Contrato de R$ 131 mi liga mulher de Moraes ao Banco Master

Contrato milionário envolvendo Viviane Barci de Moraes está sob investigação por possível vazamento de dados sigilosos.
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

A advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do Supremo Alexandre de Moraes, envia em 17 de janeiro de 2024 a minuta de um contrato de R$ 131,2 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro. O documento, negociado via WhatsApp, prevê honorários mensais de R$ 3,6 milhões por três anos para atender o Banco Master em frentes regulatórias e políticas.

WhatsApp, cifras milionárias e a Operação Compliance Zero

A troca de mensagens, revelada a partir da apreensão do celular de Vorcaro, se torna peça central de uma investigação da Polícia Federal sobre vazamento de informações sigilosas envolvendo a família do ministro. O caso tramita no Supremo Tribunal Federal desde dezembro de 2025 e aprofunda a tensão em torno das relações entre o Judiciário e o setor financeiro.

Na manhã de 17 de janeiro de 2024, às 10h09, Viviane escreve ao fundador do Master: “Bom dia! Segue a minuta do contrato. Abraço”. Cinco dias depois, em 22 de janeiro, às 11h09, Vorcaro responde: “Oi, tudo bem? Como podemos proceder na assinatura? Prefere eletronicamente ou mando as vias físicas assinadas?”. A conversa, simples na forma, carrega um contrato cujo valor total chega a R$ 131.275.071,72 até 2027.

A PF acessa esse diálogo em novembro de 2025, quando apreende o telefone de Vorcaro na 1ª fase da Operação Compliance Zero, que mira fraudes no Banco Master. A partir dali, os investigadores tentam entender se o fluxo de recursos entre o banco e o escritório da mulher de um ministro do STF cruza a linha entre prestação de serviço e conflito de interesses.

O contrato, os serviços prestados e os números da Receita

Pelos termos negociados, o escritório Barci de Moraes Associados passa a representar o Master perante Banco Central, Receita Federal e Congresso Nacional, além de atuar em temas de regulação bancária, crédito, direito trabalhista e previdenciário. A Receita registra pagamentos de R$ 80,2 milhões ao escritório entre 2024 e 2025, até a liquidação extrajudicial do Master em novembro de 2025, quando o fluxo é interrompido.

Em nota, o escritório informa que realiza 94 reuniões de trabalho com o banco, sendo 79 presenciais na sede do Master, 13 com a presidência e duas por videoconferência. Também elabora 36 pareceres e opiniões legais em áreas como previdência, contratos, regulação, compliance, proteção de dados e crédito. “Em março de 2026, a consultoria ao Master se concentrou na implementação de mecanismos de compliance e na revisão do código de ética e conduta da instituição”, afirma Viviane em manifestação pública.

A cunhada do ministro, a advogada Ana Claudia Consani de Moraes, casada com o irmão de Alexandre, é apresentada como autora do Código de Ética do banco e atua como consultora do escritório de Viviane. O documento, de 34 páginas, leva a data de março de 2025, período em que o Master já remunera o Barci de Moraes Associados com os valores milionários do contrato.

Questionado sobre a atuação na venda do Master ao Banco de Brasília (BRB), o gabinete de Alexandre de Moraes reage com uma negativa categórica ainda em dezembro de 2025: “O gabinete de Alexandre de Moraes declarou que o escritório de Viviane nunca atuou na operação de venda do Banco Master para o BRB”. O escritório de advocacia adota linha semelhante e evita detalhes: “O escritório Barci de Moraes Associados não comenta tratativas envolvendo clientes”. Em outra nota, crava o fim do vínculo: “O contrato foi encerrado em novembro de 2025, com a liquidação extrajudicial do banco”.

PF mira vazamento de dados e pressiona entorno do ministro

A investigação que cerca o contrato não se limita à contabilidade. O foco da PF está em supostos vazamentos de dados sigilosos sobre a família de Alexandre de Moraes, conectados às operações e disputas em torno do Banco Master. As conversas recuperadas do celular de Vorcaro alimentam a suspeita de uso indevido de informações protegidas por sigilo fiscal e bancário.

A Operação Compliance Zero nasce em novembro de 2025, autorizada pela 10ª Vara Federal de Brasília, com prisões provisórias de executivos do Master. Na sequência, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região converte a custódia em prisão domiciliar com tornozeleira. Em dezembro, o inquérito chega ao STF, sob relatoria do ministro Dias Toffoli, que autoriza uma 2ª fase em janeiro de 2026. A apuração alcança também o perito João Cláudio Nabas, alvo de busca e apreensão em 19 de maio de 2026.

O caminho até o Supremo expõe o caso a uma arena política mais ampla. O envolvimento de familiares de um ministro em contratos milionários com um banco sob suspeita alimenta discursos sobre favorecimento e tráfico de influência, ainda que não haja, até aqui, imputação formal de crime a Viviane ou a Alexandre de Moraes. O processo corre sob sigilo, o que limita o acesso a peças do inquérito, mas não reduz o desgaste público.

Conflitos de interesse, impacto institucional e o que está em jogo

O volume do contrato chama a atenção de advogados e reguladores. Honorários de R$ 3,6 milhões por mês, por três anos, com potencial de ultrapassar R$ 131 milhões, fogem do padrão mesmo para bancas especializadas em direito bancário e compliance. A Receita confirma que R$ 80,2 milhões saem dos cofres do Master para o escritório em menos de dois anos, em um período em que o banco enfrenta problemas que terminam na liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em novembro de 2025.

Especialistas em governança ouvidos em off veem risco de conflito de interesse sempre que parentes próximos de magistrados de cortes superiores atuam para empresas altamente reguladas. Nesse tipo de relação, a linha entre serviço técnico e expectativa de influência passa a ser observada com lupa. No caso do Master, o fato de a consultoria envolver diretamente compliance, revisão de código de ética e interlocução com órgãos de controle torna o escrutínio ainda maior.

O impacto ultrapassa o contencioso do banco. O STF, já marcado por decisões em temas sensíveis e por embates com grupos políticos, se vê novamente no centro de uma controvérsia que mistura família, dinheiro e poder. A PF segue vasculhando conversas, documentos fiscais e relatórios internos do banco. Desdobramentos da Compliance Zero não estão descartados, com novas fases da operação e eventuais denúncias criminais.

Ainda não há data para conclusão do inquérito no Supremo. A depender dos achados, o caso pode forçar o tribunal a discutir regras mais rígidas de transparência para a atuação profissional de cônjuges e familiares de ministros, além de provocar revisões em códigos de conduta do próprio Judiciário. Até lá, o contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório da mulher de Alexandre de Moraes permanece como um símbolo das zonas cinzentas na fronteira entre interesse privado e função pública.

Quem é a família de Viviane Barci de Moraes?

As informações disponíveis no caso indicam que a cunhada de Alexandre de Moraes, Ana Claudia Consani de Moraes, é casada com o irmão do ministro e atua como consultora no escritório de Viviane, tendo elaborado o Código de Ética do Banco Master. Outros dados familiares não são detalhados nos documentos e apurações que embasam esta reportagem.


Carregar Comentários