nova fase para o setor, depois de anos de preços voláteis. Ele tem repetido que “o difícil período enfrentado pelo setor entre 2022 e 2024, marcado por fortes oscilações nos preços, ficou definitivamente para trás”.
A venda ainda depende de aprovações dos acionistas e de órgãos reguladores de países como Espanha, Estados Unidos e Itália, além de ajustes em contratos de licenciamento de marcas. A expectativa é que o processo leve de seis a oito meses. Analistas veem na operação uma nova onda de consolidação, com impacto sobre a concorrência global e eventuais reflexos em preços ao consumidor no médio prazo.
Quais são os benefícios do azeite de oliva extravirgem?
O principal benefício do azeite de oliva extravirgem é a combinação de gordura boa com compostos antioxidantes naturais, que ajudam a proteger o coração e reduzir processos inflamatórios no organismo. Para isso, a escolha de um azeite de qualidade — como os produzidos em pequena escala por olivicultores brasileiros — faz diferença.
O extravirgem é a categoria de azeite com menor acidez e maior preservação de compostos fenólicos, responsáveis pelo leve amargor e pela sensação de picância no fundo da garganta. São justamente esses componentes que concentram a maior parte dos efeitos benéficos associados ao consumo regular, como melhora do perfil de colesterol quando substitui gorduras saturadas na dieta.
No dia a dia, o azeite pode ser usado cru, em saladas e finalização de pratos, ou em preparos rápidos na frigideira. Ele suporta bem o calor em temperaturas moderadas, o que o torna opção entre os tipos de azeite para cozinhar. O consumo moderado não costuma levar ao ganho de peso isoladamente — a discussão sobre se azeite engorda passa pela quantidade total de calorias da dieta e pelo equilíbrio com outros alimentos gordurosos.
Com o aumento da oferta nacional, rótulos brasileiros vêm ganhando espaço ao lado de marcas importadas tradicionais, como Andorinha, Gallo e outras. No Brasil, o crescimento de mais de 20% nas vendas em volume nos primeiros cinco meses de 2026 indica que o azeite de oliva, antes restrito a ocasiões especiais, entra cada vez mais na rotina da cozinha doméstica.