Poucos lugares conseguem reunir, em um mesmo cenário, arquitetura, arte, paisagismo, fé, esporte, cultura, lazer e natureza. Em Belo Horizonte, esse encontro acontece às margens da Lagoa da Pampulha, um dos cartões-postais mais conhecidos do Brasil e um símbolo da identidade da capital mineira.
Quem passa pela orla dificilmente resiste à tentação de diminuir o passo. Uns estacionam o carro para fazer uma fotografia. Outros preferem caminhar sem pressa, admirando o reflexo da Igreja São Francisco de Assis sobre a água. Há quem escolha um banco para contemplar a paisagem, enquanto corredores, ciclistas e famílias dividem espaço com turistas vindos de diferentes partes do país e até do exterior.
Mais do que um ponto turístico, a Pampulha é um lugar que desperta sentimentos. É cenário de pedidos de casamento, ensaios fotográficos, encontros entre amigos, passeios em família e lembranças que atravessam gerações. Para muitos belo-horizontinos, ela faz parte da rotina. Para quem chega de fora, costuma ser o primeiro capítulo da história que será escrita na capital mineira.
Foi exatamente essa experiência que viveu a professora Jéssica Faria, moradora de Cariacica, no Espírito Santo. Em sua primeira viagem a Belo Horizonte, ela não teve dúvidas sobre qual seria o primeiro destino. Antes mesmo de conhecer o Mercado Central, a Praça da Liberdade ou os tradicionais bares da cidade, ela escolheu visitar a Pampulha.
“Eu e minha amiga somos professoras e adoramos estes lugares históricos e com grande potencial para ensinar, por isso eu sempre via fotos pela internet e ficava encantada. Ao chegar aqui, é ainda mais bonito. A gente entende por que esse lugar é tão famoso”, conta.
A história de Jéssica se repete diariamente. Casais, famílias, grupos de estudantes, fotógrafos, atletas e turistas desembarcam na Pampulha para conhecer um dos mais importantes conjuntos arquitetônicos do século XX. Muitos chegam motivados justamente pelo reconhecimento internacional conquistado há dez anos.
Nesta sexta-feira, 17 de julho, o Conjunto Moderno da Pampulha celebra uma década desde que foi reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO, um título reservado a locais considerados de valor universal excepcional para toda a humanidade.
Muito mais do que uma homenagem, o reconhecimento colocou Belo Horizonte definitivamente no mapa mundial do patrimônio cultural e inseriu a cidade em um grupo extremamente seleto de lugares protegidos por sua importância histórica, artística e arquitetônica.
Uma ideia ousada que mudou a história de Belo Horizonte
Para entender por que a Pampulha se tornou um patrimônio da humanidade, é preciso voltar mais de oito décadas no tempo. No início da década de 1940, Belo Horizonte ainda era uma cidade jovem. Planejada para ser a nova capital de Minas Gerais, buscava consolidar sua identidade e projetar uma imagem moderna para o país.
Foi quando o então prefeito Juscelino Kubitschek decidiu apostar em um projeto considerado revolucionário para a época. Ao redor da Lagoa da Pampulha, um reservatório artificial criado alguns anos antes para auxiliar no abastecimento de água da cidade, JK imaginou um complexo de lazer, cultura e convivência que representasse um novo momento da arquitetura brasileira.

Para transformar esse sonho em realidade, convidou um jovem arquiteto que começava a chamar a atenção do país: Oscar Niemeyer. A ele se juntaram alguns dos maiores artistas brasileiros do século XX. O paisagismo ficou sob responsabilidade de Roberto Burle Marx, considerado um dos maiores paisagistas da história. Os painéis em azulejo e diversas obras de arte levaram a assinatura do pintor Cândido Portinari. As esculturas foram produzidas por Alfredo Ceschiatti, enquanto projetos de engenharia tiveram participação de Joaquim Cardozo, outro nome fundamental da arquitetura moderna brasileira.O resultado foi algo que o mundo jamais havia visto.
Linhas curvas substituíram os tradicionais ângulos retos. O concreto ganhou leveza. A arquitetura passou a dialogar com a água, com os jardins e com a paisagem natural da lagoa. Décadas depois, especialistas internacionais reconheceriam que aquele conjunto marcou o nascimento de uma arquitetura genuinamente brasileira, rompendo com modelos europeus e inaugurando uma linguagem própria, moderna e inovadora.
Muito além da famosa igrejinha
Embora a Igreja São Francisco de Assis seja a imagem mais conhecida da Pampulha, o patrimônio reconhecido pela UNESCO vai muito além dela.
O título internacional contempla quatro edifícios projetados por Oscar Niemeyer. O primeiro é justamente o Santuário Arquidiocesano São Francisco de Assis, popularmente chamado de Igrejinha da Pampulha, famoso pelas curvas marcantes e pelo gigantesco painel em azulejos azuis de Cândido Portinari.
