Douglas Ruas, 37, presidente da Alerj e pré-candidato do PL ao governo do Rio, defende que os Estados Unidos bombardeiem embarcações suspeitas de tráfico na costa fluminense. As declarações, dadas em junho e reiteradas até esta sexta-feira (26), reposicionam a disputa pelo Palácio da Guanabara em torno de segurança pública e soberania nacional.
Plano de guerra no mar e apoio a ação dos EUA
Ruas endossa uma das bandeiras mais polêmicas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu principal aliado na campanha. Em entrevistas à BBC News Brasil e a O Globo, o deputado afirma apoiar operações militares americanas em mar aberto para conter o fluxo de armas e drogas rumo ao estado.
“Defendo medidas efetivas para impedir que essas armas e essas drogas cheguem ao nosso território. E, se for necessário bombardear esses traficantes de drogas, traficantes de armas, no mar aberto, antes dessas armas chegarem aqui no nosso território, nas nossas cidades, têm o meu total apoio”, diz.
O discurso rompe com a tradição recente da política fluminense, que, apesar de constantes apelos por ajuda federal, não havia vocalizado de forma tão direta a participação de forças estrangeiras em ações ofensivas no entorno do Rio. A proposta embute um choque diplomático potencial: operações armadas conduzidas por outro país em águas sob responsabilidade brasileira.
Ruas argumenta que o crime organizado já atua de forma transnacional e exige resposta na mesma escala. “Eu defendo que nós possamos, sim, buscar cooperação internacional para o enfrentamento ao crime organizado, entendendo que essas facções hoje têm atuação em inúmeros países”, afirma.
Facções como terroristas e megaoperação contestada
O pré-candidato apoia ainda a decisão dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A medida, na prática, abre caminho para bloqueios de recursos, sanções e monitoramento reforçado de integrantes suspeitos em solo americano.
No plano interno, Ruas legitima a escalada de operações policiais de alto impacto no estado. Ele considera “totalmente legítima” a megaoperação realizada em outubro nas comunidades da Penha e do Alemão, que terminou com 122 mortos e 113 presos, segundo balanço oficial. Organizações de direitos humanos contestam a ação e apontam abuso policial, mas o deputado a exibe como modelo de enfrentamento às facções.
Essa combinação de apoio a ações letais em favelas e defesa de bombardeios em mar aberto consolida a imagem de um candidato de linha dura. A aposta é falar diretamente a um eleitorado que vê na violência diária a principal preocupação e cobra respostas imediatas, ainda que controversas.
Apoio de Flávio Bolsonaro e sombra das milícias
A candidatura de Ruas nasce de uma crise dupla no PL fluminense. O partido perde o governo do estado após a cassação de Cláudio Castro e vê ruir a alternativa de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, afastado e preso sob suspeita de ligação com facções criminosas. Nesse vácuo, o deputado estadual é alçado ao centro do tabuleiro, com o aval direto de Flávio Bolsonaro.
O senador, porém, chega à campanha carregando o desgaste do caso das “rachadinhas” e da relação de seu antigo gabinete, na Alerj, com familiares do miliciano Adriano da Nóbrega. A então esposa e a mãe de Adriano trabalharam com Flávio até 2018, quando foram exoneradas após as primeiras denúncias. O parlamentar nega qualquer ilegalidade ou vínculo com milícias.
Ruas não vê conflito entre o discurso contra facções e o apoio do senador. Aposta que o peso eleitoral do bolsonarismo ainda é um ativo importante no estado e pode ajudá-lo a romper a barreira das pesquisas, hoje amplamente favoráveis a Eduardo Paes (PSD).
Paes na frente, PL tenta sobreviver
O cenário medido pelo Paraná Pesquisas em 4 de junho mostra um favoritismo confortável do ex-prefeito do Rio. Paes aparece com 48,3% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Ruas soma 12,6% e ocupa o segundo lugar distante. Em simulação de segundo turno, Paes venceria por 60% a 24,5%.
A próxima rodada do instituto, prevista para 2 de julho, deve ouvir 1.600 eleitores, com margem de erro de 2,5 pontos percentuais. Funcionará como primeiro termômetro do impacto do discurso de endurecimento adotado pelo presidente da Alerj e de sua associação direta com o grupo de Flávio Bolsonaro.
A disputa de 2026 inclui ainda duas cadeiras no Senado. Pesquisas iniciais indicam Benedita da Silva (PT) e Marcelo Crivella (Republicanos) como favoritos, o que reforça a fragmentação do campo conservador e progressista no estado, em meio a um ambiente de forte polarização.
