Argentina e Inglaterra renovam rivalidade em semifinal de 2026

Duelo histórico entre Argentina e Inglaterra promete emoção na semifinal do Mundial de 2026, com Messi e Bellingham em destaque.
Redação NC News
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Argentina e Inglaterra voltam a se enfrentar em uma semifinal de Mundial de Seleções nesta quarta-feira (15), às 16h (de Brasília), em Nova York. O jogo reúne Lionel Messi, aos 39 anos, e uma geração inglesa em ascensão, com Jude Bellingham e Harry Kane, em um duelo que divide analistas e reacende memórias de 1986 e 1998.

Jogo cercado de expectativa e desconfiança

O clima nas horas que antecedem a partida mistura confiança cautelosa e desconfiança em relação ao desempenho das duas seleções. Com campanhas irregulares, Argentina e Inglaterra chegam à semifinal sem convencer, mas acumulando momentos decisivos de seus craques.

Para o ex-atacante inglês Chris Sutton, hoje comentarista da BBC Sport e da BBC Radio 5 Live, a oportunidade é rara. “Sem dúvida, prefiro enfrentar a Argentina à Suíça”, diz. “Imagino que Thomas Tuchel e os jogadores também estejam satisfeitos, porque acreditam que podem criar dificuldades para a seleção argentina.”

Na visão de parte da imprensa inglesa, a chave se abre como talvez a melhor chance em anos de voltar a uma final. O peso do jogo cresce ainda mais diante do fato de a Argentina defender o título mundial e carregar a responsabilidade de manter vivo o último grande capítulo da carreira de Messi em Mundiais.

Equilíbrio, cautela e o ‘fator Messi’

Entre os próprios analistas britânicos não há consenso sobre o favoritismo. O jornalista Andy Cryer, da BBC, avalia que a Argentina tende a ser vista como ligeira favorita na Inglaterra. “O receio em relação a Messi é grande”, afirma. “Embora os torcedores ingleses também conheçam o potencial de jogadores como Enzo Fernández, Alexis Mac Allister, Julián Álvarez e companhia.”

Cryer enxerga um ponto comum nas campanhas dos dois semifinalistas. “A trajetória da Argentina no torneio até agora tem sido semelhante à da Inglaterra. Não se considera que nenhuma das duas equipes esteja jogando especialmente bem, mas a determinação e a capacidade de superar as dificuldades foram suficientes para fazê-las avançar.”

Na análise dele, tanto argentinos quanto ingleses se apoiam em lampejos de genialidade individual. “Messi, no caso da Argentina, e Kane e Bellingham, no da Inglaterra.”

Philip McNulty, também da BBC, reforça o peso do camisa 10 argentino. Para ele, mesmo em fim de carreira, Messi continua a ser o jogador capaz de mudar o rumo de uma partida. “Atualmente, ele passa boa parte do tempo caminhando em campo, mas seus companheiros estão dispostos a fazer o trabalho pesado por ele porque conhecem seu potencial. Basta um único lance para decidir uma partida.”

Cryer chama isso de “fator Messi”. “Será a primeira vez que Messi enfrentará a Inglaterra, o que torna tudo ainda mais empolgante. É o jogador de quem todos estão falando.”

Bellingham em alta e defesa sob teste

Do lado inglês, o grande nome é Jude Bellingham, camisa 10 de 23 anos que simboliza a nova ambição da seleção. O meia marca dois gols em cada uma das últimas duas partidas do mata-mata e se torna o primeiro a atingir esse feito desde Diego Maradona em 1986. Harry Kane, capitão e referência há quase uma década, soma também seis gols no torneio.

Para Cryer, Bellingham e Messi são os protagonistas naturais da noite. “Há a expectativa de que um dos dois volte a decidir a partida”, resume. A responsabilidade de lidar com o argentino, porém, deve recair sobre outro jogador inglês. Sutton projeta que caberá a Declan Rice, caso esteja recuperado fisicamente, a missão de seguir o camisa 10 sul-americano por todo o campo.

