O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), optou por um argumento frágil ao questionar a legitimidade eleitoral das pré-candidatas ao Senado Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede). Segundo o mandatário paulista, as duas não teriam histórico político consolidado no estado e, por isso, não representariam de forma adequada o eleitorado paulista.
A fragilidade da tese salta aos olhos. Tarcísio também não é natural de São Paulo. Nascido no Rio de Janeiro, o governador só migrou politicamente para o estado às vésperas da disputa de 2022, quando recebeu o apoio de Jair Bolsonaro para concorrer ao Palácio dos Bandeirantes. Na ocasião, a oposição explorou exatamente essa fragilidade, chamando o hoje governador de forasteiro e questionando seu próprio domicílio eleitoral, fixado no interior paulista.
A trajetória das pré-candidatas
Simone Tebet construiu carreira em Mato Grosso do Sul, onde foi prefeita, vice-governadora e senadora, antes de deixar o MDB e se filiar ao PSB para disputar uma vaga em São Paulo.
Marina Silva iniciou sua trajetória no Acre, onde ocupou mandatos de vereadora, deputada estadual e senadora, migrando o domicílio eleitoral para São Paulo, onde conquistou uma cadeira de deputada federal.
Reações à declaração
A fala gerou reação imediata. O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), já havia apontado a contradição meses antes, lembrando que o próprio governador não tinha raízes políticas em lugar nenhum antes de aportar em São Paulo.
Marina rebateu, classificando o discurso como reflexo de uma leitura que trata migrantes de forma desigual conforme o gênero, sugerindo que homens vindos de fora costumam receber acolhida bem diferente da reservada às mulheres na mesma condição.
Estratégia política
Por trás da retórica existe um cálculo evidente. O governador articula nos bastidores o fortalecimento de nomes como o deputado Guilherme Derrite e o deputado André do Prado, ambos mirando as duas vagas do Senado paulista.
Atacar a legitimidade das concorrentes funciona como estratégia de coesão de bloco, mesmo quando o argumento escolhido não resiste a um exame.
O histórico do eleitor paulista
O episódio expõe um traço recorrente da política brasileira: o uso da naturalidade como munição discursiva, independentemente de sua relevância real para o resultado das urnas.
São Paulo tem histórico de eleger quem não nasceu no estado, e seu eleitorado, um dos mais heterogêneos do país, formado por sucessivas levas de migrantes de todas as regiões, tende a reagir mal a discursos que soam excludentes.
Um debate que vai além de São Paulo
O caso ecoa, guardadas as proporções, discussões que também atravessam o ambiente político de outros estados, como o Amazonas, por exemplo. O ex-governador Wilson Lima, nascido em Itaituba, no Pará, comandou o Amazonas por dois mandatos consecutivos sem vínculo de origem com o estado, prova de que a naturalidade não é pré-requisito para construir hegemonia eleitoral.
A régua usada para julgar candidatos de fora costuma ser aplicada de forma seletiva, conforme convém ao discurso do momento.
O impacto na pré-campanha
Resta saber se o desgaste gerado pela fala vai se refletir no comportamento do eleitorado paulista nas próximas semanas de pré-campanha ou se ficará restrito ao ruído natural dos bastidores da disputa.