Jesse Eisenberg mira Europa após obter cidadania polonesa

Ator busca novos projetos no cinema europeu e revela planos para futuras produções internacionais.
Redação NC News
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Jesse Eisenberg aproveita o Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary, no último sábado, para anunciar que recebe a cidadania polonesa e pretende trabalhar mais na Europa. Ao mesmo tempo, o ator duas vezes indicado ao Oscar recusa voltar como Mark Zuckerberg em uma sequência de “A Rede Social” e declara que sonha em fazer “Truque de Mestre 4”.

Virada europeia na carreira

No palco do festival tcheco, antes da sessão de “O duplo” (2013), Eisenberg explica por que escolhe formalizar o vínculo com a Polônia. A decisão, diz, mistura história familiar e cálculo profissional.

“Estar aqui tem um significado especial para mim porque, exatamente daqui a uma semana, receberei minha cidadania polonesa. Busquei essa cidadania por causa da história da minha família, mas também porque quero passar mais tempo da minha vida e da minha carreira trabalhando na Europa, especialmente na Europa Central”, afirma.

A fala marca uma mudança clara de rota. Aos 42 anos, após 2 indicações ao Oscar e mais de duas décadas entre Hollywood e o circuito independente, Eisenberg enxerga na Europa o espaço que sente faltar nos Estados Unidos para o tipo de cinema que o interessa.

“Nos Estados Unidos, muitos dos filmes que eu mais amo — produções estranhas, intimistas, de orçamento médio e escala humana — estão se tornando cada vez mais difíceis de fazer. Na Europa, porém, esses filmes continuam vivos e são celebrados”, diz.

A avaliação ecoa o diagnóstico de diretores e atores que veem os grandes estúdios americanos concentrados em franquias, super-heróis e marcas já conhecidas. O chamado filme de médio orçamento, o drama autoral que não é nem blockbuster nem produção ultra-barata, perde espaço nas salas e no fluxo de dinheiro novo.

Raízes polonesas e cinema de escala humana

A Polônia não entra na vida de Eisenberg apenas como estratégia de mercado. O país aparece como cenário afetivo em sua filmografia recente. Em “A verdadeira dor”, indicado ao Oscar de melhor roteiro original e vencedor do BAFTA, o ator interpreta um primo que viaja justamente à Polônia para revisitar o passado da família após o Holocausto.

O longa, estrelado ao lado de Kieran Culkin, consolida a herança judaico-polonesa como um dos eixos da obra que Eisenberg vem construindo também atrás das câmeras. O interesse pelas pequenas histórias, pelos traumas transmitidos de geração em geração, reforça a opção por um cinema mais íntimo, distante do gigantismo dos estúdios.

Essa trajetória se desdobra em seu trabalho como diretor. Depois de “Quando Você Terminar de Salvar o Mundo” e do próprio “A verdadeira dor”, ele já conclui “The debut”, filme novo que escreve, dirige e no qual atua. A produção, com Julianne Moore e Paul Giamatti, sai ainda este ano pela A24, distribuidora americana conhecida por apostar justamente em filmes de autor.

Refúgio em ‘Truque de Mestre 4’

A guinada europeia não significa que Eisenberg rompa com o cinema comercial. A ponte, agora, se chama “Truque de Mestre”, franquia de entretenimento de médio porte na qual ele interpreta o mágico J. Daniel Atlas.

Em entrevista ao site The Wrap, o ator fala com entusiasmo raro sobre a possibilidade de um quarto filme. “Sinceramente, eu adoraria fazer ‘Truque de Mestre 4’ mais do que qualquer outra coisa”, afirma. Em seguida, reforça a ligação com o papel: “Nunca me senti mais feliz do que interpretando aquele papel”.

Eisenberg explica que costuma interpretar personagens “deprimidos”, o que acaba contaminando o próprio humor. Atlas, ao contrário, surge como figura confiante, vestida com elegância e cercada de truques e ironia. O personagem o afasta, pelo menos por algumas horas de filmagem, da melancolia que marca boa parte de sua filmografia.

O terceiro filme da série, “Truque de Mestre: O 3º Ato”, recebeu 59% de aprovação da crítica no site Rotten Tomatoes e nota B+ do público no CinemaScore, sinal de fôlego suficiente para manter o interesse do estúdio. O quarto longa já está confirmado, com Ruben Fleischer na direção e um elenco que reúne Justice Smith, Rosamund Pike, Dominic Sessa e Ariana Greenblatt. O desejo explícito de Eisenberg tende a acelerar conversas e ajustar agendas.

Recusa a ‘A Rede Social 2’ e afastamento de Zuckerberg

Se a volta ao universo dos mágicos o anima, o mesmo não se aplica à proposta de revisitar Mark Zuckerberg. Eisenberg recusa participar da aguardada sequência de “A Rede Social”, filme de 2010 que o projetou como o fundador do Facebook.

A recusa é direta. “Não quero ser associado a esse personagem”, afirma, ao comentar o novo projeto com roteiro de Aaron Sorkin. O diretor David Fincher, responsável pelo longa original, também fica de fora, o que indica uma continuação em outro tom.

Desde a estreia, a imagem de Zuckerberg se complica com denúncias envolvendo privacidade, desinformação e impacto das redes sociais na política. O próprio Facebook se transforma na Meta, conglomerado criticado por parte da opinião pública. A ligação do filme com esse universo torna mais pesada a sombra que acompanha o ator.

Ao dizer não ao retorno, Eisenberg explicita um movimento que já vinha sugerindo nas escolhas recentes. Ele se afasta de personagens que o mantêm colado a temas tóxicos e prefere papéis que lhe permitam experimentar outros humores, em narrativas mais íntimas ou em entretenimento menos associado a controvérsias reais.

Europa em alta, Hollywood em dúvida

O anúncio em Karlovy Vary é recebido com entusiasmo pela plateia do festival, que já o homenageia com o Prêmio do Presidente do evento. A distinção celebra o artista multifacetado, que transita de “A Lula e a Baleia” a “Zumbilândia” e do roteiro delicado de “A verdadeira dor” às coreografias vistosas de “Truque de Mestre”.

Para a indústria europeia, a cidadania polonesa de Jesse Eisenberg funciona como convite permanente. Um ator com nome conhecido, respeito da crítica e trânsito comercial pode atrair financiamentos, encorajar coproduções com os Estados Unidos e dar fôlego extra a um cinema que valoriza personagens comuns e conflitos discretos.

Hollywood, por outro lado, perde parte do tempo de um intérprete que ainda rende manchetes e interesse de público. Não se trata de uma ruptura brusca, mas de um deslocamento de foco. Enquanto a máquina americana se concentra em franquias gigantescas, o ator prefere histórias que cabem em orçamentos menores e, muitas vezes, em salas de arte espalhadas pelo continente europeu.

Os próximos anos devem responder se essa aposta se sustenta. A sequência de “A Rede Social” segue adiante sem seu protagonista original e sem Fincher, o que pode pesar na recepção crítica e na curiosidade do público. “Truque de Mestre 4” tem mais um motivo para sair do papel com rapidez. E o passaporte polonês recém-emisso coloca Eisenberg em uma posição singular: a de astro americano que decide, em plena maturidade artística, que seu futuro imediato passa pelas ruas de Varsóvia, pelos sets da Europa Central e pelos filmes que Hollywood, por ora, prefere deixar de lado.

 

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