Moradores de Cambé, na Região Metropolitana de Londrina, enfrentaram nesta quarta-feira (08) um dia de torneiras incertas. Por volta das 8h, uma obra de interligação no sistema Esperança comprometeu o abastecimento em mais de 30 bairros, segundo a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar). A normalização do abastecimento voltou apenas à noite.
Ao mesmo tempo, a Região Metropolitana de São Paulo passa a depender ainda mais da água do Rio Paraíba do Sul para segurar os efeitos da estiagem no Sistema Cantareira. E enquanto companhias públicas correm para garantir volume e pressão nas redes, pesquisadores e órgãos internacionais soam um alerta mais silencioso: os tratamentos convencionais não conseguem remover resíduos de medicamentos, incluindo fármacos abortivos, que já aparecem em estudos como ameaça à fertilidade e ao meio ambiente.
Intervenção em Cambé exige consumo contido
No norte do Paraná, o ajuste na tubulação do sistema Esperança pretende reforçar o abastecimento de água residencial nos próximos meses. Nesta quarta, porém, o impacto é imediato. Em nota, a Sanepar informa que “o abastecimento pode ficar comprometido nos seguintes locais…”, lista que inclui bairros como Parque Maracanã, Jardim Bela Suíça, Jardim Ana Eliza, Jardim São Paulo, Tropical, Monte Castelo e mais de duas dezenas de loteamentos e residenciais.
A companhia estima que a obra comece às 8h e que a rede seja normalizada ao longo da noite. Pede que moradores antecipem o planejamento do dia, encham caixas-d’água e reservatórios e cortem usos supérfluos. A orientação é clara: priorizar higiene pessoal e preparo de alimentos, adiar lavagem de carros, calçadas e outras atividades intensivas em água.
Em comunicado, a Sanepar ressalta que “o serviço pode ser cancelado ou adiado de acordo com as condições do tempo, por razões técnicas ou por motivos de segurança”. A empresa mantém canais de atendimento 24 horas por telefone, e-mail e aplicativo de mensagens para informar sobre oscilações de pressão, interrupções pontuais e eventuais remanejamentos no calendário de abastecimento de água.
Cantareira em nível de atenção busca alívio no Paraíba do Sul
Enquanto Cambé convive com um corte programado e curto, São Paulo aposta em uma operação de maior fôlego para atravessar a estiagem de 2026. A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) recebeu autorização para aumentar a captação na bacia do Rio Paraíba do Sul, manancial que também abastece o Rio de Janeiro, e reforçar o Sistema de abastecimento de água de São Paulo.
Em 29 de junho, o Cantareira opera com 39,9% da capacidade, bem abaixo da média histórica de 55,5% para o período. O volume útil do Sistema Integrado Metropolitano, que reúne diversos reservatórios que atendem cerca de 10 milhões de pessoas na Grande São Paulo, está em 52,5%. Os números acendem o sinal amarelo e sustentam a decisão conjunta dos governos de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, com apoio da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e de órgãos estaduais como SP Águas, IGAM e INEA.
Pelo novo arranjo, a Sabesp pode elevar a transposição anual da represa do Jaguari para o reservatório Atibainha de 162 hm³ para até 268,28 hm³. A vazão máxima de captação sobe para 8,5 m³ por segundo, em medida válida até 31 de dezembro de 2026. Em nota, a companhia afirma que “a autorização está prevista nas regras de operação do Cantareira e faz parte da estratégia permanente da companhia para ampliar a segurança hídrica da região”.
O acordo, no entanto, vem cercado de travas. Se o nível do Cantareira voltar a ultrapassar 60% ou se a Sabesp não cumprir metas de economia de água, a captação extra é automaticamente suspensa. Há ainda regras para garantir vazões mínimas no Paraíba do Sul e assegurar a operação de usinas hidrelétricas e o abastecimento público de água no Rio de Janeiro, em especial no sistema que usa o Rio Guandu como principal fonte.
Essa equação expõe um dilema que tende a se repetir nos próximos anos: para salvar o abastecimento público de água hoje em uma metrópole, é preciso negociar, quase em tempo real, os limites do impacto em outras cidades, na energia elétrica e na integridade dos rios.
