Em 1º de julho, o governo de Mato Grosso lança o portal Mulher MT, sancionou uma lei que leva o debate sobre violência de gênero às escolas estaduais e vê o Judiciário emplacar sete projetos no Prêmio Innovare. No mesmo mês, a gestora AGBI investe R$ 90 milhões na compra da fazenda Rincão Alegre, em Gaúcha do Norte, para recuperar áreas degradadas e ampliar a produção de grãos.
Violência contra a mulher vira tema de aula e de política pública
O portal Mulher MT entra no ar como uma espécie de porta de entrada digital para quem enfrenta ou tenta combater a violência contra a mulher no estado. A plataforma reúne canais de denúncia, endereços e contatos da rede de atendimento, materiais educativos, indicadores e vídeos com respostas a dúvidas frequentes.
O site concentra, em um só endereço, informações que hoje se espalham por diferentes órgãos. Permite ainda registrar denúncias on-line, o que encurta o caminho entre a vítima e o sistema de proteção. A proposta, resume a chefe do Gabinete de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, Mariell Antonini, é simplificar o acesso. “A proposta é facilitar o acesso às informações tanto para vítimas quanto para profissionais, gestores públicos e pessoas interessadas em conhecer os serviços disponíveis”, afirma. O portal integra o programa Mato Grosso em Defesa das Mulheres, criado em abril para organizar e ampliar ações de prevenção e enfrentamento.
Na mesma cerimônia, o governador Otaviano Pivetta assina a lei que torna obrigatória, em toda a rede estadual, a inclusão de ações de prevenção à violência de gênero no currículo. O tema passa a ser tratado de forma interdisciplinar, da educação básica ao ensino médio, com exemplos práticos em diferentes disciplinas.
Em Matemática, professores podem trabalhar dados estatísticos sobre agressões e feminicídios. Em Língua Portuguesa, discutir linguagem respeitosa e estereótipos. Em História e Sociologia, abordar desigualdades e direitos das mulheres. Pivetta insiste na raiz do problema. “A violência contra as mulheres é um problema histórico e a educação é uma das principais ferramentas para mudar essa realidade”, diz.
A secretária de Estado de Educação, Flávia Soares, garante que a sala de aula não será pega de surpresa. “Os professores vêm sendo preparados desde o início do ano para abordar o tema em sala de aula e também para identificar possíveis casos de violência envolvendo estudantes ou familiares, oferecendo o acolhimento necessário”, afirma. Segundo ela, o novo conteúdo chega junto com formação continuada, materiais de apoio e protocolos de encaminhamento.
Campo mira recuperação de áreas degradadas e produtividade
Longe da capital e das disputas políticas, a movimentação no campo também revela mudanças na forma de produzir. Em julho, a AGBI, gestora de terras fundada pelo empresário Luciano Lewandowski, confirma a compra da fazenda Rincão Alegre, em Gaúcha do Norte, por R$ 90 milhões. O pagamento ocorre em duas parcelas: metade na assinatura do contrato e o restante após a colheita da próxima safra, corrigido pela inflação.
A propriedade soma 7,8 mil hectares, dos quais apenas 1.450 estão em uso com soja, milho e algodão. A tese da gestora combina recuperação de pastagens degradadas com aumento de produtividade nas áreas já cultivadas. A estratégia espelha um movimento mais amplo no agronegócio do Centro-Oeste: investir menos em abertura de novas fronteiras agrícolas e mais em tecnologia, manejo de solo e intensificação sustentável.
A operação tende a impactar diretamente a economia de Mato Grosso, hoje um dos principais produtores de grãos do país. A recuperação de áreas improdutivas pode gerar empregos locais, ampliar a oferta de serviços especializados em agricultura de precisão e consolidar o estado como vitrine de práticas produtivas com menor pressão sobre florestas e rios. Ao mesmo tempo, pressiona modelos mais extensivos e pouco eficientes, ainda presentes em diversas regiões do mapa mato-grossense.
Judiciário aposta em inovação, inclusão e combate à violência
Enquanto Executivo e setor privado avançam em suas agendas, o Poder Judiciário de Mato Grosso tenta provar que inovação também se faz fora dos gabinetes. Em 1º de julho, o Tribunal de Justiça divulga que sete projetos do estado estão entre os selecionados para o Prêmio Innovare 2026, uma das principais premiações jurídicas nacionais.
O TJMT Inclusivo, coordenado pela desembargadora Nilza Maria Pôssas de Carvalho, forma magistrados, servidores, educadores e profissionais de saúde em transtornos do neurodesenvolvimento, direitos das pessoas com deficiência e práticas inclusivas. Em abril deste ano, o programa reúne 2.180 participantes, sinal de demanda reprimida por informação qualificada na área.
