Ipês começam a florescer em Belo Horizonte; veja quando cada cor aparece

Com cerca de 24 mil árvores espalhadas pela capital, floração transforma ruas, avenidas e parques em cartões-postais naturais e marca um dos períodos mais esperados do ano pelos moradores.
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

O inverno em Belo Horizonte é conhecido pelas manhãs frias, pelo tempo seco e pelo céu intensamente azul. Mas existe outro fenômeno que também anuncia a chegada desta época do ano e muda completamente a paisagem da capital mineira. Aos poucos, os ipês começam a florescer, levando cores vibrantes para ruas, avenidas, praças e parques. O espetáculo, que se repete todos os anos, atrai olhares, rende milhares de fotografias e faz muita gente desacelerar por alguns instantes para contemplar uma das mais belas manifestações da natureza em meio ao cenário urbano.

A temporada de floração já começou e deve seguir até outubro, acompanhando a transição entre o inverno e a primavera. Ao longo dos próximos meses, diferentes espécies entram em floração em momentos distintos, garantindo que a cidade permaneça colorida durante boa parte da estação seca.

Capital reúne milhares de ipês espalhados por todas as regiões

Belo Horizonte possui aproximadamente 24 mil ipês distribuídos pelas nove regiões da capital. As árvores fazem parte da arborização urbana da cidade e estão presentes em avenidas movimentadas, bairros residenciais, praças e parques. Além da beleza, a espécie desempenha um papel importante para o equilíbrio ambiental, contribuindo para o conforto térmico, oferecendo abrigo para aves e insetos e ajudando na preservação da biodiversidade.

A presença dos ipês também se tornou uma marca registrada da capital mineira. Todos os anos, moradores aguardam o início da floração para registrar imagens das árvores, compartilhar fotos nas redes sociais e até mesmo visitar locais conhecidos pela grande concentração da espécie.

Quando cada ipê floresce?

Embora muitas pessoas tenham a impressão de que todos os ipês florescem ao mesmo tempo, cada espécie possui um calendário próprio. Essa característica faz com que o espetáculo das flores dure vários meses, colorindo a cidade de forma gradual. Confira o calendário aproximado:

• Junho e julho: começam a florescer os ipês-roxos, que dão início à temporada.

• Julho e agosto: é a vez dos ipês-rosas, que colorem ruas, praças e avenidas da capital.

• Agosto e setembro: os ipês-amarelos entram em cena e protagonizam uma das fases mais marcantes da floração.

• Setembro e outubro: encerrando o ciclo, os ipês-brancos e verdes florescem e anunciam a chegada da primavera, fechando o período mais colorido do ano em Belo Horizonte

Ipê-roxo na Praça da Liberdade em Belo Horizonte | Foto: Pedro Corsini/NC News

Por que os ipês florescem justamente no inverno?

Quem observa as árvores completamente sem folhas pode até imaginar que elas estão sofrendo com o tempo seco. Mas, na verdade, esse é um mecanismo natural de sobrevivência. A queda das folhas reduz a perda de água e permite que a árvore concentre energia na floração, garantindo a reprodução da espécie. Segundo a bióloga Fernanda Raggi, a mudança no clima funciona como um sinal para que esse processo tenha início.

“Com a chegada do inverno, os ipês percebem a queda da temperatura e da umidade do ar. Esse é o sinal de que chegou a hora de perder as folhas. Ao reduzir a fotossíntese, a árvore economiza energia e direciona praticamente todos os seus recursos para a produção das flores. É uma estratégia natural de sobrevivência e reprodução da espécie.”, explica Fernanda

Depois de um início de ano marcado por mudanças nas condições climáticas, especialistas observaram uma floração mais sincronizada em Belo Horizonte e em diversas regiões do país. Para a bióloga, a sequência de dias frios e secos ajudou a criar as condições ideais para que os ipês florescessem de forma mais regular.

“Neste ano, Belo Horizonte e outras regiões do Brasil registraram uma floração mais uniforme dos ipês. Depois dos efeitos do El Niño, tivemos uma queda mais acentuada das temperaturas e um período seco mais bem definido. Essa combinação de frio e baixa umidade favoreceu o ciclo natural das árvores e contribuiu para uma floração mais organizada.”, conta.

Embora as chuvas tenham persistido no início do inverno, elas não foram suficientes para interromper o ciclo natural dos ipês. Segundo a bióloga, a presença prolongada de água e a luminosidade fizeram com que as árvores demorassem mais para perceber a mudança de estação, retardando a queda das folhas e, consequentemente, o início da floração. Ainda assim, com a chegada do período mais seco em junho, os ipês retomaram seu calendário biológico e começaram a florescer. Em algumas árvores, porém, o espetáculo foi menos intenso, já que parte dos botões florais acabou sendo derrubada pelas chuvas fortes e pelas rajadas de vento registradas nas semanas anteriores.

Ipê-roxo é a primeira espécie a florescer | Foto: Pedro Corsini / NC News

O ipê “lê” o clima durante todo o ano
A floração dos ipês não depende apenas das condições climáticas de poucas semanas. O processo começa muito antes e acompanha as mudanças ambientais ao longo de todo o ano. Esse comportamento também pode trazer um sinal positivo sobre a regularidade das estações.

“O ipê responde às condições climáticas durante todo o ano. Ele não decide florescer apenas quando chega o inverno. A árvore vai registrando as mudanças de temperatura, chuva e luminosidade ao longo dos meses e ajusta o seu ciclo biológico. Chamamos isso de fenologia, que é o estudo das fases de desenvolvimento da planta, como a floração e a frutificação. Neste ano, percebemos uma regularização dessas etapas, o que indica que, apesar dos extremos climáticos, as estações voltaram a apresentar características mais bem definidas.”, explica Fernanda.

Muito além da beleza

Além de transformar Belo Horizonte em um grande jardim a céu aberto, os ipês também reforçam a importância da arborização urbana. Árvores ajudam a reduzir a temperatura das cidades, melhoram a qualidade do ar, contribuem para a infiltração da água da chuva e oferecem alimento e abrigo para diversas espécies da fauna.

Por isso, especialistas destacam que preservar as áreas verdes e ampliar o plantio de árvores é fundamental para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas e tornar os centros urbanos mais sustentáveis.

Enquanto a primavera não chega, os ipês seguem cumprindo a missão de levar mais cor aos dias secos do inverno e lembrar que, mesmo em meio ao concreto, a natureza continua encontrando espaço para surpreender.

Carregar Comentários