Resíduos farmacológicos inauguram nova fronteira de risco
A preocupação com o volume disponível de água se cruza com uma ameaça menos visível: a qualidade do que sai da torneira. O tratamento convencional realizado nas estações de grande porte no país combina reagentes como sulfato de alumínio, cal e cloro, seguidos de decantação, filtração, desinfecção e fluoretação. A tecnologia é eficiente contra organismos causadores de doenças e boa parte da poluição orgânica, mas perde a guerra contra moléculas muito pequenas e estáveis, como vários fármacos.
Resíduos de remédios chegam aos rios de diferentes formas. Passam pelo organismo humano e são eliminados pela urina e pelas fezes, caem em pias e vasos sanitários com o descarte irregular de comprimidos vencidos, escorrem de lixões e aterros mal geridos. Para removê-los, seriam necessários processos avançados, ainda caros, como membranas especiais, carvão ativado de alta performance ou oxidação avançada. Pesquisas da USP despontam nesse campo, mas estão longe de uma adoção massiva em companhias estaduais de saneamento.
Entre esses poluentes, medicamentos abortivos ganham espaço no debate público. Nos Estados Unidos, 14 procuradores-gerais estaduais enviam em 5 de junho de 2026 um ofício à Agência de Proteção Ambiental (EPA) questionando a avaliação de impacto ambiental “mínimo” para a mifepristona, principal pílula abortiva usada no país. Citando estudos divulgados pelo site lifesitenews.com, o documento destaca que os metabólitos do fármaco permanecem ativos após a excreção e preservam afinidade pelos receptores humanos de progesterona e glicocorticoides.
O texto lembra ainda que “o fármaco prejudica uma gravidez existente ao ‘inibir competitivamente as ações da progesterona nos locais dos receptores de progesterona’ e promove contrações uterinas e o amolecimento do colo do útero”. Os procuradores apontam que essas mesmas propriedades podem afetar o desenvolvimento de órgãos reprodutivos e a fertilidade, se resíduos persistirem no ambiente.
O alerta ganha peso com um número que impressiona: “Anualmente, cerca de 40 toneladas de resíduos de bebês abortados, tecidos humanos e subprodutos médicos contaminados por produtos químicos são despejadas nos rios e lagos dos EUA”, escrevem os procuradores. A acusação recai sobre o sistema de descarte hospitalar e sobre normas federais que, na avaliação dos signatários, não consideram o efeito acumulado desses rejeitos no abastecimento público de água rj, em outras grandes metrópoles e na biodiversidade aquática.
Brasil acompanha a distância, mas não está imune
No Brasil, o medicamento análogo mais próximo, o misoprostol, é de uso restrito a hospitais, em condições controladas. Mesmo assim, o país começa a reproduzir, em ritmo menor, parte do debate travado nos Estados Unidos. Pesquisadores ligados à USP e entidades ligadas ao tema da reprodução apontam que a combinação entre falta de estrutura para tratar resíduos hospitalares, redes de esgoto antigas e ausência de monitoramento específico abre brechas para que esses compostos cheguem aos mananciais.
O cenário se agrava com a expansão da venda ilegal de misoprostol e drogas similares. Grupos abortistas defendem a liberação ampla do remédio, inclusive por programas de atendimento remoto, em que o fármaco é enviado à casa da paciente. A pulverização do uso e o descarte de restos de comprimidos e de materiais contaminados em lixos domésticos e sanitários multiplicam a chance de contaminação difusa, hoje invisível para as rotinas do saneamento básico.
Com uma indústria farmacêutica entre as maiores do mundo e milhares de toneladas de resíduos químicos descartados por ano, o país se aproxima de um ponto em que discutir apenas volume nos reservatórios será insuficiente. Os desafios do abastecimento público de água em São Paulo, no Rio de Janeiro e em cidades médias como Cambé exigem uma agenda que una estiagem, infraestrutura, saúde pública e meio ambiente.
A curto prazo, moradores seguem olhando para o calendário de abastecimento de água e para os níveis dos reservatórios. A médio e longo prazos, agências como ANA, SP Águas, IGAM e INEA, ao lado de universidades e companhias como Sanepar e Sabesp, terão de decidir quanto estão dispostas a investir em tecnologias mais sofisticadas de tratamento e em políticas duras de descarte de resíduos farmacológicos. A dúvida que fica é se essas decisões virão antes que os efeitos dessa contaminação, ainda discreta, se tornem tão visíveis quanto uma torneira seca.