O tenente da Rota Ronickson Pimentel dos Santos, irmão de Eloá Cristina Pimentel, é baleado na cabeça na manhã deste sábado (27) na Avenida Goiás, em São Caetano do Sul. Ele está à paisana, em uma motocicleta, parado no semáforo, quando dois homens em uma moto se aproximam e disparam. Socorrido de helicóptero, passa por cirurgia em hospital do ABC.
Ataque em via movimentada e fuga em segundos
Imagens de câmeras de segurança mostram a aproximação da dupla pela faixa da direita, em uma das principais avenidas comerciais de São Caetano. O vídeo registra o momento em que os suspeitos emparelham com a moto de Ronickson, efetuam vários tiros e aceleram em seguida. O tenente cai imediatamente no asfalto.
Equipes do Samu prestam os primeiros socorros ainda na via. Em seguida, o helicóptero Águia, da Polícia Militar, pousa na região para o resgate aeromédico. Ronickson é levado inconsciente ao Hospital Mário Covas, em Santo André, onde é submetido a cirurgia neurológica. Até o fim da tarde, o estado de saúde não é divulgado oficialmente.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo afirma que o caso é tratado como tentativa de homicídio. “A Polícia Militar informa que, na manhã deste sábado (27), equipes foram acionadas para atender uma ocorrência de disparos de arma de fogo na Avenida Goiás, em São Caetano do Sul. […] A ocorrência foi encaminhada à Delegacia Sede de São Caetano do Sul e segue em andamento, com diligências para identificar e localizar os autores do crime”, diz o texto.
Investigação corre para definir motivação do crime
Policiais civis e militares coletam imagens de câmeras de comércios e condomínios ao longo da Avenida Goiás para rastrear a rota de fuga dos atiradores. A polícia trabalha, neste primeiro momento, com duas linhas principais: tentativa de assalto que termina em reação e execução dirigida.
Testemunhas relatam que o tenente saía de uma academia da região pouco antes de ser atacado. A corporação apura se ele é seguido desde a saída do estabelecimento ou se o crime é decidido ali, no semáforo, a partir de uma abordagem de oportunidade. As imagens não mostram qualquer anúncio de assalto antes dos disparos.
Investigadores analisam ainda se o histórico profissional de Ronickson na Rota e na Força Tática pode ter relação com o atentado. Casos recentes de ataques a policiais fora de serviço, na Grande São Paulo, reforçam a hipótese de retaliação de criminosos a ações da corporação. Até o momento, porém, não há confirmação sobre a motivação.
Da Marinha à Rota, trajetória em segurança pública
Ronickson Pimentel nasce e cresce na mesma região onde a irmã, Eloá, é sequestrada e morta em 2008. Antes de ingressar na Polícia Militar, serve como fuzileiro naval na Marinha do Brasil entre 2006 e 2009. No mesmo ano em que deixa a Força Naval, entra na PM como soldado.
Em 2015, conclui a Academia de Polícia Militar do Barro Branco e passa ao quadro de oficiais. Ao longo da carreira, atua durante sete anos em patrulhamento de Força Tática, braço da PM voltado ao policiamento ostensivo em áreas de maior criminalidade.
Em 2019, chega à Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, a Rota, batalhão de elite da corporação. Colegas o descrevem como um oficial experiente em situações de alto risco. A PM acompanha de perto a recuperação do tenente e discute internamente a necessidade de reforçar protocolos de segurança para policiais à paisana.
Caso lembra tragédia de Eloá e reacende feridas
O ataque a Ronickson traz de volta à superfície um dos episódios mais traumáticos da crônica policial recente. Sua irmã, Eloá Cristina Pimentel, então com 15 anos, é mantida em cárcere privado pelo ex-namorado Lindemberg Alves, de 22 anos, em outubro de 2008, em Santo André.
O sequestro dura cerca de 100 horas, sob cobertura ao vivo de emissoras de TV, com negociações transmitidas em tempo real. A invasão do apartamento, ao fim, termina com Eloá morta e a amiga dela, Nayara, ferida. A condução da operação pela polícia e o comportamento da imprensa viram objeto de críticas e de debates que atravessam os anos seguintes.
