A atriz Glória Pires, 62, vive uma virada de vida em 2026. Duas semanas após o arquivamento de uma ação contra a pousada da qual é sócia, ela consolida a mudança para Goiânia, estreia como diretora de cinema e coloca suas mansões de veraneio no litoral para locação de temporada.
Réveillon com “arroz e galeto” vai parar na Justiça
A pousada Orla Náutica, em Barreirinhas (MA), onde Glória e o marido, o músico Orlando Morais, são sócios e representantes legais, vira alvo de um processo judicial após o Réveillon de 2023. Um casal de Brasília afirma que comprou um pacote de fim de ano atraído pela promessa de uma ceia sofisticada, com pratos à base de filé mignon e camarão.
Segundo a ação, o que chega à mesa na noite da virada é um cardápio simples, com arroz, carne comum e galeto. O contraste entre o material de divulgação e a refeição servida leva o hóspede a alegar “má prestação de serviço” e quebra de expectativa. Ele pede R$ 11 mil de indenização por danos morais e materiais.
Mensagens anexadas ao processo mostram que a tentativa de acordo começa ainda durante a viagem. Ao registrar a queixa, o cliente recebe uma resposta da administração da Orla Náutica que sugere não ser a primeira reclamação sobre a ceia.
“Esta questão já foi respondida para outra hóspede com mesmo teor de texto e reclamação. Desta forma, aguardamos posicionamento com relação às duas propostas feitas pela pousada: ou duas diárias cortesia ou estorno no valor de R$ 400,00 referente aos dois itens de menu faltantes no cardápio”, escreve o atendimento.
O turista recusa as diárias gratuitas, aceita o estorno, mas exige que seja pago em dobro, alegando que o prejuízo atinge duas pessoas. “Na minha reserva são duas pessoas, valor de R$ 800,00 reais. Se for dessa forma, podem então fazer o Pix que aceitamos”, responde o hóspede. A gerência mantém a oferta original, defende que apenas dois pratos deixam de ser servidos e o conflito migra para o Judiciário.
O caso ganha contornos peculiares quando oficiais de Justiça tentam intimar o casal de artistas na residência oficial, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. Há pelo menos três tentativas de entrega das notificações em março, todas sem sucesso. Os avisos de recebimento retornam com a informação de ausência dos destinatários.
Cerca de duas semanas antes da publicação desta reportagem, o processo tem um desfecho inesperado. Na audiência virtual de conciliação, o autor da ação não aparece. O magistrado registra desídia, extingue o processo sem julgamento do mérito e manda arquivar o caso, livrando a pousada e seus sócios de condenação.
Mesmo sem sentença contrária, o episódio expõe a sensibilidade de um segmento que trabalha com experiências de alto valor simbólico e financeiro. Em festas de fim de ano, qualquer frustração vira combustível para disputa judicial e desgaste de imagem.
Glória desacelera, muda de cidade e assume a direção
Enquanto a Orla Náutica tenta contornar o ruído com hóspedes, Glória redesenha a própria rotina. Após se despedir da vilã Irene, na novela “Terra e Paixão”, há cerca de dois anos, ela se afasta do ritmo industrial das tramas diárias. Decide, nas palavras dela, “desacelerar” e reorganizar prioridades.
A atriz, que começa a trabalhar ainda menina e acumula mais de cinco décadas de carreira, estreia atrás das câmeras como diretora do longa “Sexa”, centrado no desejo e no amadurecimento feminino. O movimento resume o momento em que ela passa a escolher projetos com outro grau de autonomia.
“Dirigir Sexa foi um mergulho na minha experiência e tudo o que pude absorver nessas cinco décadas. Nós, atores, estamos a serviço da história contada por quem dirige. São funções completamente distintas. A diretora entra quando o roteiro ainda está sendo estruturado e só sai quando o filme estreia. Quem conta a história é a diretora”, afirma Glória.
