Ronaldo Caiado oficializa, em 1º de julho de 2026, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, como vice em sua chapa presidencial puro-sangue, em Brasília. A decisão transforma a candidatura num projeto do partido e não apenas numa aventura individual do ex-governador de Goiás.
PSD escolhe força interna e barganha
A opção por uma chapa exclusiva do PSD ocorre em meio à disputa antecipada entre Lula, do PT, e Flávio Bolsonaro, do PL. O partido se posiciona como alternativa de centro-direita para escapar da lógica do “tudo ou nada” entre governo e bolsonarismo.
O movimento tem custo imediato. O PSD abre mão de coligações que ampliariam recursos de campanha e tempo de TV. Em 2026, a sigla recebe R$ 421 milhões do fundo eleitoral para todas as disputas, de vereador à Presidência, e terá apenas 55 segundos de propaganda na televisão para Caiado. Mesmo assim, Kassab aceita entrar na linha de frente para, nas palavras de aliados, “encarecer” qualquer apoio formal a Flávio Bolsonaro num eventual segundo turno.
Kassab assume protagonismo e define eixo ideológico
Ao subir ao palco como vice, Kassab dá à campanha o selo da cúpula partidária. O presidente do PSD tenta enquadrar a candidatura de Caiado num espectro claro do jogo político, mas sem ruptura com sua própria trajetória.
“Eu tenho uma carreira associada ao centro da política brasileira. O meu perfil é de centro, com alianças, em alguns momentos da vida, mais à direita, mais à esquerda”, afirma. Em seguida, fixa o lugar da chapa no tabuleiro de 2026: “O perfil do PSD também é mais centro do que direita. A candidatura do Caiado é bastante abrangente, porque ela é uma candidatura de centro-direita, e é esse o espaço que está sendo ocupado para enfrentar o presidente Lula.”
O gesto corrige uma percepção incômoda dentro do partido. Até a entrada de Kassab, dirigentes viam o projeto de Caiado como personalista e, na prática, atrelado a uma adesão automática a Flávio Bolsonaro num segundo turno contra Lula. Agora, qualquer negociação passa pela mesa do presidente da sigla, que se torna também candidato a vice-presidente da República.
Direita dividida e alvo em Flávio Bolsonaro
Caiado usa o anúncio para mirar o eleitorado de direita que hoje orbita em torno de Flávio Bolsonaro. Ele tenta se diferenciar sem abandonar a crítica dura ao PT. Em discurso, fala diretamente aos conservadores que temem um novo mandato de Lula.
“Se chegarmos ao segundo turno, teremos os votos dos independentes e vamos derrotar Lula. Chegando ao segundo turno, aglutinaremos todas as forças deste país para devolver o Brasil aos brasileiros de bem”, diz. Na sequência, transforma o adversário do PL em trunfo para o petista: “Se Flávio chegar ao segundo turno, é tudo que Lula quer, e teremos o PT governando o país por mais quatro anos.”
Os números atuais não confirmam o cenário sonhado pelo ex-governador goiano. Pesquisa Datafolha de 20 de junho mostra Lula com 41% das intenções de voto, Flávio com 31%, e demais nomes, entre eles Caiado, não passando de 3%. Ainda assim, o PSD estabelece uma meta modesta e pragmática: levar o seu candidato dos 3% atuais para pelo menos 5% até o fim do primeiro turno.
Recursos limitados, partido musculoso
A aposta, dentro do PSD, não é apenas chegar ao Planalto. O partido tenta usar a candidatura presidencial como guarda-chuva nacional para quase 900 prefeitos e seis governadores, eleitos em ciclos recentes. Esses quadros vivem, em muitos estados, a pressão para aderir a Lula ou a Flávio Bolsonaro.
A existência de uma candidatura própria serve como escudo, principalmente em disputas locais acirradas. Em estados de tradição lulista ou bolsonarista, candidatos do PSD poderão argumentar que já têm nome à Presidência, evitando desgastar-se com um alinhamento explícito a um dos polos. O caso do Paraná, onde Sandro Alex (PSD) enfrenta Sergio Moro (PL) e Requião Filho (PDT), apoiados respectivamente por Flávio e Lula, é citado internamente como laboratório dessa estratégia.
Para isso, Kassab promete colocar dinheiro real na rua. Dirigentes falam em, no mínimo, R$ 30 milhões do fundo eleitoral destinados à campanha de Caiado. O valor é pequeno diante dos R$ 421 milhões sob o guarda-chuva do partido, mas sinaliza que a disputa presidencial não será apenas figurativa.
Aliados veem no presidente do PSD uma peça-chave para conectar Caiado à máquina partidária espalhada pelo país. Prefeitos e governadores são chamados para reforçar a visibilidade do candidato, explorar sua imagem de gestor e projetar seus resultados em segurança pública em Goiás como credencial nacional. Hoje, Caiado tem 76 anos, é médico, ex-senador e figura conhecida no campo ruralista; sua trajetória à direita da política, com apoio explícito a Jair Bolsonaro em 2018, contrasta com o esforço atual de se apresentar como alternativa à família Bolsonaro em 2026.
Terceira via controlada e olho no segundo turno
Dentro do PSD, dificilmente alguém fala em segundo turno com naturalidade. A avaliação predominante é que Caiado só poderia romper a barreira caso Flávio Bolsonaro enfrente novos escândalos ou forte desgaste até outubro. Até lá, a função da chapa é aumentar a votação do partido, proteger palanques regionais e, sobretudo, preservar a autonomia da sigla diante do Planalto e do PL.
Nas conversas de bastidor, Kassab aparece como fiador de uma barganha futura. Se Caiado não avançar à fase final, o presidente do PSD pretende negociar apoio com quem estiver mais bem posicionado contra Lula, muito provavelmente Flávio Bolsonaro, exigindo ministérios e espaço relevante no Congresso em troca do tempo de TV, capilaridade municipal e votos no parlamento. Um apoio institucional a Lula, por ora, é tratado como hipótese remota.
O próximo passo da estratégia é tirar a candidatura da invisibilidade imposta pelos 55 segundos de TV. O PSD conta com a exposição de Caiado nos debates, seu estilo combativo e o contraste com o esforço de moderação de Flávio para tentar cravar os 5% desejados. Se esse patamar não for alcançado, a legenda corre o risco de sair menor da eleição, com perda de influência no Congresso e menos voz na reorganização do campo de centro-direita após 2026.
Nas primeiras horas após a oficialização da chapa, em Brasília, o recado é claro: o PSD prefere arriscar recursos e tempo de TV para se afirmar como força independente, em vez de entrar desde já na fila dos coadjuvantes de Lula ou de mais um Bolsonaro. A eleição mostrará se a escolha rende espaço no tabuleiro nacional ou apenas expõe os limites de uma terceira via sob medida para negociar no dia seguinte.