Governador Interino do RJ, Ricardo Couto corta 4 mil cargos e redesenha poder no Rio

Novo governo do Rio promove grande reestruturação administrativa e busca equilíbrio financeiro.
Redação NC News
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Ricardo Couto, 62, desembargador e presidente do Tribunal de Justiça do Rio, completa pouco mais de 100 dias como governador interino em junho de 2026. Desde que assumiu o Palácio Guanabara, em março, após a renúncia de Cláudio Castro (PL), ele demite mais de 4 mil comissionados, rompe contratos suspeitos e redesenha a relação de forças no estado enquanto espera o Supremo Tribunal Federal decidir quem comandará o governo até 2027.

Um magistrado no lugar do político

A chegada de Couto ao Executivo é produto de um vácuo inédito. Castro renuncia em meio a denúncias que o tornam inelegível. O vice, Thiago Pampolha, também deixa o cargo. O então presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar, afasta-se sob suspeita de ligação com o Comando Vermelho. Sem opções na política, a linha sucessória escorrega até o terceiro nome: o presidente do Tribunal de Justiça.

O desembargador atravessa a Rua Dom Manuel e passa a despachar também no Palácio Guanabara. Revezando-se, como ele próprio relata, entre “café e muito chocolate”, tenta pôr ordem em um governo marcado por escândalos, déficit previsto de R$ 19 bilhões e desconfiança generalizada. “Às vezes, bate ansiedade”, admite.

Couto insiste em se apresentar como alguém de fora do jogo partidário. Reitera que não busca reeleição, nem mandato futuro. “Estou numa fase de passagem de bastão, mas tenho assumido alguns compromissos. Dentre eles, entregar o estado com as contas em dia”, afirma.

Faxina de cargos e contratos

Logo nos primeiros meses, o interino mira o coração da máquina: os cargos comissionados. Em fevereiro de 2026, antes de sua posse, o Rio tinha 15.161 servidores ativos em funções de confiança, a um custo mensal de R$ 75,9 milhões. Em maio, Couto promove a primeira grande leva de demissões: 2.700 comissionados dispensados. Em junho, o número passa de 4 mil exonerados.

O governo calcula economizar ao menos R$ 230 milhões até o fim de 2026. O desembargador diz que a prioridade é cortar indicações políticas sem função real. “Constatamos que muita gente nomeada sem concurso não estava prestando o serviço que era esperado”, relata. Ele admite erros pontuais e renomeações, mas mantém o rumo: “Não quero cometer injustiças, mas sei que estamos na direção certa e vamos reduzir ainda mais o quadro”.

Na saúde, Couto tenta provar que austeridade não significa paralisia. Aponta como vitrine a eliminação da fila da oncologia, mesmo com menos cargos em comissão. Usa o exemplo para rebater o discurso de que os cortes desmontam serviços essenciais.

A faxina alcança também contratos vultosos. Auditorias internas vasculham despesas assinadas na gestão anterior. Em um caso emblemático, o governo encontra um contrato de R$ 50 milhões para cursos on-line de capacitação em comunidades carentes. “Identificamos um contrato em que um profissional recebia 50 milhões de reais por um curso on-line e não havia nem a gravação do material. Pior: alunos inscritos já tinham morrido”, relata Couto. Os achados seguem para o Ministério Público.

Dívida renegociada e alívio no caixa

Enquanto corta despesas, o interino tenta reforçar o lado da receita e reduzir o peso da dívida com a União. Em 22 de junho de 2026, ele se senta com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Brasília, e sai com um novo acordo bilionário.

As parcelas mensais do débito estadual caem de R$ 480 milhões para R$ 120 milhões. O estado se compromete com um aporte de 20% para evitar incidência de juros, em troca de um abatimento estimado em R$ 40 bilhões ao fim do período. Para um caixa pressionado, a diferença é decisiva.

