A resposta objetiva para a dúvida que domina as buscas e debates esportivos sobre a prateleira de troféus da Inglaterra é simples: o país tem apenas uma taça do Mundial de Seleções. O triunfo ocorreu em casa, no longínquo ano de 1966, quando a equipe de Bobby Charlton derrotou a Alemanha Ocidental no emblemático estádio de Wembley.
Desde então, são seis décadas de campanhas que flertam com o protagonismo, mas que costumam esbarrar em eliminações traumáticas. Em 2026, a pressão recai sobre uma geração talentosa que encara a missão de provar que o “berço do futebol” ainda é uma potência dentro de campo, e não apenas no mercado financeiro global.
O paradoxo da Premier League
O cenário da campanha inglesa escancara um paradoxo no coração do projeto esportivo do país. A liga local é, indiscutivelmente, a mais rica e influente do mundo, mas esse poderio não tem se traduzido em gols para a seleção por meio de seus representantes domésticos.
- Domínio global: Jogadores que atuam no futebol inglês somam 72 gols neste Mundial (69 da primeira divisão e 3 da segunda), superando com folga a espanhola LaLiga e abastecendo os elencos de diversas seleções.
- Seca interna: Dos 23 jogadores de linha convocados pelo técnico Gareth Southgate, 18 atuam na Premier League. No entanto, nenhum deles balançou as redes até o momento.
- Dependência de “estrangeiros”: Os gols decisivos da Inglaterra em 2026 saíram dos pés de atletas exportados para gigantes continentais. Harry Kane (Bayern de Munique) e Jude Bellingham (Real Madrid) são os artilheiros da equipe, com 6 gols cada no torneio.
“Com 72 gols de atletas que atuam no país, a Premier League supera a LaLiga na Copa do Mundo, apesar do jejum inusitado nos tentos da seleção da Inglaterra”, destacou um levantamento do portal GE, evidenciando o abismo entre o sucesso da liga e o rendimento de seus atletas na equipe nacional.
Rivalidade histórica: de 1966 a Messi
O duelo em Atlanta contra a Argentina vai muito além da disputa por uma vaga na final. O encontro retoma uma das rivalidades mais carregadas de contexto político e emocional da história, com um retrospecto em Mundiais que acumula três vitórias inglesas, um empate (com triunfo argentino nos pênaltis) e uma vitória argentina.
- 1966 (Inglaterra): Em Wembley, a expulsão do capitão argentino Antonio Rattin e as acusações de jogo violento acenderam o estopim da rivalidade. O lateral inglês George Cohen relembrou o clima hostil anos depois: “Dar carrinhos não tem problema. Mas o que incomodava eram algumas coisas desprezíveis, como cuspir, puxar os pelos da nuca e puxar a orelha.”
- 1986 (México): No Estádio Azteca, apenas quatro anos após a Guerra das Malvinas, Diego Maradona imortalizou a “mão de Deus” e o “Gol do Século”, transformando a vitória por 2 a 1 em um símbolo de redenção nacional para os argentinos.
- 1998 e 2002: A rivalidade ganhou contornos dramáticos com a expulsão de David Beckham na França e sua posterior redenção, ao marcar o gol de pênalti que ajudou a eliminar os argentinos na fase de grupos na Ásia.
Nesta quarta-feira, um novo capítulo será escrito. É a primeira vez que Lionel Messi, em sua reta final de carreira, enfrenta os ingleses na competição. A Argentina busca seu quarto título (após 1978, 1986 e 2022), enquanto a Inglaterra luta desesperadamente pelo segundo.
O que está em jogo
Um triunfo sobre a Argentina recolocaria a Inglaterra entre as superpotências efetivas do esporte. Em contrapartida, uma derrota prolongaria a sombra de 1966, fortaleceria o jejum e veria os sul-americanos se aproximarem do topo histórico, abrindo espaço para mais questionamentos sobre a formação de talentos no futebol inglês.