No julgamento, já como policial militar, Ronickson depõe por cerca de uma hora diante do Tribunal do Júri em Santo André. Ele encara o ex-namorado da irmã e o descreve em termos duros. “Era um monstro”, afirma. Em outro trecho, fala da personalidade explosiva do réu: “Ele era agressivo, sempre arrumava brigas por futebol”.
A conexão familiar com um caso que volta à pauta com documentários recentes e produções de streaming faz a tentativa de homicídio contra o tenente repercutir além do noticiário policial. Termos de busca como “caso Eloá”, “quem matou Eloá Pimentel” e “Lindemberg Eloá” voltam a ser associados ao sobrenome Pimentel nos mecanismos de pesquisa e nas redes sociais.
Insegurança de policiais fora de serviço e impacto no ABC
O ataque em plena luz do dia, em uma avenida movimentada, expõe a vulnerabilidade de policiais fora de serviço na Grande São Paulo. A cena de um tenente da Rota alvejado em um semáforo alimenta a percepção de que a farda, mesmo ausente, acompanha o agente.
Entidades de classe afirmam que a violência contra policiais extrapola o risco inerente à função e cobram estratégias específicas de proteção a agentes identificados por criminosos. Entre as medidas em debate estão orientações sobre rotinas pessoais, deslocamentos em veículos particulares e cuidados após operações de grande repercussão.
Moradores de São Caetano do Sul relatam apreensão diante de um atentado em uma das principais artérias da cidade, tradicionalmente associada a índices menores de violência em comparação com municípios vizinhos do ABC. Comerciantes da Avenida Goiás relatam queda no movimento logo após o crime e temem novos episódios.
Para o setor de segurança pública, a prioridade imediata é prender os autores e esclarecer o motivo do ataque. A rapidez na solução do caso tende a influenciar a confiança da população nas instituições e o clima entre policiais, especialmente os que atuam em unidades de elite.
Pressão por respostas e próximos passos
A Delegacia Sede de São Caetano do Sul centraliza a investigação, com apoio de unidades especializadas. Policiais cruzam imagens de diferentes pontos da cidade, checam rotas de fuga possíveis e buscam identificar a placa da moto usada pelos atiradores. A projeção é de que os próximos dias sejam decisivos para avançar sobre a autoria.
A Secretaria da Segurança Pública deve ser cobrada por resultados rápidos, não só pelo envolvimento de um oficial da Rota, mas pelo simbolismo de atingir novamente a família de Eloá. A resolução ou não do caso tende a repercutir em debates sobre protocolos de proteção a policiais, políticas de enfrentamento ao crime organizado e a própria sensação de segurança no ABC paulista.
Enquanto a investigação corre e o tenente permanece em cirurgia, o sobrenome Pimentel volta ao noticiário em circunstâncias trágicas. O desfecho da recuperação de Ronickson e a identificação dos responsáveis definem os próximos capítulos de uma história que, quase duas décadas após a morte de Eloá, continua a testar os limites das instituições e da memória coletiva.
Como está o Lindemberg agora?
Lindemberg Alves é condenado pelo sequestro e assassinato de Eloá e cumpre pena em regime fechado. A situação atual dele depende de decisões recentes da Justiça, não detalhadas neste caso.
O que aconteceu com Nayara, amiga de Eloá?
Nayara é baleada durante o desfecho do sequestro, sobrevive e presta depoimentos em investigações e no julgamento. Sua vida atual é preservada e não é foco das autoridades neste novo caso.
Como está a mãe de Eloá Pimentel hoje?
A mãe de Eloá mantém vida reservada desde o fim do julgamento de Lindemberg. Ela não se manifesta publicamente neste momento sobre o ataque ao filho Ronickson.
Quantos dias Lindenberg ficou com Eloá?
O sequestro de Eloá dura cerca de 100 horas, pouco mais de quatro dias, entre o início do cárcere e a invasão do apartamento pela polícia em 2008.