Lula abraça o discurso anticorrupção do magistrado. Em evento público, chama Couto de “interventor” e afirma que “o interino tem a tarefa nobre de acabar com a corrupção no Rio de Janeiro”. O gesto reforça o apoio federal à gestão e isola politicamente parte do grupo ligado a Castro no Congresso e na Alerj.

Couto, por sua vez, promete reverter o déficit de R$ 19 bilhões para um superávit de R$ 5 bilhões, apoiado em cortes, renegociação da dívida e aumento da arrecadação com royalties do petróleo, calculados originalmente com o barril a US$ 59, abaixo do patamar atual. A meta ambiciosa é vista com ceticismo no meio político, mas o interino insiste no cronograma.

Resistência na Alerj e incerteza no STF

O choque com a velha máquina, porém, encontra resistência imediata na Assembleia Legislativa. Enquanto o governo enxuga cargos, cerca de 30 exonerados do Executivo reaparecem nomeados em gabinetes de deputados que integravam a base de Cláudio Castro. Os salários variam de R$ 1.500 a R$ 8.800. O Palácio Guanabara opta pelo silêncio e não comenta as nomeações.

A manobra expõe a disputa de bastidores pelo controle da estrutura estatal. Deputados como Douglas Ruas (PL), atual presidente da Alerj e pré-candidato ao governo, Bruno Dauaire (União Brasil), Gustavo Tutuca (PP) e Anderson Moraes (PL) tentam preservar quadros e influência. Nos corredores, aliados de Couto falam em “captura” de secretarias por grupos parlamentares interessados mais em reeleição do que em política pública.

O desembargador responde prometendo reduzir o número de secretarias, de 32 para 23, para esvaziar feudos e simplificar a gestão. A mudança, ainda em estudo, não avança de imediato para não travar a administração em um mandato tampão.

Acima de tudo, paira a dúvida sobre quanto tempo durará o governo interino. O STF julga a regra de sucessão: se o governador-tampão será eleito diretamente pela população ou indiretamente pela Alerj. O julgamento está suspenso desde 9 de abril de 2026, após pedido de vista do ministro Flávio Dino. Até a retomada, Couto segue sentado numa cadeira sem prazo definido.

Quem ganha e quem perde com a transição

A faxina administrativa atinge principalmente a administração direta e indireta do estado, mexe em rotinas de secretarias e fundações e altera feudos partidários. Para servidores de carreira, a queda de comissionados abre espaço para mais protagonismo técnico e menos interferência política imediata. Para quem vivia de indicações, o cenário é de perda de renda e influência.

Na prática, o alívio nas parcelas da dívida com a União e a economia com gastos de pessoal ampliam a margem para investimentos e pagamento em dia de fornecedores. A população não sente mudanças bruscas no cotidiano, mas a reorganização fiscal tende a refletir nos serviços a médio prazo, se não houver recuo nas medidas.

O futuro, porém, depende menos da planilha e mais da política. Uma eleição indireta na Alerj pode trazer de volta grupos ligados à máquina tradicional, hoje contrariados pelos cortes. Uma eleição direta abriria espaço para candidatos que surfam justamente na onda anticorrupção que sustenta o interino. Enquanto o STF não decide, Ricardo Couto governa como se tivesse prazo curto e missão definida: “acabar” com as distorções que encontrou e entregar o estado, como repete, “com as contas em dia”.

Resta saber se haverá tempo — e apoio político — para levar esse roteiro até o fim.

Quem é Ricardo Couto de Castro?

Ricardo Couto de Castro é desembargador, presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e governador interino do estado desde março de 2026.

Qual a idade do desembargador Ricardo Couto?

Ricardo Couto tem 62 anos.

Quem é o governador em exercício do Rio de Janeiro?

O governador em exercício do Rio de Janeiro é o desembargador Ricardo Couto, que assumiu o cargo em caráter interino após a renúncia de Cláudio Castro.


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