O Itaú Unibanco prevê um cenário econômico mais difícil para o Brasil em 2027, marcado por crescimento reduzido, risco de aumento do desemprego, inflação elevada e juros altos por mais tempo. O alerta foi feito pelo presidente-executivo do banco, Milton Maluhy Filho, durante a apresentação dos resultados do terceiro trimestre de 2026, realizada na quarta-feira (4).
As projeções divulgadas pela instituição indicam que a economia brasileira poderá crescer apenas 0,5% em 2027, enquanto a inflação deve alcançar 6,1%. O banco também espera que a taxa básica de juros permaneça em 13,75% ao final do próximo ano, cenário que pode encarecer empréstimos, financiamentos e dificultar a recuperação do consumo.
A avaliação ocorre após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em meio às incertezas sobre a condução da política fiscal e o controle dos gastos públicos. Apesar disso, o presidente do Itaú destacou que parte das dificuldades econômicas já estava prevista antes das eleições e não pode ser atribuída exclusivamente ao resultado das urnas.
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O que o Itaú prevê para a economia brasileira em 2027?
O cenário apresentado pelo banco aponta uma desaceleração significativa da atividade econômica. Segundo as projeções do Itaú BBA, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deve crescer 1,6% em 2026 e apenas 0,5% em 2027.
O PIB representa a soma dos bens e serviços produzidos no país. Quando cresce pouco, a economia tende a apresentar menor expansão da produção, dos investimentos e das oportunidades de emprego.
A instituição também projeta inflação de 6,1% em 2027, acima do limite de tolerância de 4,5% estabelecido para a meta brasileira, cujo centro é de 3%.
Se confirmada, essa combinação de crescimento baixo e inflação elevada poderá reduzir o poder de compra da população e dificultar a atuação do Banco Central na tentativa de diminuir os juros.
As estimativas, no entanto, são projeções econômicas e podem sofrer alterações conforme o comportamento do câmbio, das contas públicas e das decisões de política monetária.
Desemprego pode aumentar no próximo ano
Uma das principais preocupações do Itaú está relacionada ao mercado de trabalho.
Com a expectativa de crescimento mais lento da economia, empresas podem reduzir contratações, adiar investimentos e ampliar a cautela em relação aos custos operacionais.
Em sua revisão de cenário divulgada em outubro, o banco elevou a projeção de desemprego para 2027, considerando os efeitos da desaceleração econômica sobre a geração de vagas.
A preocupação é que a combinação de juros elevados e menor atividade reduza a capacidade das empresas de expandir suas operações.
Para os trabalhadores, isso pode significar mais dificuldade na busca por emprego, menor crescimento dos salários e maior concorrência pelas vagas disponíveis.
Apesar do alerta, o aumento do desemprego ainda não é um resultado confirmado. A evolução do indicador dependerá do desempenho efetivo da economia ao longo do próximo ano.
Juros altos podem dificultar empréstimos e financiamentos
O presidente-executivo do Itaú destacou que o endividamento das famílias e das empresas representa outro fator de preocupação para 2027.
Com a taxa Selic em patamar elevado, consumidores que precisam contratar empréstimos, financiar imóveis ou renegociar dívidas podem enfrentar condições de pagamento mais caras.
As empresas também são afetadas, especialmente aquelas que precisam refinanciar compromissos financeiros contratados anteriormente.
Quando os juros permanecem altos, o custo dessas operações aumenta e pode comprometer parte dos recursos que seriam utilizados para investimentos, contratação de funcionários e ampliação dos negócios.
Segundo Maluhy Filho, a situação exige atenção porque muitas famílias já apresentam elevado comprometimento da renda com dívidas.
O cenário pode levar as instituições financeiras a adotarem critérios mais rigorosos na concessão de crédito, principalmente para consumidores e empresas considerados mais vulneráveis.
Itaú eleva custo de capital para 15,25%
A piora das expectativas econômicas também provocou mudanças nos parâmetros financeiros utilizados pelo próprio Itaú.
O banco elevou seu custo de capital de 14,5% para 15,25%, refletindo a percepção de maiores riscos e a elevação das taxas de juros de longo prazo.
O custo de capital representa, de maneira simplificada, a rentabilidade mínima exigida pelos investidores para aplicar recursos em determinado negócio, considerando os riscos envolvidos.
