A empresa de Deltan Dallagnol, ex-procurador cassado pelo TSE, recebe desde setembro de 2023 mais de R$ 300 mil do Partido Novo, pagos com dinheiro do fundo partidário. Os valores bancam a atuação do ex-deputado como embaixador nacional da legenda.
Contrato transforma salário em serviço de propaganda
O arranjo financeiro ganha relevância num momento em que o uso de recursos públicos por partidos volta ao centro do debate eleitoral. O caso envolve um personagem que constrói sua trajetória política com discurso de combate à corrupção e de rigor no gasto com dinheiro do contribuinte.
Após a cassação do mandato de Dallagnol em maio de 2023, por infração à Lei da Ficha Limpa, o Novo passa a remunerá-lo diretamente como funcionário. No ano seguinte, a relação é formalizada por meio de um contrato de prestação de serviços entre o partido e a Comply Aperfeiçoamento Profissional, empresa da família do ex-procurador.
O contrato prevê remuneração mensal de R$ 42,5 mil, bancada com recursos do fundo partidário destinados à rubrica de propaganda e publicidade. Dados do Tribunal Superior Eleitoral registram apenas em 2025 o pagamento de R$ 382 mil à Comply, lançados como gastos de comunicação do partido.
A empresa é aberta em julho de 2021, quando Dallagnol ainda integra o Ministério Público Federal. Tem como sócios o ex-procurador, a mulher e os filhos. Desde a cassação, a estrutura se torna o canal formal de sua relação remunerada com o partido.
Partido diz que objetivo é crescer e formar lideranças
O Novo afirma que a contratação se insere na estratégia de ampliar a presença nacional da legenda, atrair novos filiados e investir em formação política. Em nota, o partido sustenta que “Deltan é contratado para o cargo de Embaixador do Novo, e tem como principal função desenvolver campanhas de comunicação e marketing, visando divulgar o partido, engajar as bases e trazer novos filiados”.
A assessoria de Dallagnol dá uma definição semelhante do trabalho. Segundo o grupo, ele “atua desde setembro de 2023 como embaixador nacional do Partido Novo, em função voltada ao fortalecimento institucional da legenda, à difusão de seus ideais e causas, à formação de novas lideranças comprometidas com a renovação da política brasileira, ao desenvolvimento de programas e cursos partidários e à ampliação do quadro de filiados”.
O presidente do Novo, Eduardo Ribeiro, vai além e apresenta Dallagnol como peça central da reestruturação da legenda. “Deltan Dallagnol foi uma das escolhas mais acertadas da história do Partido Novo. Desde setembro de 2023, atuou como Embaixador do partido, inicialmente como pessoa física e, posteriormente, por meio de pessoa jurídica”, afirma.
As declarações miram um público que acompanha de perto a discussão sobre de onde vem o dinheiro do fundo partidário, quem tem direito a ele e para que serve. Na prática, o fundo é abastecido por recursos do Orçamento federal e distribuído aos partidos conforme o desempenho eleitoral e a representação no Congresso.
Fundo partidário, marketing e avanço nas filiações
O uso de verbas públicas de comunicação para pagar uma empresa ligada a um quadro de destaque não é ilegal em si, desde que os serviços sejam efetivamente prestados e declarados. Mas a associação entre dinheiro público, uma figura controversa e um contrato robusto tende a acender alertas de órgãos de controle e do eleitorado.
O fundo partidário é um dos principais instrumentos de financiamento da atividade cotidiana dos partidos. Pode ser usado para manutenção de sedes, pessoal, contabilidade, formação política e propaganda. Não se confunde com o fundo eleitoral, que banca diretamente campanhas em períodos de eleição.
A pergunta “fundo partidário, o que é e como funciona?” volta a circular sempre que vêm à tona contratos milionários com serviços de marketing e consultoria. O caso da Comply se insere nesse cenário, em que o mercado de comunicação política se alimenta de verbas públicas geridas por dirigentes partidários.
Do ponto de vista do Novo, a aposta em Dallagnol mostra resultados concretos. Ribeiro afirma que “quando Deltan chegou, o Novo tinha 34.421 filiados. Em julho de 2026, alcançamos 81.755 filiados, um crescimento de 137,5%. Já em seu primeiro mês de atuação, o partido registrou 1.720 novas filiações, o melhor resultado mensal desde junho de 2019”.
O presidente da legenda credita ao ex-procurador boa parte desse movimento. Segundo ele, “Deltan ajudou o Novo a crescer, alcançar novos públicos e fortalecer sua presença em todo o Brasil”. Na leitura da cúpula, o investimento em campanhas de comunicação lideradas pelo embaixador se converte em aumento de base e de influência política.
Benefícios, riscos e a disputa de 2026
O arranjo beneficia diretamente dois atores. O partido amplia sua rede de apoiadores e consolida um rosto nacional para suas bandeiras. Dallagnol, por sua vez, mantém protagonismo político, reforça sua visibilidade após a cassação e assegura uma fonte de renda estável por meio da empresa familiar.
A conta recai sobre o fundo partidário, que é financiado pelo contribuinte. Perguntas como “quem paga o fundo partidário” e “quem criou o fundo partidário” ganham nova carga política em casos como esse. O mecanismo existe desde a década de 1960 e é sucessivamente remodelado por leis e decisões do Congresso e da Justiça, sempre em meio a disputas sobre o volume de recursos e os critérios de uso.
Enquanto o Novo exibe o salto nas filiações, adversários tendem a explorar o desgaste associado ao uso de dinheiro público para fortalecer um pré-candidato já impedido de exercer mandato eletivo em 2023. Dallagnol se apresenta agora como pré-candidato ao Senado em 2026, em um cenário em que as cifras do fundo partidário projetadas para o ciclo eleitoral voltam ao debate, inclusive o valor total previsto para 2026.
O caso deve alimentar pedidos de maior transparência nos contratos firmados com recursos do fundo e de revisão de limites para negócios entre partidos e empresas ligadas a dirigentes ou figuras de destaque. Eventual escrutínio da Justiça Eleitoral, da mídia e de entidades da sociedade civil pode definir se o contrato da Comply se mantém como modelo de estratégia bem-sucedida de expansão partidária ou se entra para a lista de exemplos que impulsionam mudanças nas regras de financiamento.
A disputa de 2026 testará o alcance dessa estratégia. Se os números de filiação se converterem em votos e mandatos, o Novo reforça o argumento de que usar o fundo partidário em marketing agressivo compensa politicamente. Se o desgaste com a percepção de privilégio e conflito de interesse falar mais alto, a pressão por novas amarras legais deve aumentar.
O que é o fundo partidário?
É um fundo público, abastecido principalmente com recursos do Orçamento federal, destinado a financiar a estrutura e as atividades permanentes dos partidos políticos, como manutenção, pessoal, formação e propaganda.
Quem paga o fundo partidário?
Os recursos vêm do Tesouro Nacional, ou seja, do dinheiro arrecadado pela União com impostos, taxas e outras receitas públicas, além de multas eleitorais.
Para que serve o fundo partidário?
Serve para custear o funcionamento cotidiano das legendas, incluindo gastos com sedes, funcionários, contabilidade, comunicação, propaganda partidária e programas de formação política.