O tenente Ronickson Pimentel dos Santos, da Rota e irmão de Eloá Pimentel, é baleado na cabeça na manhã deste sábado (27) em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo. Ele está à paisana, em uma motocicleta parada no semáforo da Avenida Goiás, quando dois homens em outra moto se aproximam e disparam várias vezes.
Ataque em via movimentada e resgate de helicóptero
Câmeras de segurança registram o momento do atentado. As imagens mostram o semáforo fechado, o trânsito fluindo, e a aproximação rápida da moto com dois ocupantes. O garupa se volta para Ronickson e atira. A dupla foge em seguida.
Equipes de resgate chegam poucos minutos depois. O helicóptero Águia é acionado para o transporte de emergência. O tenente é levado inconsciente ao Hospital Mário Covas, em Santo André, onde passa por cirurgia. O estado de saúde não é divulgado até o início da tarde.
A Secretaria da Segurança Pública confirma a ocorrência e descreve, em nota, a dinâmica resumida do caso. “A Polícia Militar informa que, na manhã deste sábado (27), equipes foram acionadas para atender uma ocorrência de disparos de arma de fogo na Avenida Goiás, em São Caetano do Sul”, diz o texto. A pasta afirma ainda que os policiais apuram tentativa de homicídio.
Horas após o ataque, a moto usada pelos criminosos é encontrada abandonada no bairro do Ipiranga, na capital. Policiais civis e militares analisam câmeras da região e fazem buscas em São Caetano e nos bairros vizinhos. Nenhum suspeito é preso até a publicação desta reportagem.
Vulnerabilidade de um tenente de tropa de elite
Ronickson não está de serviço quando é atacado. Usa moto particular, não veste farda e aguarda a abertura do semáforo. A cena reforça a percepção de vulnerabilidade de agentes mesmo fora do horário de trabalho e em um cenário aparentemente banal do cotidiano urbano.
O policial integra o 1º Batalhão de Polícia de Choque, a Rota, tropa de elite da Polícia Militar paulista. Ingressa na corporação em 2009, depois de atuar como fuzileiro naval entre 2006 e 2009 na Marinha do Brasil. Passa pela Academia do Barro Branco, soma sete anos de experiência na Força Tática e chega à Rota em 2019.
O currículo reforça o simbolismo do ataque: um tenente treinado para enfrentar quadrilhas armadas e confrontos de alta letalidade é atingido em plena luz do dia, em via movimentada, sem chance de reação. Entre colegas, o episódio acende o alerta sobre a segurança de policiais, sobretudo de unidades de choque, que acumulam confrontos com o crime organizado.
A SSP afirma que todas as linhas de investigação seguem abertas. A principal hipótese inicial é a de tentativa de assalto, mas policiais não descartam outros cenários, como possível retaliação. “A ocorrência foi encaminhada à Delegacia Sede de São Caetano do Sul e segue em andamento, com diligências para identificar e localizar os autores do crime”, informa a secretaria.
Ferida reaberta: a memória de Eloá
O sobrenome Pimentel arrasta o episódio de volta a 2008. A família volta ao noticiário quase 18 anos depois do sequestro que choca o país. Eloá Cristina Pimentel, então com 15 anos, é mantida refém por mais de 100 horas pelo ex-namorado, Lindemberg Fernandes Alves, em um apartamento em Santo André.
O caso se torna o sequestro mais longo registrado em São Paulo, transmitido ao vivo por emissoras de TV, discutido em redes sociais em ascensão e debatido em organismos de direitos humanos. Em 13 de outubro de 2008, Lindemberg invade o apartamento onde Eloá e amigos estudam. Dois rapazes são liberados no mesmo dia. Eloá e a amiga Nayara Rodrigues seguem sob mira de um revólver até a entrada do Grupo de Ações Táticas Especiais, quatro dias depois.
Na invasão, tiros atingem Eloá e Nayara. Lindemberg é preso sem ferimentos. Eloá morre no dia seguinte, com um disparo na cabeça e outro na virilha, e o caso entra para a história recente da violência doméstica e do feminicídio no Brasil.
