A suspeita infundada de espionagem acabou sendo a peça-chave para que a Polícia Federal (PF) desmantelasse a estrutura de “A Turma”, um grupo suspeito de atuar na intimidação de desafetos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo dono do Banco Master.
O caso inusitado ocorreu no condomínio onde o empresário reside, em Nova Lima, Minas Gerais. Incomodado com a presença de um drone sobrevoando sua propriedade em março de 2024, Vorcaro acionou seu aliado Luiz Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário”, pedindo que resolvesse a situação.
Mensagens interceptadas pela PF mostram que Sicário ofereceu duas abordagens: uma “velada” ou uma “ostensiva”. Vorcaro optou pela segunda, com o claro objetivo de intimidar o suposto espião. Sicário chegou a sugerir o registro de um boletim de ocorrência e a compra de um “anti-drone”, mas o empresário hesitou em envolver a polícia oficial para evitar chamar atenção.
O tiro pela culatra e o cachorro Pitoco
Para executar o plano de intimidação, Sicário enviou ao condomínio o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva. A pedido do próprio Vorcaro, a entrada de Marilson foi liberada na portaria.
Foi exatamente esse registro de visitante que selou o destino do grupo. A PF cruzou os dados da portaria com as mensagens de áudio interceptadas e confirmou que Marilson era o líder operacional de “A Turma”.
A equipe do policial aposentado fez duas incursões no condomínio em busca do “espião”. Na segunda tentativa, a grande reviravolta: os capangas descobriram que o drone não pertencia a investigadores ou inimigos, mas sim a um vizinho que procurava desesperadamente por seu cachorro de estimação que havia fugido.
Os aliados de Vorcaro chegaram a enviar para Sicário a foto do panfleto de buscas. “É muito dócil. Tem 10 anos, mas está com medo e fugindo cada vez mais longe. Caso veja, por favor ligue imediatamente” — dizia o folheto do cãozinho chamado Pitoco, anexado no relatório da PF.
O que era “A Turma”?
Segundo as investigações, o grupo criminoso custava cerca de R$ 400 mil por mês aos cofres de Vorcaro. A organização era encarregada de realizar:
- Ameaças, intimidações pessoais e coerções.
- Levantamentos clandestinos sobre a vida de desafetos.
- Obtenção de dados sigilosos e acessos indevidos a sistemas do governo.
- A estrutura liderada pelo policial aposentado (preso desde março durante a operação
- sobre o caso Master) era dividida em três frentes:
Demanda e financiamento: responsável por receber as ordens e o dinheiro.
Presencial e territorial: encarregada do trabalho de campo e intimidação (como no caso do drone).
Policial-informacional: focada em espionagem e acesso a sistemas restritos.
Até o momento da publicação desta reportagem, a defesa de Marilson Roseno da Silva não havia sido localizada para comentar as acusações.