A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) decide, em 12 de julho de 2026, deixar a equipe que prepara o plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ela alega ataques misóginos, ofensas e ameaças nas redes sociais, feitos por aliados do próprio pré-candidato à Presidência.
Crise familiar explode em disputa partidária
A saída ocorre em meio à pior crise recente no entorno do bolsonarismo. Em 24 de junho de 2026, Michelle Bolsonaro publica vídeos em que afirma ter sido “apunhalada” e humilhada por Flávio. A ex-primeira-dama anuncia que deixa a presidência do PL Mulher e abre mão do salário de R$ 46.366,19 pago pelo partido.
O rompimento público entre Michelle e o enteado abre uma disputa interna no PL e reorganiza forças no campo conservador. Damares, que transita entre os dois grupos, vira alvo de hostilidades na internet a partir de 1º de julho. A senadora fala em “violência política” e relata ameaças à própria filha, uma menina indígena.
A escalada digital expõe o racha no partido às vésperas da eleição presidencial de 2026. Com a crise, o núcleo bolsonarista se divide entre os que se alinham a Michelle, símbolo eleitoral forte desde o governo Jair Bolsonaro, e os que cercam Flávio, hoje aposta do PL para voltar ao Planalto.
Dos bastidores do plano de governo ao rompimento
Damares havia sido convidada para comandar a área de direitos humanos na elaboração do programa de governo de Flávio Bolsonaro. Ex-ministra dessa pasta no governo Jair Bolsonaro, ela leva ao projeto a credencial de pastora evangélica, militante antiaborto e referência para o eleitorado religioso conservador.
Nos bastidores, sua participação é vista como uma forma de dar verniz técnico e apelo eleitoral a um dos pontos mais sensíveis de qualquer campanha presidencial: a pauta de direitos humanos, frequentemente associada a temas como violência de gênero, minorias e proteção de povos indígenas.
O ambiente muda quando o blogueiro bolsonarista Oswaldo Eustáquio, pré-candidato a deputado federal pelo PL no Paraná, passa a atacá-la em redes sociais. Segundo relato da própria senadora, ele afirma que ela seria “amante de pastor” e “feminista”. As mensagens disparam uma onda de xingamentos e ameaças virtuais.
Damares diz que os ataques atravessam qualquer limite político. “Essa semana eu tenho sido vítima dos mais terríveis ataques (…) Disseram que vão matar minha filha. Inclusive eles fazem imagens de como vão matar a minha filha”, relata, em reunião da Comissão de Direitos Humanos do Senado, que ela preside.
Ela descreve montagens em que sua filha aparece empalada e decapitada. “É uma violência política que a gente não consegue imaginar”, afirma. O caso acende um alerta entre senadoras, que passam a discutir medidas institucionais contra episódios desse tipo, independentemente de queixa formal das vítimas.
Silêncio de Flávio e recado público
Ao anunciar a decisão de deixar o grupo que desenha o plano de governo, Damares envia um recado calculado: reafirma apoio ao projeto político, mas se afasta do desgaste imediato. “Já fiz o que era preciso no 1º momento. Depois a gente volta a ajudar no governo de transição”, diz ao Metrópoles.
A frase associa sua imagem a uma eventual vitória de Flávio, mas marca uma linha vermelha diante da violência sofrida. A senadora enfatiza que não foi procurada pelo pré-candidato desde o início da crise com Michelle. “Ele está correndo”, resume, ao comentar a ausência de contato.
O distanciamento intriga aliados no Congresso. A leitura entre parlamentares é que Flávio tenta atravessar o conflito sem se indispor com nenhuma das duas figuras femininas de maior apelo no bolsonarismo hoje: Michelle, ainda popular entre eleitores, e Damares, que conserva forte ligação com bases evangélicas.
