O clima dentro do campo da direita brasileira piorou de forma considerável nas últimas semanas. A briga pública entre o deputado federal Ricardo Salles, hoje no Partido Novo, e o ex-parlamentar Eduardo Bolsonaro, do PL, colocou em evidência um racha que vai muito além de uma disputa por vaga no Senado paulista.
O que está em jogo é a capacidade da direita de se organizar para a reta final do ciclo eleitoral de 2026. Nos bastidores, o diagnóstico é unânime: cada declaração de Eduardo Bolsonaro fora do Brasil funciona como munição para os adversários e como pedra no caminho da pré-candidatura do irmão, o senador Flávio Bolsonaro.
As pesquisas registraram recuo nas intenções de voto de Flávio, mesmo depois de sua visita a Washington e do encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O que deveria ser um ativo de imagem tornou-se insuficiente para conter o desgaste acumulado.
O embate entre Salles e Eduardo Bolsonaro tornou explícito o que os corredores do poder já discutiam em voz baixa. Salles, que foi ministro do Meio Ambiente no governo Jair Bolsonaro e hoje tenta se viabilizar politicamente pelo Novo, acusou Eduardo de prejudicar o Brasil com suas ações nos Estados Unidos e lançou suspeitas sobre os bastidores que o tiraram da disputa ao Senado por São Paulo.
Eduardo perdeu o mandato de deputado federal em 2025 após a declaração de perda de mandato registrada pela Mesa Diretora da Câmara dos Deputados e, desde então, opera politicamente à distância, numa posição que fragiliza a imagem de toda a família no calendário eleitoral.
Para o PL e para a cúpula que cerca Flávio Bolsonaro, o caminho mais seguro seria o silêncio estratégico do irmão, ao menos até as convenções. Mas os bastidores indicam que esse controle é improvável. Cada aparição pública de Eduardo nos Estados Unidos alimenta o desgaste, e a dinâmica de polarização que marca esta eleição não deixa margem para tropeços.
Do outro lado do espectro, o campo governista também atravessa turbulências. A nona fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, mirou o senador Jaques Wagner, líder do governo no Senado, apontado como beneficiário central de pagamentos e benefícios vinculados ao ex-sócio do Banco Master, Augusto Lima.
Os investigadores apuram ainda a atuação de Wagner no Senado em temas de interesse do Banco Master. O caso aproxima o governo de um tipo de constrangimento que o PT acostumou-se a atribuir exclusivamente ao campo adversário.
A tentativa de enquadrar o escândalo do Banco Master como um problema exclusivo da direita não encontra respaldo nos fatos que estão sendo apurados. A investigação alcança figuras de diferentes campos, o que embaralha qualquer tentativa de capitalização eleitoral fácil.
O resultado é que nenhum dos lados chega à pré-campanha em posição confortável. A direita convive com o ruído produzido por Eduardo Bolsonaro e com a fragmentação interna que Salles expôs às claras. A esquerda administra o peso das investigações em torno do Banco Master e do nome de um aliado estratégico no Senado.
O xadrez eleitoral de 2026 já deixou de ser simples. E vai ficar mais complicado antes de ficar mais claro.