Emmanuel Macron preside nesta terça-feira (14) seu último desfile de 14 de julho na Champs-Élysées, em Paris, em meio a um aparato militar reforçado e forte simbolismo político. A França celebra o feriado nacional com homenagens aos dez anos do atentado de Nice, demonstração de apoio à Ucrânia e ênfase no rearmamento do país e da Europa.
Segurança máxima e acesso por QR Code
As comemorações começaram na véspera, com fogos de artifício que iluminam a Torre Eiffel, mas o clima é mais solene do que festivo. A guerra na Ucrânia, as incertezas sobre o papel dos Estados Unidos na defesa europeia e a memória de 2016 atravessam a data que lembra a queda da Bastilha.
O controle de acesso ao desfile expõe a tensão entre segurança e liberdades civis. Só entra na avenida quem apresenta um QR Code obtido previamente em plataforma da polícia de Paris. A exigência é contestada na Justiça por associações que veem excesso de vigilância. O Tribunal Administrativo de Paris chega a suspender a medida, mas o Conselho de Estado a restabelece durante a madrugada, em decisão de emergência. Para a mais alta corte administrativa, prevalece o interesse público ligado à segurança e à proteção dos 24 chefes de Estado e de governo estrangeiros presentes.
Esse endurecimento se apoia na memória recente de atentados e no risco elevado em torno de autoridades europeias reunidas em um mesmo ponto da capital. O debate sobre até onde o Estado pode ir em nome da proteção coletiva, porém, permanece aberto e tende a se intensificar após a festa nacional.
Mostruário do rearmamento francês
O desfile de 2026 tem um formato pensado para ser lido como demonstração de força. Segundo o Eliseu, a cerimônia busca ilustrar “o rearmamento da França, a autonomia estratégica francesa e o despertar estratégico europeu”.
Na avenida, cerca de 6.700 militares desfilam a pé. Sobre eles, um céu tomado por 98 aeronaves e 31 helicópteros. No asfalto, 315 veículos militares compõem o maior dispositivo dos últimos anos, exibindo blindados, sistemas antiaéreos e equipamentos recém-incorporados pelas Forças Armadas. Também recebem destaque os militares franceses destacados no flanco leste da Otan, sobretudo na Estônia e na Romênia, além da Marinha, que celebra 400 anos em 2026.
O desfile funciona como balanço político do mandato de Macron na área de defesa. Desde 2017, o orçamento militar praticamente dobra. A atual lei de programação prevê investimentos de €436 bilhões entre 2024 e 2030, €36 bilhões a mais do que o projetado inicialmente. O movimento alimenta a indústria de defesa, gera encomendas de longo prazo e sinaliza que, mesmo com pressões orçamentárias internas, o país mantém a prioridade na área militar.
Na véspera, Macron afirma que a França e a Europa precisam estar preparadas para defender a liberdade e o direito internacional “inclusive ao preço do sangue, se necessário”. O tom direto reforça a mensagem de que a dissuasão militar volta ao centro da política europeia.
Ucrânia no centro da cena
A presença de Volodymyr Zelensky transforma o 14 de julho em ato de afirmação da solidariedade europeia com Kiev. Ao lado do presidente ucraniano, Macron recebe 24 líderes europeus, entre eles o chanceler alemão Friedrich Merz, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer, o premiê polonês Donald Tusk e a chefe de governo dinamarquesa Mette Frederiksen.
Na avenida, cerca de 500 militares da chamada coalizão dos voluntários, liderada por França e Reino Unido e composta majoritariamente por países europeus, desfilam lado a lado com 25 soldados ucranianos. A coalizão já se compromete a manter o fornecimento de armas e munições a Kiev e admite, para depois de um eventual cessar-fogo, enviar tropas ao território ucraniano para impedir novas ofensivas russas.
O apoio não é apenas simbólico. O desfile aéreo se abre com a Patrouille de France e a inédita participação de caças Mirage 2000 franceses com copilotos ucranianos treinados em bases francesas. Aviões de dez países europeus compõem a formação, em uma coreografia pensada para mostrar interoperabilidade e integração operacional crescente das forças do continente.
O recado é dirigido tanto a Moscou quanto a Washington. Ao exibir essa coordenação, a Europa busca mostrar que pode assumir mais responsabilidades em sua própria defesa, diante das dúvidas sobre o engajamento norte-americano a médio prazo.
Nice, dez anos depois
Longe de Paris, a Riviera Francesa marca o 14 de julho com outro tom. Em Nice, cerimônias lembram os dez anos do ataque de 2016, quando o tunisiano Mohamed Lahouaiej-Bouhlel avançou com um caminhão de 19 toneladas sobre a multidão reunida no Passeio dos Ingleses. O veículo atravessa a orla durante os fogos do feriado nacional, matando 86 pessoas e ferindo 458. O ataque, que “deixou 86 mortos e 458 feridos, tornando-se um dos episódios mais traumáticos da história recente do país”, segue como referência dolorosa nas políticas de segurança francesas.
Ao longo do dia, autoridades, familiares e sobreviventes se reúnem para homenagens, orações e minutos de silêncio. À noite, 2.016 drones sobrevoam o Passeio dos Ingleses em um espetáculo que promete evocar memória e unidade nacional. Exatamente às 22h34, horário em que o caminhão é detido pela polícia em 2016, 86 feixes de luz azul cortam o céu em tributo às vítimas.
A lembrança de Nice também ecoa fora da França. Em Arlington, no Texas, jogadores e torcedores franceses observam um minuto de silêncio antes da semifinal do Mundial de Seleções contra a Espanha, atendendo a pedido de Paris. “Nunca esqueceremos”, escreve Macron nas redes sociais ao agradecer à organização do torneio.
Europa mais armada, debate mais intenso
O 14 de julho de 2026 cristaliza um movimento mais amplo: o despertar estratégico europeu. A França se coloca no centro desse processo, aumentando gastos militares, liderando coalizões e testando novos mecanismos de segurança interna como o controle via QR Code.
Na prática, a indústria de defesa ganha fôlego com contratos bilionários previstos até 2030, enquanto Exército, Marinha e Força Aérea renovam equipamentos, ampliam efetivos e ajustam doutrinas a cenários de conflito de alta intensidade. A coalizão dos voluntários se torna vitrine de uma cooperação que vai além da Otan, com países europeus buscando mais autonomia na definição de ameaças e respostas.
O outro lado desse fortalecimento é o debate sobre direitos civis. Medidas excepcionais de segurança, justificadas por risco terrorista e pela presença de líderes estrangeiros, podem se tornar rotina? Até que ponto a vigilância digital, como o QR Code de acesso à Champs-Élysées, muda a relação dos cidadãos com o espaço público?
As respostas ainda não estão dadas. O próximo governo francês herdará um orçamento de defesa em alta, alianças militares intensificadas e uma sociedade marcada tanto pelo medo do terrorismo quanto pela desconfiança em relação ao controle estatal. O 14 de julho de 2026 encerra um ciclo macronista na defesa, mas abre uma fase em que a França, e a Europa, precisarão provar que conseguem equilibrar força militar, memória das vítimas e preservação das liberdades.