Vácuo na pauta de direitos humanos e desgaste eleitoral
A saída de Damares deixa um vácuo imediato na área de direitos humanos do projeto de Flávio Bolsonaro. A senadora era uma das poucas figuras do entorno do pré-candidato com experiência concreta nessa seara e visibilidade nacional. Sem ela, o grupo perde uma voz capaz de dialogar com o eleitorado conservador sobre temas como proteção à infância, combate à violência sexual e políticas para povos tradicionais.
O episódio também reforça a percepção de fragmentação no PL. O partido, que tenta se vender como principal polo oposicionista nas eleições de 2026, agora precisa administrar ataques internos, vindos da própria base digital, contra uma de suas principais senadoras. O risco é que a imagem de radicalização e misoginia afugente parte do público feminino e de segmentos moderados.
Enquanto isso, figuras como Oswaldo Eustáquio ganham espaço entre nichos mais radicais, mas ampliam o desgaste da marca bolsonarista fora da bolha ideológica. A exposição das ameaças à filha de Damares provoca reação negativa entre organizações de direitos humanos e grupos que monitoram violência política.
Para Damares, o recuo é apresentado como uma pausa estratégica, não como rompimento definitivo com o projeto de Flávio. Ela insiste que pode contribuir em outra etapa. Para o PL, porém, o episódio é um teste de capacidade de comando: ou o partido consegue impor limites ao próprio aparato digital, ou verá novas lideranças se afastarem sob pressão.
Próximos passos sob pressão das redes
Com a confirmação da saída, a campanha de Flávio Bolsonaro precisa recompor a equipe de direitos humanos em um cenário já contaminado por ataques pessoais e disputa familiar. A crise se instala a pouco mais de três meses da eleição presidencial, quando campanhas costumam consolidar programas e buscar alianças.
Dirigentes partidários avaliam, nos bastidores, a necessidade de códigos internos de conduta para militantes digitais, ao menos no período eleitoral. Os episódios recentes alimentam pressões para maior regulação do discurso político nas redes e para punições mais rápidas a ameaças e incitações à violência.
Damares, por sua vez, preserva capital político próprio ao se colocar como possível nome para uma futura transição presidencial, caso Flávio chegue ao Planalto. A resposta de eleitores e do PL aos ataques que a afastaram da campanha ajudará a definir se o partido conseguirá manter coesão em torno de seu candidato ou se o racha aberto por Michelle aprofundará a fragmentação da direita nas urnas.
O que levou Damares Alves a deixar a equipe do plano de governo de Flávio Bolsonaro?
Damares decidiu sair após sofrer ataques misóginos, ofensas pessoais e ameaças contra sua filha, feitas por aliados bolsonaristas nas redes sociais, em meio ao racha entre Michelle e Flávio Bolsonaro.
Quais ataques Damares Alves sofreu que motivaram sua saída do plano de governo de Flávio Bolsonaro?
Ela relatou xingamentos e campanhas de ódio online, incluindo ofensas de Oswaldo Eustáquio, que disse que ela seria “amante de pastor” e “feminista”, além de ameaças de morte à filha indígena.
Qual era o papel de Damares Alves na equipe do plano de governo de Flávio Bolsonaro?
Damares foi convidada para formular a área de direitos humanos do programa de governo, usando sua experiência como ex-ministra e referência para o eleitorado conservador e evangélico.
Damares Alves pretende continuar atuando na política após deixar o plano de governo de Flávio Bolsonaro?
Sim. Ela afirma que “já fez o que era preciso no 1º momento” e diz que pode voltar a ajudar em um eventual governo de transição, caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidente.
Quem é Damares Alves e qual sua relação com Flávio Bolsonaro?
Damares Alves é senadora pelo Distrito Federal, filiada ao Republicanos, e ex-ministra de Direitos Humanos do governo Jair Bolsonaro. Ela se aproxima de Flávio como aliada política e foi chamada para contribuir com o plano de governo presidencial do senador do PL.
Damares Alves já foi ministra antes de participar do plano de governo de Flávio Bolsonaro?
Já. Damares foi ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos no governo Jair Bolsonaro, função que a projetou nacionalmente entre eleitores conservadores e religiosos.