A influenciadora Gabriella Augusto relata agressões físicas e psicológicas do ex-namorado Lucas Strabko, o Cartolouco, em vídeos publicados no último domingo (12), nas redes sociais. O depoimento vem à tona um dia depois de reportagem do Fantástico mostrar denúncias de violência cometidas pelo youtuber contra três ex-parceiras.
Relato público após reportagem na TV
Gabriella decide falar quando percebe que não está sozinha. A matéria exibida em 12 de junho revela que Cartolouco é alvo de investigação da Polícia Civil após novas denúncias de agressão. Nas redes, a ex-participante do Power Couple Brasil rompe o silêncio e associa sua história às de outras mulheres.
Ela chora diante da câmera ao descrever um dos episódios mais recentes de violência. Conta que chega em casa com enxaqueca, deita para descansar e, segundo seu relato, o ex-namorado parte para a agressão física. “Eu deitei, porque estava com enxaqueca. Ele me puxou pelo cabelo, me jogou no chão e começou a me chutar muito. Aí, por um tempo, eu falei: ‘Eu vou morrer. Eu vou morrer.’ E é muito doido, porque na hora da agressão, você só quer se proteger, você só não quer morrer”, afirma.
O relacionamento dura cerca de dez meses e termina recentemente, depois de uma sequência de brigas, destruição de bens e violência emocional, de acordo com Gabriella. Ela descreve vergonha, medo e um sentimento de culpa que a impedem de denunciar antes.
Casa destruída e mudança em quatro dias
Entre os episódios narrados por Gabriella, um a marca de forma particular. Ela conta que volta do trabalho e encontra o apartamento revirado. “Quando eu voltei do trabalho, minha casa estava toda destruída, toda, não tinha mais nenhuma televisão no lugar, tava tudo no chão, todas quebradas, tudo quebrado. E foi naquele dia que eu falei… Eu não aguento mais”, relata.
A cena acelera decisões. Ela diz que se muda em apenas quatro dias, deixa para trás o imóvel danificado e tenta retomar a rotina em outro endereço. Mesmo assim, admite que acaba retomando o relacionamento por um período. Segundo Gabriella, Cartolouco volta a procurá-la e usa mensagens emocionais para reconquistá-la.
Ela fala de um ciclo conhecido por especialistas em violência doméstica: explosão, arrependimento, promessas de mudança e nova agressão. Afirma que, nesse processo, se afasta de amigos e familiares, sente vergonha de contar o que vive e tenta proteger o ex-companheiro da opinião alheia.
Denúncia, medida protetiva e investigação policial
A ruptura definitiva vem após o apoio de pessoas próximas e a repercussão da reportagem da TV. Gabriella procura a polícia e registra boletim de ocorrência. A Justiça concede medida protetiva por um ano, que impede a aproximação de Cartolouco. O inquérito apura suspeitas de lesão corporal qualificada, violência psicológica contra mulher, injúria e dano.
O caso se soma a outros relatos de ex-namoradas. O Fantástico mostra depoimentos de duas mulheres que descrevem agressões em quarto de hotel, com chutes, empurrões, cusparadas, xingamentos e quebra de pertences. Uma delas também obtém medida protetiva de urgência. Em abril, a CNN Brasil já havia antecipado a existência de investigações em curso.
Nas redes, o influenciador tenta reagir e divulga prints de conversas com Gabriella. Insinua que teria sido inocentado no processo. Ela rebate publicamente e afirma que essas mensagens foram usadas para intimidá-la. “Ele jogou isso contra mim para eu ficar quieta, em silêncio. Me senti culpada, me julguei muito. Eu me senti muito culpada de ter tido uma outra vítima, ele me prometeu que não teria outra vítima”, diz.
Até o momento, a defesa de Lucas Strabko não se manifesta oficialmente. O perfil do influenciador no Instagram desativa os comentários após uma onda de críticas e cobranças de explicações.
Pressão das redes e apoio de outras influenciadoras
A reação pública se organiza principalmente no Instagram. Seguidores de Gabriella enviam mensagens de apoio e pedem responsabilização do ex-namorado. A influenciadora Gabi Prado, amiga próxima, grava vídeos em que cobra punição ao youtuber e critica a demora para as denúncias serem ouvidas.
Filmando trechos da reportagem na TV, Gabi Prado desabafa: “Vocês não sabem a vontade que eu tinha de denunciar ele! Esse cara é um escroto nojento, ele merece cadeia! Vamos fazer barulho para esse cara ser preso.” Ela conta que convive com a amiga no período das agressões, vê o sofrimento de perto e atribui a demora na denúncia à vergonha e ao medo.
Prado descreve sequelas emocionais que persistem. “Eu sei o quanto a Gabi sofreu e sofre até hoje. Ela tem gatilhos fortíssimos por conta disso, porque a Gabi é uma pessoa muito amorosa e se dedica muito em todos os âmbitos da vida dela, e ela o amava de verdade”, afirma, emocionada.
O caso reacende o debate sobre responsabilidade no mercado de influenciadores digitais. Marcas que patrocinam criadores passam a ser cobradas por posicionamento e por políticas mais rígidas contra comportamentos abusivos. Plataformas, por sua vez, são pressionadas a agir diante de denúncias públicas.
Violência doméstica entre figuras públicas
Os relatos de Gabriella e das outras mulheres reforçam um padrão já conhecido, mas ainda pouco enfrentado no meio digital: a violência doméstica praticada por pessoas com grande audiência. A exposição constante cria uma espécie de escudo simbólico em torno do agressor, que muitas vezes se apoia em fãs para tentar desacreditar vítimas.
Na prática, o caso de Cartolouco amplia a visibilidade da violência contra a mulher e mostra como esse cenário se reproduz fora da intimidade anônima. A vergonha que Gabriella relata se mistura ao medo de se tornar alvo de ataques virtuais. Ela afirma que não busca projeção com o relato e insiste em um ponto: quer justiça.
Em um dos vídeos, a influenciadora admite o peso dessa exposição, mas diz que transforma a dor em ferramenta de apoio a outras mulheres. “Que m**** estar passando por isso. Mas… estou usando toda essa minha dor para vir aqui. E se eu puder ajudar 1% das mulheres que me seguem aqui, já tô feliz. Já valeu a pena. É muito difícil estar nesse lugar”, afirma.
O que pode acontecer a partir de agora
O inquérito em curso deve reunir laudos, depoimentos e mensagens trocadas entre as partes. A partir desse material, o Ministério Público pode decidir oferecer denúncia formal à Justiça. Em casos de lesão corporal qualificada e violência psicológica contra mulher, a pena pode incluir prisão, medidas alternativas e manutenção ou ampliação das restrições de contato.
A pressão da opinião pública tende a manter o caso em evidência. A cada novo relato, cresce a possibilidade de surgirem mais testemunhas e documentos. Organizações de defesa dos direitos das mulheres veem na repercussão uma chance de romper a cultura do silêncio, especialmente em relações com figuras conhecidas.
Enquanto as investigações avançam, Gabriella segue usando suas redes para relatar o impacto das agressões e agradecer o apoio recebido. A forma como autoridades, marcas e plataformas digitais respondem ao episódio deve servir de termômetro para casos futuros. Se houver responsabilização efetiva, o processo pode se tornar referência para outras vítimas que ainda hesitam em denunciar.