Disputa por Ozivy expõe corrida da semaglutida no Brasil

Conflito judicial destaca o avanço da semaglutida como tratamento prioritário para obesidade no Brasil.
Redação NC News
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A dinamarquesa Novo Nordisk vai à Justiça Federal do Rio para anular o registro de Ozivy, marca da brasileira EMS, enquanto a semaglutida ganha status de tratamento principal contra obesidade. A ação é protocolada em 17 de junho de 2026, mesmo dia em que médicos dos Estados Unidos passam a recomendar o remédio como primeira opção medicamentosa para emagrecimento.

Semaglutida no centro da disputa

O embate judicial acontece no momento em que o mercado brasileiro de medicamentos para obesidade e diabetes tipo 2 se reorganiza. A perda da exclusividade da patente da semaglutida abre espaço para concorrentes nacionais, reduz preços e pressiona a antiga detentora do monopólio.

No processo que tramita na 31ª Vara Federal do Rio, a Novo Nordisk acusa a EMS de se aproveitar da fama de Ozempic e Wegovy. Segundo a petição, “a escolha do termo ‘Ozivy’ representa um aproveitamento da reputação das marcas da companhia: Ozempic e Wegovy”. A empresa afirma temer confusão entre os produtos nas farmácias e nos consultórios.

Em nota enviada ao site Poder360, a farmacêutica dinamarquesa afirma que “convive com mais de 70 produtos concorrentes em mais de 20 países e acredita que a concorrência é benéfica para a sociedade, desde que ocorra de forma ética”. Diz ainda que “adotou medidas legais no Brasil para proteger seus direitos sobre as marcas” e “evitar situações que possam gerar confusão ou desinformação”.

A EMS rejeita a acusação. Declara que “o nome do produto é original e resultado de um desenvolvimento independente de branding” e promete manter a estratégia de ampliar o acesso “em um ambiente de livre concorrência”.

Ozivy chega ao mercado com preço mais baixo

O Ozivy começa a ser vendido no Brasil na semana de 18 de junho de 2026. É o primeiro produto com semaglutida sintética autorizado pela Anvisa para tratar diabetes tipo 2 fabricado por um laboratório nacional. O tratamento de três meses custa R$ 863,23, o que equivale a cerca de R$ 287 por mês.

O valor mira um público que até agora convive com preços altos dos medicamentos de referência. A queda da proteção patentária da semaglutida cria espaço para genéricos e similares, e a chegada do Ozivy é o primeiro movimento visível dessa nova fase. O resultado é uma combinação rara: avanço científico, pressão competitiva e briga por marca no mesmo palco.

Para o paciente com diabetes tipo 2 e obesidade, o fator preço pesa tanto quanto a eficácia. Medicamentos de uso crônico exigem tratamento prolongado, e reduções mensais de algumas centenas de reais podem definir quem consegue seguir a prescrição.

Diretriz dos EUA reforça uso para obesidade

No dia em que a ação judicial é protocolada, o American College of Physicians (ACP), uma das principais entidades médicas dos Estados Unidos, publica nova diretriz na revista Annals of Internal Medicine. O documento recomenda que semaglutida e tirzepatida sejam a primeira opção medicamentosa para o tratamento da obesidade em adultos.

Segundo o ACP, “a escolha desses medicamentos como primeira linha de tratamento foi baseada em evidências científicas que mostram maior eficácia na redução do peso quando comparados a outras opções disponíveis”. Os remédios imitam hormônios naturais que regulam fome e saciedade, o que ajuda a diminuir a ingestão de alimentos sem recorrer a fórmulas de risco.

A diretriz ressalta que a perda de peso relevante costuma superar 5% do peso corporal, marca considerada clinicamente importante para reduzir risco cardiovascular e complicações metabólicas. O uso, porém, deve ser sempre combinado com alimentação equilibrada, atividade física e acompanhamento profissional.

No Brasil, sociedades médicas como Abeso, SBD, SBEM, SBC e ABS já indicam, desde 2025, a semaglutida e a tirzepatida como pilares do tratamento medicamentoso da obesidade. A sinalização do ACP, vista como referência internacional, tende a consolidar a adoção desses protocolos também por médicos da rede privada e por sistemas de saúde suplementar.

