Eduardo Suplicy e Benedita da Silva dividem, nos anos 1990, uma cena decisiva da novela “O rei do gado” que voltou ao centro do debate na última terça-feira (7), com a morte de Benedito Ruy Barbosa, aos 95 anos. Os dois aparecem na trama em um momento de luto e defesa da Reforma Agrária e do MST, numa das passagens mais lembradas da obra do autor.
A morte de um autor e a volta de uma cena
Benedito Ruy Barbosa morreu na manhã da última terça-feira, 7 e recolocou sua produção no noticiário, em especial o folhetim rural que marcou a teledramaturgia brasileira. Em “O rei do gado”, ele leva para o horário nobre uma discussão então vista como terreno de discursos inflamados no Congresso e de conflitos no campo: a disputa pela terra no Brasil.
O resgate da participação de Suplicy e Benedita não surge por acaso. A cena em que os dois aparecem, lado a lado de personagens centrais, simboliza a opção de Benedito por embaralhar fronteiras entre ficção e realidade. “Benedito Ruy Barbosa retratou como poucos, dentro do meio cultural e intelectual brasileiro, o nosso país rural”, resume o colunista Ancelmo Gois, ao lembrar o episódio.
O senador assassinado por defender o MST
Na trama, o senador Caxias, interpretado por Carlos Vereza, sofre uma emboscada e é assassinado por defender a Reforma Agrária e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. O crime político atravessa a história do protagonista Bruno Mezenga, vivido por Antônio Fagundes, e abre espaço para que o autor leve ao horário nobre o conflito agrário com nomes e siglas reconhecíveis pelo público.
No velório do senador, Suplicy surge em cena como ele próprio, não como personagem de ficção. “Na cena, de que também participou Benedita da Silva, é possível ver Suplicy confortando o protagonista principal Bruno Mezenga (Antônio Fagundes), que na trama era amigo do morto”, registra Gois. A presença dos dois parlamentares reforça o caráter político da morte de Caxias e sinaliza, fora da tela, a adesão deles à pauta que o personagem abraça.
Benedita, que hoje é deputada petista e na época também ocupa uma cadeira no Senado, aparece na mesma sequência em gesto de solidariedade. O enquadramento é simples: uma missa de corpo presente, rostos conhecidos na TV e no noticiário político dividindo o mesmo espaço, sob a mesma causa.
Quando a política entra no horário nobre
A escolha de Benedito Ruy Barbosa pela participação de políticos em uma novela de grande audiência não é um detalhe de bastidor. Em plena década de 1990, quando a Reforma Agrária enfrenta resistência aberta de parte do Congresso e de entidades rurais, a TV aberta leva para milhões de casas uma narrativa em que um senador é morto por apoiar o MST, tratado pelo nome.
Ao chamar Suplicy e Benedita, o autor dá um passo além. O público reconhece, na mesma cena, um ator veterano como Carlos Vereza, um galã consolidado como Antônio Fagundes e duas figuras centrais do PT, partido identificado com a pauta agrária. Na prática, o capítulo dilui barreiras entre representação e representação política, embaralhando quem é personagem e quem representa eleitores reais.
A presença de parlamentares em folhetins não é inédita, mas raramente se dá em contexto tão carregado de significado social. A cena de “O rei do gado” vai além do cameo simpático. Ela legitima a agenda em disputa ao associá-la a figuras de mandato, naturalizando no imaginário popular a ideia de que defender o MST e a divisão de terras improdutivas é posição possível, respeitável e até heroica.
Quem ganha e quem reage com incômodo
O impacto é direto sobre os movimentos sociais ligados ao campo. Ao ver suas bandeiras tratadas em horário nobre, com nomes como Suplicy e Benedita em quadro, militantes sentem que a pauta sai da periferia do noticiário para ocupar o centro da cultura de massa. O MST, tantas vezes retratado apenas sob o ângulo policial, aparece ali como movimento ligado à luta por justiça no campo.
O ganho se estende a setores progressistas que defendem a Reforma Agrária como política pública estruturante. O público acompanha, pela via da emoção, a história de um senador que paga com a vida por defender trabalhadores sem terra. A presença de políticos reais empresta verossimilhança e urgência ao enredo: não é apenas drama, é reflexo de um país em disputa.
O outro lado desse movimento aparece na reação de segmentos conservadores e de parte dos grandes proprietários rurais, que se veem retratados em um tabuleiro no qual a novela toma partido. Ao endossar a agenda de reforma, “O rei do gado” modifica o equilíbrio simbólico. Mesmo sem citar nomes de famílias ou grupos específicos, a trama pressiona a imagem pública do latifúndio e de quem se opõe frontalmente ao MST.
Legado de Benedito e o futuro da TV política
A morte de Benedito Ruy Barbosa reacende a discussão sobre o papel da TV na construção da memória social brasileira. Ao longo de décadas, de “Pantanal” a “Terra Nostra” e “O rei do gado”, ele se dedica a contar histórias do Brasil rural, com seus conflitos de terra, família e poder. No caso da cena com Suplicy e Benedita, o gesto é ainda mais explícito: a novela passa a funcionar como arena política em tempo real.
O legado desse tipo de escolha estética vai além da homenagem imediata. Ao revisitar a obra de Benedito, emissoras, plataformas de streaming e pesquisadores encontram um modelo de como a ficção pode dialogar com disputas concretas, sem abandonar a dramaturgia. A lembrança da participação de Suplicy e Benedita tende a alimentar novas tentativas de aproximação entre produções audiovisuais e temas sensíveis, como conflitos agrários, violência no campo e políticas de reparação.
Nos próximos anos, a expectativa é de que o nome de Benedito Ruy Barbosa circule não apenas nas homenagens do meio artístico, mas também em debates acadêmicos e políticos sobre representação do campo na mídia. “O rei do gado” segue como referência obrigatória para entender como a televisão brasileira enquadra a questão agrária. A cena em que dois parlamentares confortam um personagem devastado pela morte de um senador sintetiza esse encontro entre ficção e disputa real, e permanece como um marco da ousadia de um autor que escolhe colocar a política no centro do drama.