Ricardo Couto planeja cortar 37% das secretarias do RJ

Governador em exercício do Rio propõe reestruturação para otimizar a gestão estadual.
Redação NC News
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O governador em exercício do Rio de Janeiro, Ricardo Couto, anunciou nesta quinta-feira (9) que pretende reduzir de 35 para 22 ou 23 o número de secretarias estaduais. O corte, de cerca de 37%, está previsto para ocorrer ainda dentro dos cerca de 60 dias que ele calcula ter à frente do Palácio Guanabara.

Reforma em governo de prazo curto

Couto assumiu o comando do estado em 23 de março de 2026 como desembargador convocado e atua em um mandato-tampão. A limitação de tempo não o impede de tentar uma mudança estrutural na máquina pública fluminense.

Ao anunciar o plano de enxugamento, ele busca marcar a gestão interina com uma reestruturação administrativa profunda. A promessa é deixar um formato de governo mais racional para as próximas administrações, reduzindo custos e, segundo ele, evitando retrocessos futuros.

“Dentro desta visão, provavelmente nós teremos agora a etapa de redução das secretarias, dentro de um projeto que fizemos, com 22 ou 23 (hoje são 35), atendendo às necessidades do estado”, afirma Couto, em entrevista ao jornal “O Globo”.

Palácio Guanabara mira máquina mais enxuta

A proposta desenhada pela equipe do governador prevê extinção e fusão de pastas. Na prática, significa concentrar atribuições que hoje se espalham por 35 estruturas distintas em um número próximo a duas dezenas.

A conta política e administrativa não é simples. Secretarias funcionam, muitas vezes, como espaços de poder de grupos partidários e bases regionais. Nas últimas décadas, governos fluminenses ampliam o número de pastas para acomodar aliados, distribuir cargos e montar maiorias na Assembleia Legislativa.

O plano de Couto vai na direção oposta. A ideia de reduzir em mais de um terço a estrutura formal mexe com esse equilíbrio. Ganha força, no discurso oficial, a narrativa de gestão enxuta, com menos sobreposição de funções e menores gastos operacionais com estruturas administrativas.

Para a população, o impacto concreto depende de como se dará a fusão de políticas públicas. Quando duas secretarias se reúnem em uma só, o desafio é manter ou ampliar a capacidade de atendimento, sem criar gargalos burocráticos.

Segredo sobre pastas expõe tensão política

No anúncio, Couto evita revelar quais secretarias estão na mira. Assume, em público, que a escolha tem cálculo político direto.

“Sabemos que algumas secretarias são vinculadas a deputados. Então, se eu divulgar agora uma ou outra pasta, amanhã eu posso sofrer uma pressão de um ou outro deputado e trazer um desgaste político”, diz o governador em exercício.

O silêncio alimenta especulações dentro do próprio governo e na Alerj. Parlamentares tentam mapear quais áreas correm maior risco de extinção ou fusão e como isso pode redesenhar o mapa de influência sobre a máquina estadual.

A estratégia de Couto é ganhar tempo para negociar. Ao não listar as pastas, ele empurra a disputa para os bastidores, tentando evitar um desgaste público precoce com a base política de apoio e com grupos que hoje controlam estruturas-chave.

No curto prazo, essa opção também permite ao governo ajustar o desenho final do projeto de reestruturação conforme o grau de resistência que encontrar na Assembleia e entre aliados regionais.

Quem ganha, quem perde com a reestruturação

A redução para 22 ou 23 secretarias tende a favorecer o discurso de responsabilidade fiscal. Menos pastas significam, em tese, menos cargos comissionados, menores custos de manutenção e uma cadeia decisória mais curta.

Serviços públicos vinculados às secretarias, porém, podem viver um período de transição turbulenta. Chefias serão reordenadas, equipes deverão ser redistribuídas e fluxos internos, redesenhados. Servidores correm o risco de readequações e transferências, ainda que o governo não fale em cortes de pessoal.

No campo político, deputados que hoje indicam secretários ou ocupam espaços estratégicos podem perder influência. A reconfiguração da máquina reduz o número de cadeiras no primeiro escalão e torna a disputa mais intensa. Grupos com menos acesso direto ao Palácio Guanabara tendem a reagir com mais força.

Entre defensores de uma administração mais eficiente, a movimentação de Couto encontra terreno favorável. A crítica recorrente à “indústria de cargos” e à pulverização de secretarias aparece como justificativa para o plano de enxugamento.

Para a oposição ou para setores atingidos pela perda de estrutura, a narrativa será outra. O risco de prejuízo a políticas específicas e a concentração excessiva de funções em supersecretarias podem alimentar o argumento de que a reforma busca mais controle político do que eficiência.

Legado em disputa para os próximos governos

Com cerca de dois meses restantes no cargo, Ricardo Couto corre contra o relógio para transformar a proposta em realidade. O governo precisa detalhar o projeto de reestruturação, negociar com a Alerj e aprovar as mudanças em tempo hábil para que entrem em vigor de forma organizada.

Se conseguir, o desembargador deixa como marca um novo desenho de governo, que poderá ser mantido ou revertido pelos próximos ocupantes do Palácio Guanabara. O sucesso da medida vai depender de dois fatores centrais: a capacidade de assegurar continuidade de serviços essenciais e a habilidade política para administrar a resistência interna.

A médio e longo prazo, a reorganização do primeiro escalão pode servir de base para redefinir prioridades do estado. Um Executivo mais compacto tende a dar visibilidade maior às áreas preservadas e a exigir escolhas mais claras sobre onde investir recursos escassos.

Enquanto o detalhamento não vem a público, o anúncio de 9 de julho abre uma nova frente de disputa em um governo de tempo limitado, mas com ambição de deixar um rastro estrutural na administração fluminense.

 

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