Institutos criticam selo do TSE e dizem que proposta “confunde ciência com bola de cristal”

Associação que representa empresas de pesquisas afirma que levantamentos eleitorais retratam um momento específico e não podem ser avaliados como previsões do resultado das urnas.
Redação NC News
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A proposta do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de criar um selo para reconhecer os institutos de pesquisa que mais se aproximarem do resultado das eleições provocou reação imediata do setor. Nesta terça-feira (14), a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisas (Abep) divulgou uma nota em que contesta a iniciativa e afirma que ela parte de uma compreensão equivocada sobre a finalidade das pesquisas eleitorais.

Segundo a entidade, pesquisas de intenção de voto são instrumentos científicos que registram o comportamento do eleitor no momento em que são realizadas e, por isso, não podem ser tratadas como previsões do resultado da eleição. Para a associação, exigir que um levantamento “acerte” o placar das urnas significa “confundir ciência com bola de cristal”.

Por que os institutos são contra o selo?

A principal crítica da Abep é que o critério de “acerto” não representa, necessariamente, a qualidade de uma pesquisa.

Na avaliação da entidade, diversos fatores podem alterar o cenário eleitoral entre a realização das entrevistas e o dia da votação. Mudanças de opinião dos eleitores, acontecimentos políticos, debates, campanhas, desistências de candidatos e até o comparecimento às urnas influenciam diretamente o resultado final.

Por isso, a associação sustenta que uma pesquisa deve ser analisada pela qualidade de sua metodologia e pela capacidade de retratar o momento em que foi realizada, e não pela proximidade com o resultado oficial divulgado dias ou semanas depois.

Entidade vê risco para a qualidade das pesquisas
A Abep também afirma que a criação de um selo baseado na proximidade com o resultado das urnas pode produzir um efeito contrário ao pretendido pelo TSE.

Segundo a entidade, caso o reconhecimento oficial passe a depender apenas do índice de acerto, os institutos poderão ser pressionados a divulgar números que aumentem suas chances de receber a certificação, em vez de publicar estimativas que reflitam rigorosamente os dados coletados.

Na avaliação da associação, esse modelo pode enfraquecer a credibilidade das pesquisas, ao incentivar uma disputa pelo reconhecimento oficial em vez do aperfeiçoamento científico das metodologias.

O que propõe o TSE?

A proposta apresentada pelo Tribunal Superior Eleitoral prevê a criação do chamado Selo Acurácia Eleitoral, destinado a reconhecer empresas cujas pesquisas apresentem maior proximidade com os resultados oficiais das eleições.

Entre os objetivos anunciados pelo tribunal estão:

  • estimular maior precisão das pesquisas;
  • incentivar o aperfeiçoamento metodológico;
  • aumentar a transparência;
  • fortalecer a confiança da população nas pesquisas eleitorais;
  • dar visibilidade aos institutos com melhor desempenho histórico.

A proposta, porém, ainda está em fase de discussão e poderá sofrer alterações.

Debate continua nos próximos dias

A minuta foi apresentada durante uma reunião entre o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, e representantes de 16 institutos de pesquisa.

Segundo participantes do encontro, a discussão ocorreu em tom técnico e respeitoso, com espaço para manifestações favoráveis e contrárias à proposta.

As empresas poderão encaminhar sugestões ao tribunal até o próximo dia 17 de julho. Após esse prazo, o TSE deverá elaborar uma nova versão do texto antes de decidir sobre a eventual criação do selo.

Entenda o contexto

O debate sobre a confiabilidade das pesquisas eleitorais costuma ganhar força em anos de eleição, principalmente quando há diferenças entre levantamentos realizados por institutos distintos ou entre as pesquisas e o resultado das urnas.

Nesse cenário, o TSE passou a discutir mecanismos para aumentar a transparência e criar indicadores de desempenho para os institutos. As empresas do setor, no entanto, defendem que qualquer avaliação considere que pesquisas eleitorais registram apenas um retrato do momento em que são feitas e não têm a função de prever o comportamento futuro do eleitor.

A discussão seguirá nas próximas semanas, enquanto o tribunal analisa as sugestões apresentadas pelas empresas antes de definir se a proposta será mantida, modificada ou arquivada.

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