Ela relata que o marco dos 60 anos lhe dá licença para rever papéis e expectativas. “Chegar aos 60 me trouxe o entendimento de que não havia mais porque me moldar para caber nas expectativas alheias. Foi isso que gritou em mim, quando li a premissa de Sexa — falar para mulheres maduras como eu, que desejo, alegria e potência não precisam morrer com o tempo”, diz. Para ela, o filme é também um exercício de “metalinguagem” sobre a própria trajetória.
A escolha de trocar o eixo Rio–São Paulo por Goiânia, cidade onde já morou, fecha o pacote dessa transição. “Estou de mudança, de volta para Goiânia, onde já morei. Estou em um processo de reconexão com o que tem importância para mim. Estou muito entusiasmada para 2026”, afirma.
Nesse reposicionamento, Glória mantém a atuação, prepara o retorno aos cinemas em “Se eu fosse você 3”, novamente ao lado de Tony Ramos e contracenando com a filha Cleo, mas passa a concentrar a energia criativa em projetos próprios, fora da engrenagem diária das novelas.
Mansões de luxo entram no circuito do aluguel de temporada
A mudança definitiva para Goiânia, no fim de 2025, também reorganiza o mapa afetivo e financeiro da família. As casas de praia, antes usadas prioritariamente pelo clã Pires–Morais, entram com força no mercado de aluguel de temporada de alto padrão.
Em Angra dos Reis (RJ), a mansão à beira-mar, projetada pelo arquiteto Rodrigo Fagá, oferece sete suítes com cama king, ar-condicionado, piscina, sauna e cozinha gourmet. A diária média gira em torno de R$ 6 mil, enquanto o pacote de Réveillon alcança R$ 120 mil por cinco noites, voltado para grupos que buscam privacidade e estrutura de resort.
Em São Miguel dos Milagres (AL), um dos destinos mais disputados do litoral nordestino, a propriedade pé na areia segue outra estética, descrita como rústico-chique. São dez suítes, piscina em frente ao mar e um rooftop voltado para o pôr do sol. A diária chega a R$ 16 mil, com datas de fim de ano já esgotadas.
Ao abrir essas casas ao público, o casal transforma o patrimônio em fonte regular de renda e participa de um nicho em expansão: o turismo de luxo personalizado, calcado em imóveis assinados, serviços sob medida e exposição indireta nas redes sociais de quem se hospeda.
O movimento tem efeito em cadeia. Imobiliárias especializadas veem aquecimento na busca por propriedades com “história” e associação a nomes conhecidos. Para os donos, o desafio é equilibrar retorno financeiro com preservação da intimidade, em endereços que guardam memórias de família.
Entre a vitrine e o bastidor
A sequência de decisões reforça uma imagem de controle sobre a própria narrativa. Ao mesmo tempo em que aparece nos créditos como diretora e se afasta do vaivém diário dos estúdios, Glória lida com os riscos de empreender no turismo, setor em que uma ceia de Ano-Novo mal avaliada basta para arranhar uma marca.
A ação arquivada em Barreirinhas não deixa condenações, mas funciona como alerta sobre o peso de promessas em pacotes festivos e a necessidade de detalhar o que, exatamente, se oferece ao consumidor. Em tempos em que cada reclamação pode ganhar repercussão nacional em poucas horas, a fronteira entre o que é uma “quebra de expectativa” e o que se transforma em litígio fica cada vez mais tênue.
Nos próximos meses, a atenção deve se dividir entre o desempenho de “Sexa”, a montagem de “Se eu fosse você 3” e a consolidação das mansões no disputado calendário de reservas de fim de ano. A maneira como Glória equilibra o papel de diretora, anfitriã de luxo e empresária da própria imagem ajudará a desenhar o modelo de envelhecer sob os holofotes para uma geração de artistas veteranos que começam, agora, a revisar seus roteiros.
Qual a polêmica envolvendo Glória Pires?
A polêmica recente envolve a pousada Orla Náutica, em Barreirinhas (MA), da qual ela e Orlando Morais são sócios. Um casal processou o hotel após a ceia de Réveillon de 2023 oferecer um cardápio considerado simples, diferente do banquete sofisticado anunciado, mas o processo foi arquivado porque o autor faltou à audiência de conciliação.