Também fazem parte do conjunto o Museu de Arte da Pampulha (MAP), instalado no antigo Cassino da Pampulha; a elegante Casa do Baile, construída sobre uma pequena ilha ligada por uma ponte; e o Iate Tênis Clube, concebido como espaço esportivo e de convivência às margens da lagoa.
Mas a experiência da Pampulha não termina nesses edifícios. A paisagem cultural reconhecida internacionalmente inclui ainda os jardins concebidos por Burle Marx, duas praças integradas ao conjunto arquitetônico e a Casa Kubitschek, antiga residência de fim de semana de Juscelino Kubitschek, hoje transformada em museu administrado pela Fundação Municipal de Cultura.
É justamente essa integração entre arquitetura, arte, paisagismo e natureza que torna a Pampulha única no mundo e explica por que ela recebeu um dos mais importantes reconhecimentos concedidos pela UNESCO.
Dez anos depois, um novo olhar sobre a Pampulha
Quando a UNESCO anunciou, em 17 de julho de 2016, que o Conjunto Moderno da Pampulha passaria a integrar a lista de Patrimônios Mundiais, o reconhecimento ultrapassou as fronteiras de Belo Horizonte. A partir daquele momento, um dos maiores símbolos da capital mineira passou a dividir espaço com monumentos e paisagens consideradas de valor universal excepcional para a humanidade.
Mas o impacto do título não ficou restrito ao prestígio internacional. Ao longo da última década, a Pampulha passou por um processo de redescoberta. Se antes muitos belo-horizontinos enxergavam a região apenas como um espaço para caminhadas, passeios de bicicleta ou visitas ocasionais à igrejinha, hoje cresce a percepção de que ali existe um patrimônio cultural que pertence não apenas aos mineiros, mas ao mundo.

Esse processo, segundo a gerente do Conjunto Moderno da Pampulha, Janaína França, começou antes mesmo da conquista do título. Segundo ela, a própria candidatura já despertou um novo olhar sobre a importância da Pampulha e sobre a necessidade de preservar um conjunto arquitetônico que representa um marco da arquitetura moderna mundial.
“A partir do momento em que lançamos a candidatura, a Pampulha começou a ganhar mais visibilidade. Não apenas pela possibilidade de receber um reconhecimento internacional, mas também pelas discussões sobre gestão, preservação e valorização desse patrimônio. O poder público passou a olhar esse espaço de outra maneira e a sociedade também começou a compreender melhor sua importância”, explica.
Para Janaína, um dos maiores ganhos desses dez anos foi justamente a apropriação da Pampulha pela própria população. Ela conta que, ao longo da última década, aumentou o número de pessoas que visitam o conjunto interessadas em conhecer sua história e entender por que aquelas construções são consideradas únicas.
“O mais bonito é perceber que as pessoas passaram a se perguntar por que a Pampulha é Patrimônio Mundial. O que significa esse valor universal excepcional? O que faz desse conjunto algo tão especial? Até mesmo muitos moradores de Belo Horizonte ainda estão descobrindo essa história. É um processo de construção de conhecimento e pertencimento.”
Esse movimento também trouxe um efeito prático: quanto maior o conhecimento sobre o patrimônio, maior a cobrança da sociedade pela sua preservação. Segundo a gestora, visitantes e moradores passaram a acompanhar mais de perto as decisões relacionadas à conservação dos espaços, aos investimentos públicos e aos desafios enfrentados pelo conjunto arquitetônico.
“A população se apropriou desse discurso. Hoje ela cobra mais, acompanha mais e participa mais. Isso é extremamente positivo, porque preservar um patrimônio mundial não é responsabilidade apenas do poder público. É um compromisso coletivo.”
Uma obra que estava décadas à frente do seu tempo
O reconhecimento da UNESCO também ajudou a apresentar ao mundo aquilo que arquitetos e historiadores da arte já afirmavam há décadas: a Pampulha foi o ponto de partida para uma arquitetura autenticamente brasileira. Para Janaína França, o conjunto representa uma ruptura com os padrões arquitetônicos existentes na década de 1940.
“O mundo passou a olhar para a Pampulha de uma forma diferente porque ela marca o início de uma arquitetura genuinamente brasileira. Ela estava muito à frente do seu tempo.”, conta
Segundo a gerente, basta imaginar o contexto histórico para compreender a dimensão do projeto.
Quando Oscar Niemeyer desenhou as curvas da Igreja São Francisco, da Casa do Baile, do antigo Cassino e do Iate Tênis Clube, o Brasil ainda vivia uma realidade completamente diferente da atual. Mesmo assim, o arquiteto propôs edifícios que até hoje impressionam pela ousadia. Se alguém apresentasse hoje um projeto como a Pampulha, ele ainda seria considerado moderno. Imagine isso há mais de 80 anos. Era algo absolutamente revolucionário.
