Damares ameaça deixar campanha de Flávio após ataques

Senadora Damares reage a aliados bolsonaristas e expõe crise na campanha de Flávio Bolsonaro entre eleitoras.
Redação NC News
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A senadora Damares Alves ameaça abandonar a colaboração com a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro e decide não ir a um encontro com lideranças femininas organizado pelo próprio senador. A reação vem após uma onda de ataques de aliados bolsonaristas nas redes sociais e da repercussão do vídeo em que Michelle Bolsonaro critica publicamente o enteado.

Crise em público e silêncio incômodo

A tensão interna atinge o coração da estratégia de Flávio: conquistar parte do eleitorado feminino em 2026, um ponto frágil para o pré-candidato. Damares e Michelle, hoje as vozes femininas mais fortes ligadas ao bolsonarismo, se afastam justamente da agenda pensada para esse público.

A senadora vinha sendo cortejada para ajudar a escrever o programa de direitos humanos e assistência social da campanha, convite feito pela economista Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e cotada para vice na chapa. A ideia é lançar em julho um pacote de propostas sobre combate à violência doméstica, empreendedorismo feminino e economia do cuidado.

Em vez de vitrine positiva, o núcleo feminino do projeto presidencial se transforma em foco de crise. Damares se irrita com o bombardeio nas redes feito por nomes próximos ao bolsonarismo, como o jornalista Paulo Figueiredo, aliado de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, e reclama do silêncio inicial de Flávio diante dos ataques.

O vídeo de Michelle e o racha familiar

A disputa ganha outra dimensão quando Michelle Bolsonaro publica, na semana anterior, um vídeo de 27 minutos com críticas duras ao senador. Ela questiona acordos regionais do PL, reclama de ter sido preterida em palanques estaduais e escancara divergências com o enteado.

A gravação aprofunda um mal-estar que vinha se acumulando. No dia 30 de junho, Michelle comunica a Valdemar Costa Neto, presidente do PL, que deixa a presidência do PL Mulher. A decisão sai após uma reunião de quase duas horas com o cacique partidário.

Michelle também demonstra desânimo com a possibilidade de disputar o Senado pelo Distrito Federal. Em Brasília, se reúne com a governadora Celina Leão e com Damares Alves, hoje suas principais conselheiras políticas. O encontro sinaliza um eixo próprio de poder feminino dentro do bolsonarismo, paralelo à operação de campanha desenhada por Flávio.

Ao ser avisada sobre o evento com lideranças femininas em Brasília, Damares reage em tom seco. “Não vou não. Acho que a Michelle também”, diz a aliados, marcando o afastamento das duas do palanque do presidenciável naquele momento.

Fogo amigo e disputa por autoridade

A faísca que acende a crise aberta vem de Paulo Figueiredo, que cobra publicamente Damares nas redes por sua indecisão sobre ir ao encontro. O jornalista, que se apresenta como aliado de Eduardo Bolsonaro, dispara que “as mulheres votam muito mal” e sugere que a senadora aderiu à “militância feminista” e a projetos contrários à direita.

Damares reage defendendo sua trajetória conservadora e convida Figueiredo a visitar seu gabinete em Brasília. Também rebate a insinuação de que teria abandonado a pauta bolsonarista contra o Supremo e contra a esquerda. Mas a escalada de ataques, somada às ofensas de outros influenciadores bolsonaristas, a leva a rever sua disposição de ajudar na campanha.

Em defesa de Michelle, a senadora descreve a ex-primeira-dama como “uma mulher que não fica atrás de um computador, mas encara as lutas e demandas em pé, olhando nos olhos dos adversários”. A frase mira diretamente os críticos que, de fora do país, atacam o grupo feminino do PL.

Pressionado, Flávio decide marcar posição. Durante a reunião com mulheres em Brasília, ele se descola de Figueiredo. “Repudio veementemente a fala de Figueiredo. Ele não participa da campanha e me senti ofendido”, afirma o senador, ao ser questionado sobre o aliado de Eduardo.

Campanha tenta conter danos entre mulheres

O evento desta quarta-feira em Brasília, esvaziado pela ausência de Michelle e Damares, tinha a missão de iniciar a virada de imagem de Flávio entre eleitoras. A presença de Priscilla Costa, vereadora e vice do PL Mulher, reduz o constrangimento, mas não resolve a rachadura.

Nos bastidores, a avaliação é que a ameaça de Damares de deixar de colaborar com o programa de governo enfraquece uma das poucas pontes da campanha com segmentos evangélicos e movimentos ligados à assistência social. A senadora, ex-ministra de Jair Bolsonaro e figura influente em pautas de direitos humanos, seria a responsável por traduzir temas sensíveis para esse público.

A saída dela desse núcleo, somada ao afastamento de Michelle, compromete a capacidade de diálogo da campanha com eleitoras conservadoras que não se identificam com o tom mais agressivo de influenciadores bolsonaristas. Também alimenta a percepção de desorganização num momento em que o ex-presidente e a família tentam consolidar o nome de Flávio como principal aposta para 2026.

Interlocutores de Flávio insistem que o senador mantém um perfil “mais moderado” e repetem que o episódio com Michelle é “página virada”. A leitura é que a dinâmica da campanha e a necessidade de sobrevivência política tendem a forçar uma acomodação entre as partes.

PL minimiza rachadura, mas desgaste é real

Entre dirigentes do PL, o discurso oficial é o de que não há crise irreversível. O líder do partido no Senado, Carlos Portinho, tenta traduzir esse espírito de conciliação. “Quem tem família grande sabe, tudo se ajeita no final. Na hora da campanha, todos se abraçam e se ajustam”, afirma.

Na prática, porém, o cenário é mais áspero. A exposição pública de conflitos familiares e políticos abre espaço para adversários explorarem fragilidades do projeto de Flávio e questionarem sua capacidade de liderança dentro do próprio campo bolsonarista. A divisão também coloca em risco a construção de uma agenda feminina robusta a tempo de influenciar o ciclo eleitoral.

O entorno do senador aposta que a montagem do programa voltado para mulheres, ainda previsto para julho, possa funcionar como ponto de reaproximação. A presença de figuras como a governadora Celina Leão, com trânsito entre diferentes alas do PL, é vista como chave para intermediar conversas entre Michelle, Damares, Valdemar Costa Neto e o próprio Flávio.

Enquanto isso, a campanha corre para reduzir danos e impedir que a crise contamine a largada oficial da disputa presidencial. A forma como o grupo bolsonarista administra o embate entre influenciadores, parlamentares e a família pode determinar não só a adesão de Damares, mas a força do projeto de Flávio num Mundial de Seleções em que o voto feminino tende a ser ainda mais decisivo.

 


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