A crise do Banco Ueno, uma das maiores instituições financeiras digitais do Paraguai, provocou a renúncia do presidente Santiago Peña nesta quinta-feira (5). O escândalo começou com a intervenção do Banco Central paraguaio, após a descoberta de graves problemas financeiros na instituição. A suspensão das operações deixou quase 3 milhões de clientes sem acesso ao próprio dinheiro e desencadeou protestos, investigações criminais e um processo de impeachment contra o chefe de Estado.
A situação ganhou dimensão política porque Peña, de 47 anos, foi acionista do grupo empresarial ligado ao banco até março de 2025. A oposição passou a questionar possíveis conflitos de interesses, a concentração de recursos públicos na instituição e a atuação dos órgãos responsáveis pela fiscalização bancária. O presidente negou ter responsabilidade pelas irregularidades e anunciou sua saída enquanto o Congresso discutia seu afastamento.
Com a renúncia, o Paraguai enfrenta uma transição de governo em meio à tentativa de recuperar os recursos bloqueados. O vice-presidente Pedro Alliana, também do Partido Colorado, é o sucessor constitucional de Peña. O desafio imediato será restabelecer a confiança da população no sistema financeiro e esclarecer as suspeitas que levaram ao colapso do Ueno.
Presidente do Paraguai anuncia renúncia em meio a crise bancária e pressão por impeachment
O que aconteceu com o Banco Ueno?
A crise começou na terça-feira (3), quando o Banco Central do Paraguai determinou a intervenção no Ueno Bank, instituição que cresceu rapidamente nos últimos anos e se tornou uma das principais plataformas de serviços bancários digitais do país.
Uma investigação da autoridade monetária identificou problemas na documentação de operações financeiras, fragilidades na qualidade dos ativos e empréstimos concedidos a empresas relacionadas ao grupo controlador do banco.
Após ajustes nos demonstrativos financeiros, o índice de solvência da instituição caiu para menos da metade do mínimo exigido pela legislação.
A solvência é um indicador utilizado para avaliar se um banco possui capital suficiente para absorver prejuízos e continuar cumprindo suas obrigações.
Quando esse indicador fica abaixo dos limites regulatórios, aumenta o risco de a instituição não conseguir suportar perdas financeiras.
Diante da gravidade da situação, o Banco Central iniciou um procedimento de resolução bancária, nomeou interventores e suspendeu as operações da instituição.
Na prática, clientes ficaram impossibilitados de realizar saques, transferências e outras movimentações.
Por que quase 3 milhões de pessoas ficaram sem dinheiro?
O Ueno Bank conquistou uma parcela expressiva do mercado paraguaio por meio de serviços digitais, cartões, benefícios e ofertas comerciais.
Antes da intervenção, a instituição informava possuir aproximadamente 2,9 milhões de clientes.
O número equivale a quase metade da população do Paraguai, estimada em cerca de 6,1 milhões de habitantes.
Com a suspensão das operações, consumidores perderam temporariamente o acesso aos saldos mantidos na plataforma.
O problema atingiu trabalhadores que recebiam salários pelo banco, aposentados, pequenos comerciantes e empresas que dependiam dos serviços financeiros para realizar pagamentos.
A situação provocou filas em agências, reclamações nas redes sociais e manifestações em Assunção, capital paraguaia.
A impossibilidade de movimentar recursos também aumentou a procura por contas em outras instituições financeiras.
O Banco Central passou a organizar mecanismos para transferir contas e permitir a recuperação dos depósitos, mas o processo não garante liberação imediata de todos os valores.
Banco Ueno também administrava milhões em recursos públicos
Um dos pontos mais sensíveis da crise envolve os recursos de instituições públicas depositados no Ueno.
Segundo informações divulgadas durante a investigação, o banco administrava aproximadamente US$ 800 milhões a US$ 850 milhões em depósitos de órgãos estatais e entidades ligadas ao setor público.
Parte desse dinheiro estava associada ao sistema previdenciário e de saúde do Paraguai.
A presença de recursos públicos ampliou a preocupação com as consequências da intervenção, já que eventuais perdas poderiam afetar não apenas correntistas particulares, mas também instituições responsáveis por serviços públicos.
As autoridades investigam se houve favorecimento na concentração desses depósitos e se as decisões administrativas seguiram as regras aplicáveis.
Até o momento, a existência de recursos públicos no banco não comprova, isoladamente, desvio ou participação criminosa de autoridades.
Qual é a ligação de Santiago Peña com o Banco Ueno?
Santiago Peña foi acionista de uma empresa ligada ao grupo controlador do Ueno até março de 2025.
A relação empresarial passou a ser questionada depois que o Banco Central identificou os problemas financeiros da instituição.
A oposição acusa o governo de ter permitido condições favoráveis ao crescimento do banco e questiona a atuação da autoridade monetária na fiscalização das operações.
Outro ponto levantado envolve Carlos Carvallo, que havia comandado a instituição financeira que antecedeu o Ueno Bank e posteriormente assumiu a presidência do Banco Central do Paraguai.
Carvallo deixou o comando da autoridade monetária após a crise.
Para parlamentares da oposição, a combinação entre vínculos empresariais anteriores, depósitos públicos e falhas de fiscalização exige uma investigação sobre possíveis conflitos de interesses.