Anos depois, no Tribunal do Júri, Ronickson encara o assassino da irmã por quase uma hora. No depoimento, chama Lindemberg de “um monstro” e descreve o comportamento explosivo do ex-cunhado. “Ele era agressivo, sempre arrumava brigas por futebol”, relata aos jurados, em uma síntese da ameaça que rondava a adolescente antes do desfecho fatal.
Pressão sobre a segurança pública e impacto simbólico
O ataque ao tenente reacende, de uma só vez, dois debates sensíveis: a escalada da violência urbana na Grande São Paulo e a proteção de agentes da segurança pública. O tiro que atinge um oficial da Rota, em plena avenida central, projeta a sensação de que nem policiais de elite estão protegidos.
As primeiras horas após o crime mobilizam diferentes estruturas do Estado. O helicóptero Águia deixa de cobrir outras ocorrências para priorizar o resgate. A rede hospitalar pública do ABC paulista entra em regime de urgência. Equipes da Polícia Militar e da Polícia Civil são deslocadas para diligências, perícia e rastreamento de câmeras.
A família Pimentel, que enterra uma adolescente de 15 anos após um sequestro televisionado, volta a viver a incerteza de uma UTI. O Brasil revive, com novas imagens e outro contexto, o choque provocado pelo nome Eloá. O atentado também toca quem acompanha políticas de segurança há mais de uma década, ao lembrar que o caso de 2008 já havia exposto falhas de negociação, protocolos policiais e proteção de vítimas de violência doméstica.
Na prática, quem perde, neste sábado, são os próprios agentes de segurança, expostos a ataques ousados, e a população que espera deles proteção nas ruas. A criminalidade, por outro lado, demonstra capacidade de ação direta contra policiais, o que tende a cobrar resposta dura das autoridades paulistas nos próximos dias.
Investigações, silêncio sobre o quadro clínico e próximos passos
Delegados e equipes da Delegacia Sede de São Caetano do Sul trabalham com imagens de circuito interno e relatos de testemunhas para montar a rota da dupla em fuga. A moto abandonada no Ipiranga é considerada peça-chave, tanto para identificação dos autores quanto para eventual ligação com outros crimes.
O governo paulista mantém reserva sobre o quadro clínico de Ronickson. O silêncio alimenta a apreensão entre colegas de farda, familiares e parte da opinião pública, ainda mais pelo vínculo com o caso Eloá. A comunicação oficial se limita a confirmar a cirurgia e a informar que a investigação corre sob sigilo parcial.
Os próximos dias devem trazer desdobramentos em três frentes: a definição da motivação do ataque, a possível prisão dos envolvidos e a resposta institucional da segurança pública. O episódio tende a alimentar projetos e discursos sobre reforço da proteção a policiais, revisão de protocolos de deslocamento de agentes e combate mais incisivo a quadrilhas armadas na região metropolitana.
Enquanto isso, a imagem que fica deste sábado é a de um tenente de tropa de elite, ferido na cabeça, sendo içado por um guincho do helicóptero Águia em uma cidade que, desde 2008, conhece de perto o nome Pimentel.
O que aconteceu com o assassino de Eloá Pimentel?
Lindemberg Fernandes Alves é preso em 2008, levado a júri anos depois e condenado pela morte de Eloá e pelos crimes cometidos durante o sequestro.
Quantos anos tinha Nayara, amiga de Eloá?
Nayara Rodrigues da Silva é adolescente à época do crime, colega de escola de Eloá e uma das reféns feitas por Lindemberg no apartamento em Santo André.
Como Lindemberg está hoje?
Ele permanece sob responsabilidade da Justiça, cumprindo a pena à qual foi condenado pelo assassinato de Eloá e pelos demais crimes atribuídos no processo.
Como está Nayara, amiga da Eloá, hoje?
Não há informações públicas recentes, em detalhes, sobre a vida de Nayara; ela mantém discrição desde o fim do sequestro e do julgamento.