Ela explica que o reconhecimento internacional nunca encontrou resistência entre especialistas responsáveis por avaliar a candidatura brasileira. Segundo Janaína, os argumentos apresentados por arquitetos, historiadores e pelo governo brasileiro sempre foram muito bem recebidos pelos organismos internacionais de preservação.
“A Pampulha sempre foi vista como uma referência. Nunca houve dúvidas sobre sua importância para a história da arquitetura mundial.”
Muito mais do que edifícios
Embora Oscar Niemeyer seja o nome mais lembrado quando se fala na Pampulha, Janaína destaca que o verdadeiro patrimônio está na integração entre diferentes formas de arte. O conjunto não é formado apenas pelos edifícios, o que faz a Pampulha ser única é justamente a união entre arquitetura, paisagismo, obras de arte e natureza.
Os jardins criados por Roberto Burle Marx dialogam com as construções de Niemeyer. Os painéis em azulejo de Cândido Portinari transformam a Igreja São Francisco em uma verdadeira obra de arte a céu aberto. As esculturas de Alfredo Ceschiatti completam uma paisagem cuidadosamente planejada para que nenhum elemento existisse de forma isolada. Para Janaína, essa integração faz da Pampulha uma experiência única para quem a visita.
“Existe a obra criada pela mão humana e existe também a natureza, que emoldura toda essa paisagem. É essa combinação que torna a Pampulha tão especial.”
Ela também faz questão de lembrar que nada disso teria acontecido sem a visão ousada de Juscelino Kubitschek.
“A coragem de JK de apostar em um projeto tão inovador, somada ao talento de Oscar Niemeyer e de artistas como Burle Marx, Portinari, Alfredo Ceschiatti e Joaquim Cardozo, deu origem a um patrimônio que hoje pertence à humanidade.”
O resultado dessa parceria transformou a Pampulha em muito mais do que um conjunto arquitetônico.
Ela se tornou uma referência cultural, um espaço de lazer, um parque urbano, um polo turístico e um dos principais símbolos da identidade de Belo Horizonte.
Dez anos depois do reconhecimento da UNESCO, essa história continua sendo escrita todos os dias por moradores, turistas e milhares de pessoas que encontram na Pampulha um lugar onde arte, natureza e arquitetura convivem em perfeita harmonia.
Turismo em alta e uma Pampulha cada vez mais viva
Os reflexos do reconhecimento internacional também podem ser percebidos no movimento diário da orla. Basta caminhar pela Pampulha em um fim de semana para encontrar turistas fotografando a Igrejinha de São Francisco de Assis, famílias pedalando pela ciclovia, corredores aproveitando a vista da lagoa e visitantes fazendo fila para conhecer a Casa do Baile ou o Museu Casa Kubitschek.

Embora não exista um sistema permanente de contagem de visitantes ao longo de toda a orla, a Prefeitura de Belo Horizonte já conseguiu medir a dimensão desse fluxo.
Segundo Janaína França, um estudo realizado no ano passado utilizou dados anonimizados de telefonia móvel, com sensores instalados em três pontos estratégicos da Pampulha, para mapear a circulação de pessoas na região.
O levantamento apontou que cerca de 200 mil pessoas passam pela orla todos os meses, entre moradores de Belo Horizonte, visitantes da Região Metropolitana e turistas de outras cidades, estados e países. O número ajuda a explicar por que a Pampulha deixou de ser apenas um cartão-postal para se consolidar como um dos principais espaços públicos da capital mineira.
Mais do que visitar os monumentos, quem chega ao local encontra uma região que reúne lazer, esporte, gastronomia, cultura e contato com a natureza em um único passeio.
A porta de entrada de Belo Horizonte
Essa percepção também aparece na mais recente pesquisa realizada pelo Observatório do Turismo de Belo Horizonte, ligado à Belotur. O estudo mostra que a Pampulha vem se consolidando como um dos principais motivos para a visita à capital mineira.
Quase 44% dos turistas afirmaram que o título de Patrimônio Mundial da UNESCO influenciou diretamente a decisão de conhecer a Pampulha. Além disso, mais da metade dos entrevistados já sabia, antes mesmo da viagem, que o conjunto arquitetônico possuía reconhecimento internacional.
Os dados mostram que o selo da UNESCO deixou de ser apenas um título honorífico e passou a funcionar como um importante atrativo turístico.
A pesquisa também revela que a maioria dos visitantes chega de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Em geral, são turistas com alto nível de escolaridade e poder de consumo acima da média, permanecendo cerca de quatro dias e meio em Belo Horizonte.
