Tesla, Coca-Cola, Nestlé e eBay tentam barrar, desde 1º de julho, o plano do governo Donald Trump de impor tarifas extras a produtos importados do Brasil. As empresas enviam cartas ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) e pedem que insumos brasileiros estratégicos escapem das novas taxas de 12,5% e 25%.
O embate empresarial ocorre às vésperas de uma decisão com impacto direto no preço de alimentos, carros elétricos, remédios e compras on-line nos Estados Unidos. Também se cruza com uma escalada diplomática entre Washington e Brasília, que já extrapola o terreno comercial.
Tarifas em disputa em meio a crise política
As audiências públicas sobre o pacote tarifário começam em 6 de julho, em Washington, e devem balizar a recomendação final do USTR à Casa Branca. O órgão acusa o Brasil de adotar políticas que “oneram ou restringem” o comércio americano e aponta as sobretaxas como resposta.
No plano diplomático, o clima azeda. Documentos enviados ao Congresso pelo chanceler Mauro Vieira registram que o Itamaraty vê “risco” de uso de força militar pelos EUA contra o território brasileiro. A análise vem depois de o governo Trump classificar unilateralmente as facções PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais.
O Departamento do Tesouro congela bens de dois brasileiros e quatro empresas por supostas ligações com o crime organizado. Em paralelo, gigantes corporativos insistem que um tarifaço sobre insumos brasileiros teria efeito imediato dentro da própria economia americana.
O que pede a Tesla
A Tesla, símbolo da indústria de veículos elétricos, assume o papel mais ruidoso entre as empresas. Em carta ao USTR, a companhia de Elon Musk solicita isenção para insumos industriais importados do Brasil, usados na produção de carros elétricos, robôs e baterias.
A empresa relata investimentos de bilhões de dólares para nacionalizar e diversificar a cadeia de suprimentos nas Américas. Alega, porém, que a substituição de fornecedores leva anos e exige elevar escala e qualidade de produção doméstica, algo que ainda não ocorre em vários insumos estratégicos.
“Aplicar taxas de forma mais rápida do que a capacidade de o mercado interno se adaptar vai prejudicar os trabalhadores e consumidores americanos”, escreve a montadora. Para a Tesla, tarifas de 12,5% e 25% sobre componentes brasileiros encarecem carros elétricos e sistemas de energia, num momento em que o governo diz querer acelerar a transição tecnológica.
Os pedidos não citam fábricas da marca no Brasil, mas deixam claro que a empresa vê o país como peça relevante em uma cadeia de suprimentos regional, que deve atender tanto os Estados Unidos quanto outros mercados das Américas.
Café, colágeno e laranja: o que está em jogo
A Nestlé se concentra em dois produtos específicos: café instantâneo não aromatizado, o café solúvel, e colágeno bovino. Na carta ao USTR, a multinacional afirma que “o café em grão não pode ser cultivado em escala comercial nos EUA continental” e lembra que o Brasil é o principal exportador mundial de colágeno bovino.
O insumo alimenta uma cadeia de saúde e bem-estar que cresce rápido nos Estados Unidos, de suplementos alimentares a cosméticos. A empresa argumenta que a indústria local não supre a demanda. Destaca ainda que 96,7% de suas cadeias de suprimentos de commodities primárias já são avaliadas como livres de desmatamento ao fim de 2025, resposta direta a críticas ambientais usadas para justificar restrições.
A Coca-Cola mira os cítricos. A fabricante de bebidas pede que o suco de laranja do Brasil permaneça isento e quer que o limão e seus derivados ingressem na mesma lista ou recebam um período de transição. A companhia descreve um quadro de colapso da produção na Flórida.
Os números impressionam: o estado colhe 242 milhões de caixas de laranja na safra 2003/04. Para 2025/26, a estimativa despenca para apenas 12 milhões de caixas, por causa de doenças, pragas e eventos climáticos extremos. “O Brasil tornou-se um fornecedor suplementar vital para garantir o café da manhã das famílias americanas”, afirma a empresa.
Segundo a Coca-Cola, mudar de fornecedores de cítricos exige tempo para testes de segurança alimentar e certificações sanitárias. Tarifas repentinas, diz a companhia, não teriam efeito corretivo sobre o Brasil, mas aumentariam custos internos e pressionariam o preço final do suco.
Comércio eletrônico e produtos usados na linha de fogo
O eBay, gigante do comércio eletrônico, foca um nicho pouco lembrado nas disputas comerciais: o mercado de usados e seminovos. A plataforma pede uma isenção categórica para itens de segunda mão vindos do Brasil.
Na avaliação da empresa, as tarifas da Seção 301 funcionam como um “sinal de preço” para desestimular produção industrial ou agrícola em determinado país. Produtos usados, porém, já completaram seu ciclo de vida produtivo; o fabricante original recebeu o pagamento anos antes.
Taxar esses bens, argumenta o eBay, atinge apenas o pequeno revendedor e o consumidor de baixa renda que busca economizar em roupas, eletrônicos e acessórios. A companhia acrescenta um problema prático: em cerca de 30% das roupas revendidas, as etiquetas com o país de origem se perderam, o que tornaria impossível declarar com rigor a procedência.
Para o eBay, exigir essa comprovação na alfândega criaria um custo burocrático desproporcional, com risco de travar o fluxo de encomendas e afetar milhares de pequenos negócios.
Quem ganha e quem perde com a decisão
Se as tarifas adicionais de 12,5% e 25% avançarem, cadeias produtivas americanas ligadas a veículos elétricos, robótica, baterias, alimentos, bebidas e suplementos tendem a sofrer. O custo extra sobre insumos brasileiros se converte em preços mais altos para o consumidor, margens comprimidas para as empresas e risco de cortes de emprego, o cenário descrito por Tesla, Coca-Cola, Nestlé e eBay.
Na outra ponta, o governo Trump sinaliza ao eleitorado industrial que está disposto a punir países considerados desleais no comércio global, mesmo ao custo de atrito com grandes corporações. O Brasil, que já classifica a investigação da Seção 301 como “arbitrária” e contrária às regras da Organização Mundial do Comércio, vê o movimento como parte de uma ofensiva mais ampla, que inclui a retórica securitária contra facções criminosas.
Se o USTR aceitar os pedidos de isenção, Washington reduz o risco de desorganizar cadeias de suprimentos críticas em áreas intensivas em tecnologia e alimentos. Preserva empregos e preços internos, além de oferecer uma saída para aliviar a tensão com Brasília sem recuar totalmente da postura dura.
Caso mantenha o tarifaço, a pressão recairá sobre empresas como a Tesla, que terão de acelerar, a um custo elevado, a substituição de insumos brasileiros ou repassar aumentos ao consumidor. A curto prazo, a conta chega primeiro ao bolso de quem compra um carro elétrico, um suco de laranja no supermercado ou um suplemento à base de colágeno.
As audiências iniciadas em 6 de julho devem se estender por semanas. O desfecho indicará até que ponto a Casa Branca está disposta a sacrificar interesses empresariais em nome de uma estratégia mais agressiva com o Brasil. Também mostrará se o peso político de marcas como Tesla, Coca-Cola, Nestlé e eBay ainda consegue moldar, em Washington, o rumo da política comercial.