Novas doses, mais emagrecimento

Enquanto discute marcas na Justiça, a Novo Nordisk amplia o arsenal clínico da semaglutida. Em junho, a Anvisa aprova uma nova dosagem injetável mais alta, capaz de aumentar a taxa de emagrecimento em pessoas com obesidade.

Os dados vêm do estudo STEP UP, que acompanha pacientes obesos tratados com a nova dose. Segundo os resultados, cerca de um em cada três participantes perde 25% ou mais do peso corporal. A perda média fica em 21%, patamar antes só alcançado com cirurgia bariátrica em muitos casos.

Para a vice-presidente da área médica da Novo Nordisk, Priscilla Mattar, o diferencial está em onde essa perda acontece. “A perda de peso com tratamentos à base de semaglutida ocorre principalmente devido à redução de gordura. O medicamento age nos lugares certos: estudos indicam que cerca de 84% da perda de peso provém do tecido adiposo”, afirma.

Ela destaca ainda que “pacientes tratados com semaglutida apresentaram reduções significativas da gordura visceral e do acúmulo de gordura no fígado, rins e músculo esquelético, além de redução média de 15,8 cm na circunferência abdominal”. Segundo Priscilla, essa mudança de composição corporal tem efeito direto na saúde cardíaca e metabólica.

Outra preocupação dos especialistas é manter a força física, muitas vezes sacrificada em dietas restritivas. “A função muscular é preservada em pessoas com obesidade tratadas com semaglutida, mantendo a força e apoiando a mobilidade, o que tem impacto direto na qualidade de vida”, diz a médica.

A farmacêutica já pediu à Anvisa a aprovação da versão em comprimidos, alternativa à aplicação injetável. A formulação oral está liberada em países como os Estados Unidos e é vista como chave para ampliar a adesão de pessoas que evitam injeções semanais.

Quem ganha e quem perde com a judicialização

A disputa por Ozivy expõe as fricções de um mercado em rápida expansão. Se a Novo Nordisk vencer e derrubar o registro da marca, a EMS terá de rebatizar o produto, rever materiais e possivelmente atrasar estratégias de marketing e distribuição. O risco é reduzir a pressão competitiva justamente quando o valor da semaglutida começa a cair.

Se a EMS mantiver o nome, a presença de um concorrente nacional com preço mais baixo tende a ajudar na democratização do tratamento, embora ainda distante da realidade da maioria dos brasileiros. Planos de saúde e o Sistema Único de Saúde acompanham o movimento, avaliando custo-benefício em um cenário de orçamentos limitados.

A médio prazo, o efeito prático recai sobre quem convive com obesidade e diabetes tipo 2. A combinação de novas diretrizes clínicas, maior oferta de doses e possíveis versões em comprimidos indica um ciclo de inovação raro para doenças crônicas tão prevalentes. A judicialização, porém, antecipa que a disputa por espaço e marca será tão intensa quanto a corrida científica.

O desfecho da ação na Justiça Federal do Rio deve orientar a estratégia de outros laboratórios interessados em entrar no segmento. A Anvisa, por sua vez, continua a analisar novos pedidos de registro e ampliação de uso, em meio à pressão por acesso mais amplo e preços sustentáveis. A próxima fase dessa história será definida menos nos tribunais internacionais e mais nas gôndolas das farmácias brasileiras.

Qual é o valor da semaglutida?

O Ozivy, com semaglutida sintética, chega ao mercado brasileiro por R$ 863,23 para um tratamento de três meses, o equivalente a cerca de R$ 287 por mês.

Quantos kg emagrece com semaglutida?

No estudo STEP UP, pacientes obesos tratados com doses mais altas de semaglutida perderam em média 21% do peso corporal; um em cada três atingiu 25% ou mais.

O que a semaglutida faz no corpo?

A semaglutida imita hormônios que controlam fome e saciedade, reduzindo a ingestão de alimentos. Estudos indicam que 84% da perda de peso vem da gordura, com preservação muscular.

Como tomar o semaglutida para emagrecer?

O uso deve ser prescrito por médico, com dose e forma de aplicação individualizadas. A recomendação é sempre combinar o remédio com dieta equilibrada e atividade física regular.

 

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