As relações entre Brasil e Estados Unidos atravessam um período de tensão que vai além da disputa comercial. Enquanto os dois governos tentam negociar uma solução para evitar a imposição de uma tarifa sobre produtos brasileiros, outros episódios envolvendo segurança, diplomacia e novas investigações conduzidas por Washington ampliam pontos de atrito entre os países
O cenário reúne negociações em andamento e apurações abertas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), em um momento de maior sensibilidade na relação bilateral
Negociação sobre tarifas segue em definição
A principal frente de negociação continua sendo a proposta dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa de 25% sobre parte das exportações brasileiras.
O governo brasileiro mantém conversas com autoridades americanas na tentativa de evitar a medida. A expectativa é de uma nova reunião entre o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, antes da decisão prevista para a próxima semana.
Apesar das negociações, a avaliação de integrantes do setor privado e de especialistas é de cautela. Quem acompanhou os dois dias de audiência pública promovida pelo USTR considera improvável que a proposta de taxação seja totalmente revertida.
Nesse contexto, o presidente Lula (PT) não deve participar diretamente das tratativas com o presidente norte-americano Donald Trump. A estratégia do Planalto é manter as negociações em nível ministerial.
Enquanto isso, o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), tem defendido que pode contribuir para um entendimento entre os dois países e passou a defender a criação de uma área de livre comércio entre Brasil, Estados Unidos, México e Canadá, chamado por ele de “Afta”, em referência ao antigo Nafta.
Documento do Itamaraty gera reação no Congresso
Outro foco de tensão surgiu após a divulgação de um ofício do Ministério das Relações Exteriores que mencionou a possibilidade do eventual uso da força militar pelos Estados Unidos depois da classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelo governo americano.
Embora autoridades dos Estados Unidos tenham negado qualquer discussão sobre uma eventual ação militar em território brasileiro, o documento provocou reação da oposição e do Congresso.
A Comissão de Relações Exteriores da Câmara aprovou a convocação do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, para prestar esclarecimentos sobre o tema. A data da audiência ainda não foi definida.
Parlamentares de oposição afirmam que as explicações apresentadas pelo governo foram insuficientes e criticam o tratamento dado pelo Executivo ao tema.
Ao mesmo tempo, o governo brasileiro busca preservar os canais de diálogo na área de defesa. Nesta quarta-feira (8), durante agenda no Peru, o ministro da Defesa, José Múcio, reuniu-se com o subsecretário de Defesa dos Estados Unidos, em encontro solicitado pelo próprio governo americano.
Segundo o Ministério da Defesa, a reunião ocorreu em clima de cordialidade e teve como principal tema a cooperação entre os dois países no combate ao narcotráfico
Investigações ampliam a pressão
Além da disputa tarifária, Washington mantém outras investigações envolvendo práticas comerciais brasileiras. Uma delas apura a existência de um suposto trabalho forçado em cerca de 60 mercados, entre eles o do Brasil.
Embora trate de um tema distinto das tarifas, a investigação amplia a inspeção dos Estados Unidos sobre práticas comerciais brasileiras e soma a outras frentes de discussão já abertas entre os dois países.