Peña rejeitou as acusações de envolvimento nas irregularidades e defendeu a responsabilização de eventuais envolvidos.
As suspeitas permanecem sujeitas à apuração das autoridades competentes.
Como a crise bancária levou à renúncia do presidente?
O bloqueio dos recursos provocou manifestações populares e aumentou a pressão sobre o governo.
A oposição apresentou um pedido de impeachment contra Santiago Peña e o vice-presidente Pedro Alliana, apontando supostas irregularidades administrativas, conflitos de interesses e falhas na supervisão do sistema financeiro.
O movimento ganhou força quando integrantes do próprio Partido Colorado, legenda de Peña, passaram a apoiar a responsabilização política do presidente.
Nesta quinta-feira (5), enquanto a Câmara dos Deputados discutia o processo, Peña anunciou que deixaria a Presidência.
Em pronunciamento divulgado nas redes sociais, o presidente afirmou que tomou a decisão pensando na estabilidade do país e na preservação das instituições democráticas.
Pouco depois do anúncio, os deputados aprovaram por 78 votos a zero o prosseguimento da acusação para julgamento político no Senado.
A renúncia e o andamento do impeachment são procedimentos distintos, e os desdobramentos institucionais dependem das decisões do Congresso.
O que aconteceu com os dirigentes do Banco Ueno?
A crise também provocou uma investigação criminal sobre a administração da instituição.
O Ministério Público paraguaio apresentou acusações contra 27 pessoas relacionadas ao banco e a empresas vinculadas ao grupo controlador.
Oito dirigentes foram detidos, incluindo integrantes da alta administração.
Entre os investigados estão executivos suspeitos de envolvimento em operações financeiras irregulares, empréstimos a empresas relacionadas e possíveis falhas na gestão dos recursos.
As autoridades também passaram a examinar documentos contábeis e movimentações financeiras para identificar a dimensão dos problemas.
A apresentação de acusações e a realização de prisões não equivalem a condenações definitivas. Os investigados têm direito à defesa e ao devido processo legal.
Os clientes do Banco Ueno vão recuperar o dinheiro?
Uma das principais preocupações dos correntistas é saber quando poderão voltar a utilizar os recursos mantidos na instituição.
O Paraguai possui um Fundo de Garantia de Depósitos, mecanismo destinado a proteger valores depositados em instituições financeiras em situações previstas pela legislação.
A cobertura corresponde a até 75 salários mínimos paraguaios por depositante, o equivalente a aproximadamente US$ 38 mil, conforme os valores informados durante a crise.
Segundo estimativas divulgadas pelas autoridades, o limite poderá contemplar integralmente a maior parte dos correntistas.
Entretanto, a existência da garantia não significa que o dinheiro será disponibilizado imediatamente.
O procedimento exige identificação dos depósitos, análise dos valores cobertos e organização dos pagamentos.
Para pessoas e empresas com recursos superiores ao limite garantido, a recuperação poderá depender dos ativos disponíveis e do resultado do processo de resolução bancária.
O governo também anunciou medidas emergenciais para acelerar a restituição dos valores e reduzir os impactos sobre os clientes.
O problema do Ueno pode atingir outros bancos?
A intervenção provocou preocupação com a estabilidade do sistema financeiro paraguaio.
Quando uma instituição com milhões de clientes suspende suas operações, consumidores de outros bancos também podem ficar inseguros sobre a proteção de suas economias.
Esse comportamento pode aumentar a procura por saques e transferências, mesmo em instituições que não apresentam os mesmos problemas financeiros.
As autoridades monetárias paraguaias afirmam que o restante do sistema bancário continua funcionando normalmente.
O Banco Central também busca organizar a transferência de contas e ativos para outras instituições, com o objetivo de reduzir os prejuízos e evitar que a crise se espalhe.
A dimensão dos efeitos econômicos dependerá da velocidade de recuperação dos depósitos, da confiança dos consumidores e das medidas adotadas pelos reguladores.
Quem assume o Paraguai após a saída de Santiago Peña?
Pelas regras constitucionais paraguaias, cabe ao vice-presidente Pedro Alliana assumir a Presidência em caso de vacância definitiva do cargo.
Alliana também pertence ao Partido Colorado e integrou o governo de Santiago Peña desde agosto de 2023.
A expectativa é que ele conclua o mandato presidencial, previsto para terminar em agosto de 2028, após a formalização dos procedimentos de sucessão.
O novo governo herdará a tarefa de acompanhar a restituição dos recursos aos clientes, enfrentar os questionamentos sobre a fiscalização bancária e recuperar a confiança nas instituições públicas.
Também terá de lidar com a pressão política por investigações sobre a relação entre o Ueno, o antigo governo e os órgãos reguladores.
Próximos passos
O futuro da crise dependerá de três frentes principais: a recuperação dos depósitos, a responsabilização por possíveis irregularidades e a conclusão da transição presidencial.
O Banco Central do Paraguai deverá continuar o procedimento de resolução do Ueno, enquanto o Ministério Público investiga as operações financeiras que levaram à intervenção.
No Congresso, a renúncia de Peña e o processo de impeachment ainda exigem encaminhamentos institucionais.
Para a população, a principal preocupação permanece sendo o acesso ao próprio dinheiro.
O caso mostra como os problemas de uma instituição financeira com milhões de clientes podem ultrapassar o sistema bancário e provocar consequências políticas em escala nacional.