Rompimento com Castro e ataque às contas do estado
Embora tenha sido secretário de Cidades no governo de Cláudio Castro, Ruas tenta se afastar do legado do correligionário cassado. Ataca frontalmente a situação fiscal do Rio e responsabiliza a antiga gestão pelo avanço do déficit.
“Há cinco anos, nós tínhamos um orçamento equilibrado no Estado do Rio de Janeiro, quando as despesas cabiam dentro da receita”, afirma. Para ele, o quadro atual decorre de uma “forte deterioração das contas públicas”, que ameaça investimentos em segurança, saúde e educação.
O deputado sustenta que não representa continuidade de Castro. “O meu plano de governo não é continuidade de nenhum outro governo que tenha passado por aqui”, diz. O recado mira dois públicos ao mesmo tempo: o eleitor desconfiado do PL após sucessivos escândalos e a base bolsonarista, que vê em Castro um quadro desgastado.
Antes de chegar à Alerj, Ruas constrói carreira política em São Gonçalo, segunda maior cidade do estado. Atua como secretário municipal na gestão do pai, o prefeito capitão Nelson Ruas, experiência que agora usa como credencial administrativa.
Choque com Lula e disputa sobre a forma de escolher o governador
O embate de Ruas não se limita ao terreno da segurança. No campo institucional, ele confronta a posição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a crise no governo fluminense. Hoje, o estado é comandado interinamente pelo desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça do Rio, em meio a um impasse no Supremo Tribunal Federal.
Os ministros discutem se a escolha do novo governador até 2026 deve ocorrer por eleição direta, com voto popular, ou indireta, pelos deputados estaduais. A análise está paralisada após pedido de vista do ministro Flávio Dino. Lula já manifestou apoio à permanência do governo interino por dez meses, o que, na prática, adia a ida dos eleitores às urnas.
Ruas reage com veemência. “É lamentável que o presidente da República se posicione dessa maneira. A gente sabe o quanto as pessoas lutaram no passado para que nós tivéssemos a redemocratização, para que fosse estabelecido o direito ao voto”, afirma. Embora a eleição indireta pudesse beneficiá-lo, como presidente da Alerj, ele insiste em defender a escolha direta como condição para a “plena democracia”.
Segurança, soberania e o que está em jogo em 2026
As propostas de Douglas Ruas reorganizam o debate eleitoral do Rio em torno de três eixos: segurança pública extrema, crítica à desordem fiscal e defesa do voto direto. A ideia de permitir bombardeios americanos em mar aberto amplia o leque de atores envolvidos no combate ao tráfico, mas abre uma frente de atrito com setores das Forças Armadas, da diplomacia e de especialistas em direito internacional, preocupados com soberania e riscos a populações costeiras.
O apoio à classificação de CV e PCC como terroristas reforça a lógica de guerra às drogas, com potencial para endurecer operações em favelas e aumentar tensões com movimentos de direitos humanos. Ao mesmo tempo, o distanciamento calculado de Cláudio Castro e a aproximação com Flávio Bolsonaro mostram um PL que tenta sobreviver à cassação do ex-governador sem romper com o bolsonarismo.
As próximas semanas indicarão se o discurso de “mão pesada” de Ruas consegue furar a vantagem de Eduardo Paes e se transformar em alternativa viável até outubro de 2026. A nova pesquisa do Paraná Pesquisas será o primeiro sinal. A decisão do STF sobre o formato da escolha do governador e a evolução das operações policiais no estado completarão o cenário em que o presidente da Alerj tenta sair da condição de franco-atirador para a de protagonista na sucessão fluminense.
Douglas Ruas é delegado?
Não. Douglas Ruas é deputado estadual, presidente da Alerj e advogado de formação, com trajetória na gestão pública, mas não integra a carreira de delegado.
Quem é a esposa de Douglas Ruas?
Douglas Ruas mantém a vida pessoal em sigilo e não a insere no discurso político. A campanha é construída sobre sua trajetória institucional e propostas.
Douglas Ruas tem ligação com milícia?
Não há acusação formal ou investigação pública que aponte Douglas Ruas como ligado a milícias. As polêmicas citadas envolvem o senador Flávio Bolsonaro, seu aliado.
Qual é o partido de Douglas Ruas?
Douglas Ruas é filiado ao PL, o Partido Liberal, e é o pré-candidato da sigla ao governo do Estado do Rio de Janeiro nas eleições de 2026.
Douglas Ruas já foi secretário?
Sim. Ele foi secretário municipal em São Gonçalo, na gestão do pai, capitão Nelson Ruas, e secretário de Cidades no governo de Cláudio Castro antes de se eleger deputado.