Quando esse indicador aumenta, as instituições precisam avaliar com mais rigor a viabilidade de investimentos e operações financeiras.
Maluhy Filho explicou que o indicador poderá variar conforme fatores como juros futuros, ambiente institucional, segurança jurídica e percepção de risco dos investidores.
Apesar do cenário mais difícil, o executivo afirmou que o Itaú mantém condições financeiras para continuar operando e expandindo seus negócios.
“Não somos imunes, naturalmente, temos uma carteira de R$ 1,5 trilhão, mas nosso portfólio está muito bem posicionado para enfrentar qualquer que seja o desafio.”
Mercado aguarda decisões econômicas do governo Lula
A condução das contas públicas também está entre os principais fatores acompanhados pelo mercado financeiro.
Após a reeleição de Lula, investidores passaram a observar com maior atenção as possíveis mudanças na política fiscal, o crescimento da dívida pública e as medidas que poderão ser adotadas a partir de 2027.
O presidente do Itaú afirmou que o mercado precisa de propostas concretas para avaliar os próximos passos da economia brasileira.
“O mercado, por definição, ele não tem partido, né? Ele olha pra propostas concretas.”
Entre as preocupações estão o comportamento do câmbio, o aumento das despesas públicas, a política de juros e os efeitos da reforma tributária.
Para o executivo, o país precisa encontrar condições que permitam reduzir os juros de forma sustentável, sem provocar novas pressões inflacionárias.
A avaliação é que medidas destinadas a estimular a economia precisam considerar também os riscos para a estabilidade dos preços.
O que pode ficar mais caro para os brasileiros?
Caso as projeções do Itaú se confirmem, os efeitos poderão ser percebidos diretamente no orçamento das famílias.
Uma inflação mais elevada significa perda de poder de compra, já que o dinheiro passa a adquirir uma quantidade menor de produtos e serviços.
Alimentos, combustíveis, transporte e outros itens essenciais podem sofrer reajustes, dependendo das condições de cada setor e da evolução dos custos de produção.
A valorização do dólar também pode pressionar os preços de produtos importados e matérias-primas utilizadas pela indústria brasileira.
Já a manutenção dos juros elevados tende a afetar principalmente quem depende de crédito.
Financiamentos imobiliários, empréstimos pessoais, crédito para veículos e operações de capital de giro podem permanecer caros, embora as taxas cobradas variem conforme cada instituição e o perfil do cliente.
O impacto não ocorre de forma automática nem uniforme. O comportamento dos preços e do crédito dependerá de diferentes fatores econômicos ao longo de 2027.
Banco mantém expectativa de rentabilidade apesar das dificuldades
Mesmo diante das projeções mais cautelosas, o Itaú afirma estar preparado para enfrentar um ambiente econômico menos favorável.
A instituição registrou lucro líquido recorrente de R$ 12,6 bilhões no terceiro trimestre de 2026, crescimento de 6,2% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A carteira de crédito alcançou aproximadamente R$ 1,5 trilhão, enquanto a rentabilidade recorrente sobre o patrimônio líquido médio anualizado ficou em 23,6%.
Segundo Maluhy Filho, o banco não enfrenta restrições relevantes de capital ou liquidez que comprometam sua capacidade de operar.
A instituição pretende manter a disciplina na concessão de empréstimos e no controle de despesas, buscando equilibrar crescimento e rentabilidade.
O executivo também ressaltou que um ambiente mais difícil não significa necessariamente uma crise bancária, mas exige maior atenção à capacidade de pagamento dos clientes e à evolução da economia.
Próximos passos
As projeções para 2027 deverão ser atualizadas conforme novos indicadores econômicos forem divulgados e o governo apresentar suas prioridades fiscais para o próximo mandato.
Entre os pontos acompanhados pelo Itaú e por outras instituições financeiras estão as decisões do Banco Central sobre a Selic, a evolução da inflação, os resultados do mercado de trabalho e o comportamento da dívida pública.
A definição das medidas econômicas para 2027 também será importante para avaliar se haverá condições de retomada dos cortes de juros.
Por enquanto, o cenário apresentado pelo Itaú indica um próximo ano de crescimento limitado e maior pressão sobre consumidores e empresas. A concretização dessas expectativas dependerá das decisões econômicas e do desempenho do país nos próximos meses.