Depois de conhecer a Pampulha, quase 80% seguem visitando outros pontos turísticos da cidade, como o Mercado Central, a Praça da Liberdade, o Circuito Liberdade e o Mercado Novo. Na prática, a Pampulha tornou-se a grande vitrine de Belo Horizonte, é ela quem apresenta a cidade para milhares de visitantes todos os anos.
Patrimônio que também movimenta a economia
O crescimento do turismo trouxe reflexos diretos para quem trabalha na região. Restaurantes passaram a receber mais visitantes de outros estados. Cafeterias, bares, sorveterias, vendedores ambulantes e comerciantes instalados na orla convivem diariamente com um público diversificado, especialmente aos fins de semana e durante as férias escolares.
Segundo a pesquisa da Belotur, cada turista gasta, em média, R$ 1.702 durante a estadia em Belo Horizonte. Desse total, cerca de R$ 183 são gastos apenas na Pampulha, em alimentação, transporte, compras e atividades de lazer. É um dinheiro que circula diretamente na economia local e ajuda a manter pequenos negócios.
Para muitos comerciantes, o turista que chega para fotografar a Igrejinha acaba permanecendo por horas na região, almoçando em restaurantes, comprando artesanato, tomando água de coco ou alugando bicicletas para percorrer a orla. Essa permanência prolongada faz da Pampulha um importante motor econômico para Belo Horizonte.

Um patrimônio que exige compromisso permanente
Mas, ao mesmo tempo em que o título da UNESCO traz visibilidade internacional, ele também aumenta a responsabilidade sobre a preservação do conjunto arquitetônico. Segundo Janaína França, esse talvez seja o maior desafio enfrentado pela cidade ao longo da última década.
“Muitas pessoas imaginam que receber o título seja apenas colocar uma placa ou entrar em uma lista importante. Na verdade, acontece exatamente o contrário. O reconhecimento representa um compromisso internacional assumido pelo município e pelo Estado brasileiro.”
Ela explica que, durante o processo de candidatura, Belo Horizonte apresentou uma série de compromissos relacionados à preservação do patrimônio, à gestão compartilhada, à educação patrimonial e à conservação da paisagem cultural. Essas responsabilidades continuam sendo acompanhadas pela UNESCO mesmo após a conquista do reconhecimento.
“O título não encerra um trabalho. Ele marca o início de uma responsabilidade permanente. Todos os anos existem avaliações, monitoramentos e relatórios que demonstram como esse patrimônio está sendo cuidado.”
Segundo Janaína, esse processo exige diálogo constante entre diferentes setores da administração pública, além da participação da sociedade.
“O patrimônio mundial só faz sentido quando a comunidade também participa da sua preservação. Não basta conservar os edifícios. É preciso cuidar da paisagem, promover educação patrimonial, incentivar o turismo responsável e fortalecer o sentimento de pertencimento.”
Para ela, um dos maiores legados desses dez anos é justamente perceber que a Pampulha passou a ocupar um espaço ainda mais importante na vida dos belo-horizontinos.
“O reconhecimento internacional fez com que as pessoas olhassem para esse patrimônio com mais orgulho, mas também com mais responsabilidade. Isso talvez seja uma das maiores conquistas dessa década.”
Um patrimônio que continua escrevendo a história de Belo Horizonte
O Conjunto Moderno da Pampulha nasceu da ousadia de Juscelino Kubitschek, da genialidade de Oscar Niemeyer e do talento de artistas como Roberto Burle Marx, Cândido Portinari, Alfredo Ceschiatti e Joaquim Cardozo. O que começou como um projeto inovador na década de 1940 atravessou gerações, transformou-se em um dos maiores símbolos de Belo Horizonte e, há dez anos, conquistou o reconhecimento máximo concedido pela UNESCO.
Hoje, mais de oito décadas após sua inauguração, a Pampulha continua despertando o mesmo encantamento de quem a visita pela primeira vez. Seja para admirar as curvas da Igrejinha de São Francisco de Assis, caminhar pela orla, pedalar às margens da lagoa ou simplesmente contemplar uma paisagem que une arte e natureza, o conjunto permanece vivo, pulsante e em constante transformação.
Mais do que preservar edifícios históricos, o desafio agora é garantir que esse patrimônio continue sendo um espaço de convivência, cultura, lazer, turismo e pertencimento para as próximas gerações.
Porque, dez anos depois de entrar para a lista dos Patrimônios Mundiais da UNESCO, a Pampulha deixou de ser apenas um dos mais belos cartões-postais de Belo Horizonte. Tornou-se um símbolo da capacidade de uma cidade preservar o passado sem perder de vista o futuro, um lugar onde a história continua sendo escrita todos os dias, às margens de uma lagoa que segue refletindo não apenas uma obra-prima da arquitetura brasileira, mas também a identidade de todo um povo.



