Aos 72 anos, Regina Casé volta aos palcos paulistanos em 9 de julho de 2026 com o monólogo “Viva! Vida!”, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. Em um mês de temporada, ela guia o público por uma espécie de biografia da Terra, da formação geológica às mudanças climáticas, misturando humor, tecnologia e conversa direta com a plateia.
Da garrafinha d’água ao alerta climático
O espetáculo chega à cidade depois de sessões cheias no Rio de Janeiro e traz na própria plateia um termômetro da urgência ambiental. Muita gente entra no teatro com garrafinha d’água na mão, hábito que Regina transforma em gatilho dramático. Em cena, ela interrompe o fluxo de piadas para lembrar o óbvio que se quer evitar. “Se a gente não pensar imediatamente em nossas atitudes, daqui a pouco não vai ter água para encher essa garrafinha, viu?”, avisa.
A montagem se ancora nesse contraste permanente. De um lado, o prazer de contar histórias, rir de si mesma e ouvir a reação da plateia. De outro, a tensão de um planeta “lindo e rico que começa a agonizar”, como descreve o texto de Estêvão Ciavatta Pantoja, marido e parceiro artístico de Regina. A crise ambiental entra sem tom de sermão ou aula, mas com o peso de quem insiste em olhar a rua, a feira, o pagode e o morro para falar de futuro.
Uma Terra contada em voz alta, LED e celular
“Viva! Vida!” nasce de um processo tão improvisado quanto calculado. No verão baiano, Regina se tranca numa sala com um piano de cauda e o músico Amaro Freitas. Ele toca, ela fala. As ideias sobre vulcões, bactérias, florestas, usinas, cidades e temporais aparecem enquanto o corpo responde à música. A dramaturgia de Ciavatta Pantoja, com colaborações da própria atriz, de Daniela Thomas e de pesquisadores como Antônio Nobre e Fábio Scarano, se organiza a partir dessas “pirações” alimentadas por conversas com cientistas do clima e biólogos.
O resultado traça uma linha do tempo que passa por desertos primordiais, mares em ebulição, surgimento da vida, grandes extinções, revoluções industrial e tecnológica, até chegar à sociedade hiperconectada e à beira do colapso climático. No palco, nada disso aparece em tom professoral. “O que move a minha carreira é uma ideia de algo que precisa ser dito e compartilhado naquela hora”, diz Regina. “Neste espetáculo, não tem erudição, até porque não sabia nada sobre o assunto e estou aprendendo com todo mundo.”
A forma visual acompanha essa mistura de ciência e cultura popular. Painéis de LED mapeiam o cenário e reagem em tempo real aos movimentos e à voz da atriz, como se o próprio planeta respirasse com ela. O celular não é acessório, é personagem. Regina o mantém em cena do início ao fim. “Talvez seja o único personagem que convive comigo durante a peça toda”, brinca. A luz da tela pontua transições, dispara imagens, simula notificações da Terra pedindo atenção.
Humor, sabedoria indígena e periferia em cena
A narrativa intercala conceitos de biologia e química com memórias, provérbios populares e referências indígenas. Regina evoca a sabedoria dos povos originários para discutir o que chama de “desconexão com a natureza” e reforça o quanto a ideia de cuidado sempre esteve presente em culturas que a elite urbana prefere não ouvir. A festa brasileira, lembra ela, também nasce desse choque entre dor e invenção cotidiana. “A festa que o brasileiro faz tão bem nem sempre vem da alegria, vem da dor de suportar”, afirma.
O público que a acompanha desde os anos 1990 reconhece ali o mesmo impulso que guiou programas como “Brasil Legal” (1994-1997), “Central da Periferia” e “Esquenta”. Em todos, Regina escolhe mostrar a potência criativa das bordas e não o medo que costuma cercar qualquer menção à palavra periferia. “Quando a gente fala de comunidades, de periferia, não mostramos o medo e sim o presente, a cultura, a possibilidade de futuro e essa é a ideia do espetáculo”, diz. “Em ‘Viva! Vida!’, queremos seduzir o público com as maravilhas desse lugar.”
A trajetória recente reforça essa ponte entre comunicação popular e personagem complexa. No cinema, Regina brilha em “Eu, Tu, Eles” (2000) e em “Que Horas Ela Volta?” (2015), drama sobre uma empregada doméstica que condensa desigualdades brasileiras. “Quando li o roteiro, estava em um momento difícil, gravando sem parar na Globo e meu filho, Roque, tinha acabado de chegar para nós”, lembra. “Tirei um mês de férias e trouxe um bebê de colo para São Paulo porque não poderia perder essa personagem que representa tudo o que acho importante.”
Arte, ativismo e a vida fora do camarim
O retorno ao palco com “Viva! Vida!” consolida uma fase em que a atriz se afirma também como protagonista de grandes produções de TV. Em 2019, ela lidera “Amor de Mãe”; em 2022, volta ao centro da cena em “Todas as Flores”. Ao mesmo tempo, insiste em recusar o isolamento que percebe em parte do meio artístico. “Tenho colegas que só saem de casa pelo portão da garagem para ir ao terapeuta ou ao dermatologista e se colocaram em um encastelamento difícil de abandonar”, comenta. “Eu fujo da sacralização, faço caminhadas na rua, vou à feira e aos shows e, mesmo no teatro, chego suada, em cima da hora.”
Essa recusa ao camarote aparece no palco. A personagem Regina fala da filha Benedita, da chegada de Roque, da manicure Andreia que se esbalda no pagode depois de um dia exaustivo de trabalho, e costura essas histórias com dados sobre desmatamento, aquecimento global e crises hídricas. O espetáculo se coloca como festa e como trincheira. A gargalhada divide espaço com o desconforto de perceber que a água da garrafa na mão do espectador pode não ser um recurso garantido para sempre.
Temporada curta, concorrência pesada e possível legado
A atriz não esconde a preocupação com o calendário. A temporada paulistana dura apenas um mês, em plena combinação de férias escolares e Mundial de Seleções. “Bota aí na matéria que é pra eles irem me ver mesmo, porque vai ser só um mês. Será que São Paulo vai ficar deserta?”, provoca. A concorrência com telões de bar transmitindo jogos e viagens de família pode reduzir a ocupação e impactar a conta financeira da produção, que envolve tecnologia cara e equipe numerosa.
Produtores e patrocinadores apostam que o apelo ambiental e o uso de recursos digitais atrai um público mais jovem, menos habituado a ir ao teatro, mas sensível à linguagem das telas. Se a resposta em São Paulo repetir o boca a boca positivo do Rio, a equipe estuda estender a circulação para outras capitais. A recepção da crítica também deve pesar na decisão.
No horizonte, “Viva! Vida!” pode influenciar o teatro brasileiro a arriscar mais em temas ambientais e em cenografias interativas, sem abrir mão da ginga popular. Para Regina, a peça é antes de tudo um convite à ação no presente. O futuro, avisa, depende do que cada um faz depois de sair do teatro, garrafinha na mão ou não.