Em Rondonópolis, a 2ª Corrida da Justiça e Cidadania, organizada pela juíza Aline Luciane Ribeiro Viana Quinto Bissoni, transforma o Poder Judiciário em parceiro da cidade em temas de saúde e solidariedade. A prova reúne magistrados, servidores e moradores, e direciona recursos arrecadados para instituições sociais locais.
Na cúpula do Tribunal, o Sistema Hannah, sob responsabilidade do juiz-auxiliar Gerardo Humberto Alves da Silva Junior, usa inteligência artificial para agilizar o exame de recursos especiais e extraordinários. A ferramenta cruza 14 critérios objetivos, organiza dados dos processos e ajuda na elaboração das decisões. O sistema ainda está em fase experimental, mas já reduz o tempo de análise, sem substituir o julgamento humano.
Em regiões de fronteira e áreas remotas, dois projetos coordenados pelo juiz José Antônio Bezerra Filho tentam encurtar a distância entre o cidadão e o Estado. O Justiça Sem Fronteiras leva serviços judiciais, atendimentos de saúde, educação, cultura e orientação jurídica a comunidades ao longo da divisa com a Bolívia. A Expedição Araguaia-Xingu percorre milhares de quilômetros para atender moradores rurais, ribeirinhos e povos indígenas, emitindo documentos, mediando conflitos e ofertando vacinação e serviços previdenciários.
Na frente ambiental, o Programa Verde Novo, idealizado pelo desembargador Rodrigo Roberto Curvo, aposta em árvores como política pública. Desde 2017, o projeto distribui mais de 250 mil mudas nativas e frutíferas para arborização urbana e recuperação de áreas degradadas, associando plantio a atividades de educação ambiental com escolas e comunidades.
No combate à violência doméstica, o projeto Homens que Cuidam, conduzido em Barra do Garças pelo juiz Marcelo Sousa Melo Bento de Resende, trabalha com rodas de conversa, oficinas e acompanhamento de agressores. O foco recai sobre masculinidades, corresponsabilidade no cuidado e prevenção de reincidência. A cidade convive com um marco simbólico: está há quase quatro anos sem registrar feminicídios, resultado atribuído a uma combinação de políticas de segurança, rede de proteção e ações educativas.
Rede de ações se cruza na vida real
As iniciativas que ganham corpo em julho de 2026 não caminham isoladas. O portal Mulher MT depende de escolas preparadas para acolher meninas e suas famílias. A nova lei curricular só se torna efetiva com uma rede de serviços acessível e coordenada. Projetos como Homens que Cuidam e Justiça Sem Fronteiras unem Justiça, políticas sociais e educação para enfrentar a violência antes que ela chegue ao boletim de ocorrência.
No campo, a aposta da AGBI em recuperar 7,8 mil hectares em Gaúcha do Norte pode dialogar com programas de arborização urbana e recuperação ambiental tocados pelo Judiciário. A mesma lógica que busca tirar áreas rurais da condição de pasto degradado inspira ações de resgate de áreas verdes em cidades mato-grossenses.
Os próximos meses dirão se o portal Mulher MT se consolida como referência para mulheres em todo o estado, se a nova lei de prevenção à violência de gênero sai do papel nas salas de aula e se a recuperação da fazenda Rincão Alegre rende o aumento de produtividade prometido. No Judiciário, a expectativa é que o desempenho no Prêmio Innovare ajude a garantir fôlego político e orçamentário para manter e ampliar os projetos.
A longo prazo, governo, Justiça e investidores privados apostam que essa combinação de educação, inovação tecnológica, justiça itinerante e agricultura sustentável pode redesenhar parte do mapa social e econômico de Mato Grosso. A pergunta que fica é se o ritmo atual será suficiente para reduzir, de forma consistente, a violência contra a mulher, as desigualdades e a pressão sobre o território em um dos estados que mais crescem no país.
Quais são os principais serviços oferecidos no novo portal para mulheres em Mato Grosso?
O portal Mulher MT reúne canais de denúncia, endereços e contatos da rede de atendimento, materiais educativos, indicadores, vídeos explicativos e acesso on-line para registrar denúncias.
Como a prevenção à violência será incluída no currículo das escolas estaduais de Mato Grosso?
A nova lei determina que a violência de gênero seja tratada de forma interdisciplinar em todas as etapas do ensino, com atividades em diferentes disciplinas e formação específica para os professores.
Quais são os projetos do Poder Judiciário de Mato Grosso que concorrem ao Prêmio Innovare 2026?
Foram selecionados o TJMT Inclusivo, a 2ª Corrida da Justiça e Cidadania, o Sistema Hannah, o Justiça Sem Fronteiras, a Expedição Araguaia-Xingu, o Programa Verde Novo e o projeto Homens que Cuidam.
Qual foi o impacto da compra da fazenda pela AGBI em Mato Grosso?
A compra da fazenda Rincão Alegre, por R$ 90 milhões, impulsiona a recuperação de 7,8 mil hectares, aumenta a produtividade de soja, milho e algodão e movimenta a economia rural local.