Do streaming para a vitrola: mercado de vinil cresce no Brasil e conquista novas gerações

Vendas de mídias físicas avançaram 25,6% em 2025, impulsionadas pelos discos de vinil. Em Belo Horizonte, lojas especializadas atraem colecionadores, jovens consumidores e até DJs.
Redação NC News
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Mesmo em meio à era digital, em que os streamings dominam as plataformas e moldam o consumo de música no dia a dia, ainda existe um público que faz questão de voltar no tempo. Gente que prefere sentir a música de outra forma, mais tátil, mais lenta e mais nostálgica. Além dos CDs e DVDs, o disco de vinil voltou ao centro das atenções e não apenas como memória, mas como uma tendência em crescimento.

De acordo com o Relatório do Mercado Brasileiro de Música 2025, o segmento digital segue liderando com força, impulsionado principalmente pelo streaming, que sozinho movimentou R$ 3,4 bilhões e registrou crescimento de 13,2% em relação ao ano anterior. Mas, mesmo diante desse domínio, o mercado físico surpreende. As vendas de mídias físicas cresceram 25,6% no período e alcançaram R$ 24 milhões, impulsionadas principalmente pelo vinil.

O dado mostra que, embora represente menos de 1% da receita total da indústria fonográfica brasileira, o formato segue conquistando novos consumidores e mantendo viva a paixão de colecionadores. Mais do que uma forma de ouvir música, o vinil se consolidou como um objeto de valor cultural, afetivo e até decorativo.

Entre memória, coleção e música
Em Belo Horizonte, esse renascimento do vinil pode ser percebido de forma bastante concreta. A capital mineira conta com mais de 15 lojas e sebos especializados, que ajudam a manter viva uma cultura musical que atravessa gerações.

Entre esses espaços está um dos mais tradicionais pontos de encontro dos apaixonados por música na cidade. Localizado no histórico Edifício Maletta, no Centro de Belo Horizonte, uma loja reúne milhares de discos e recebe diariamente colecionadores, curiosos, turistas e amantes da música.

Segundo Hudson Dias, vendedor da loja, a movimentação do mercado ganhou força principalmente após a pandemia.

“Desde a pandemia, a procura aumentou bastante. A gente percebe um interesse maior das pessoas pelo vinil e pela experiência de ouvir música dessa forma.”, afirma

O crescimento observado no dia a dia da loja acompanha a tendência nacional. Em um cenário dominado pelo consumo instantâneo de música nas plataformas digitais, muitos consumidores passaram a valorizar experiências mais completas. O ritual de escolher um disco, observar a capa, ler os encartes e colocar a agulha sobre o vinil faz parte de uma experiência que o streaming não consegue reproduzir.

Quem compra os discos de vinil?
Ao contrário do que muitos imaginam, o público do vinil não é formado apenas por pessoas que viveram o auge do formato. Segundo Hudson, os consumidores costumam se dividir em dois grandes grupos.

“Dá para separar em dois perfis. Tem a pessoa que herda os discos da família e aprende a gostar de música por meio disso. Ela acaba criando uma relação com aquele acervo e começa a adquirir vários outros discos. E tem também quem conhece o vinil por curiosidade, gosta da experiência e passa a colecionar.”, explica.

O vendedor explica que muitos discos carregam histórias familiares e despertam interesse justamente pela memória afetiva associada a eles. Não são raros os casos de pessoas que chegam à loja em busca de álbuns semelhantes aos que ouviram na infância ou que faziam parte da coleção dos pais e avós.

Além disso, o perfil dos compradores tem se diversificado cada vez mais. Segundo João Correia, também vendedor, os DJs representam uma parcela importante desse mercado.

“Desde a pandemia tem aumentado bastante. A gente vende muito pela internet e também para DJs. É um mercado bem interessante.”, diz.

Entre os estilos mais procurados estão os clássicos da Música Popular Brasileira, mas os lançamentos recentes também aparecem com frequência entre os pedidos.

“MPB continua sendo muito procurada, mas também saem muitos discos de pop e lançamentos novos, inclusive de artistas atuais e internacionais.”, afirma.

A presença de artistas contemporâneos nas prateleiras mostra que o vinil deixou de ser apenas um produto nostálgico. Hoje, ele também faz parte da estratégia de lançamento de grandes nomes da música nacional e internacional, ampliando o alcance do formato entre os públicos mais jovens.

Mercado que movimenta outros mercados
O crescimento da procura por vinis também impulsiona outro segmento importante: o de pessoas interessadas em vender ou repassar coleções particulares.

Segundo Hudson, boa parte do acervo disponível na loja chega justamente por meio de famílias que herdaram discos ou de pessoas que precisam se desfazer de coleções acumuladas ao longo dos anos.

“A gente recebe muito contato de pessoas que estão se mudando, que não têm mais espaço ou simplesmente querem se desfazer do material. Como os discos ocupam espaço e são pesados, muita gente prefere vender ou doar.”, diz Hudson.

De acordo com o vendedor, a maior parte dos discos comercializados tem origem em coleções familiares.

“O material que chega aqui é predominantemente de herança. Muitas pessoas herdam os discos, mas não querem ficar com eles e procuram a loja. Também existe quem queira saber a história daquele disco ou até quem acredite que possui uma raridade que pode valer muito dinheiro.”, conta.

A valorização do vinil criou um ciclo que ajuda a manter o mercado aquecido. Enquanto alguns consumidores procuram discos para ampliar suas coleções ou iniciar um novo hobby, outras pessoas encontram nos sebos uma oportunidade de dar novo destino a acervos que marcaram a história de suas famílias.

No fim, o que os números mostram e o que as lojas de Belo Horizonte confirmam é que o vinil encontrou novamente o seu espaço. Em uma época em que praticamente toda a música do mundo cabe dentro de um celular, milhares de pessoas continuam escolhendo ouvir suas canções favoritas da maneira mais analógica possível. E, ao que tudo indica, esse retorno está longe de ser apenas uma moda passageira.

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