“Os suíços entenderam que não podiam dar nem um centímetro de espaço a Messi, e Granit Xhaka fez isso perfeitamente”, afirma Sutton, ao lembrar a vitória argentina sobre a Suíça nas quartas de final. “Se Tuchel tiver um plano para impedir que ele encontre espaços, acredito que a Inglaterra terá qualidade suficiente nas demais posições para vencer.”

Os analistas concordam que a força argentina se concentra do meio-campo para a frente. McNulty destaca a solidez de Enzo Fernández e Alexis Mac Allister, além da mobilidade de Julián Álvarez. “Ele é um jogador excepcional — embora muitas vezes subestimado —, como mostrou no gol contra a Suíça. Além disso, cumpre um papel importante sem a bola, o que permite a Lionel Messi explorar todo o seu talento.”

As dúvidas recaem sobre a defesa argentina. McNulty aponta a dupla de zaga como ponto vulnerável. “O temperamento de Cristian Romero pode ser imprevisível, e a baixa estatura de Lisandro Martínez é um aspecto que os adversários podem explorar, como fez o Egito”, diz.

Sutton vai além e vê problemas também nas laterais. Ele lembra o duelo recente com a Suíça, em que Dan Ndoye levou vantagem sobre Nahuel Molina e marcou. “Seja ele ou Gonzalo Montiel o escolhido para enfrentar a Inglaterra, haverá muito trabalho para conter Anthony Gordon”, prevê. No outro lado, cita a dificuldade de Nicolás Tagliafico para conter Noni Madueke ou Bukayo Saka. “Além disso, no centro da defesa, Lisandro Martínez vem cometendo um erro atrás do outro neste torneio. Tenho certeza de que voltará a cometer uma falha grave”, afirma.

Números, história e tensão em campo

Os dados ajudam a explicar o cenário de equilíbrio e instabilidade defensiva. O especialista em estatísticas Chris Collinson lembra que a Argentina é a equipe que mais marcou gols entre os quatro semifinalistas, com 17, e a mais eficiente nas finalizações, convertendo 18% das chances criadas. Ao mesmo tempo, tanto argentinos quanto ingleses sofrem seis gols até aqui, índice alto para quem chega tão longe.

Collinson aponta ainda um calcanhar de Aquiles: o fraco desempenho argentino nas bolas aéreas em comparação com Inglaterra, França e Espanha. O dado alimenta a estratégia inglesa de explorar cruzamentos e cabeceios, um traço histórico da equipe. A análise física mostra outra faceta curiosa: a Argentina é o time que mais percorre distância no torneio em termos absolutos, 706,5 km, mas, ao considerar apenas o tempo regulamentar, aparece como a seleção que menos corre e que menos aperta a saída rival no campo ofensivo.

Os números sugerem um time que administra esforços, baixa o ritmo e aposta em explosões pontuais de seus talentos. Em contrapartida, os adversários de mata-mata — Cabo Verde, Egito e Suíça — correm mais em todos os confrontos. Inglaterra, França e Espanha, por sua vez, pressionam mais alto e recuperam a bola com maior frequência no campo de ataque.

O pano de fundo histórico aumenta a temperatura do jogo. A partida ocorre 40 anos depois de Maradona eliminar a Inglaterra praticamente sozinho nas quartas de final do torneio de 1986, no México, com a “mão de Deus” e o gol antológico em arrancada. Torcedores e jornalistas ingleses também não esquecem a expulsão de David Beckham contra a Argentina, em 1998, após a disputa com Diego Simeone.

“Os jogos entre as duas seleções costumam ser muito tensos, e espero que desta vez não seja diferente”, afirma Sutton. Na visão dele, a Argentina não se incomoda quando o jogo entra em clima de provocação. “Não me surpreenderia ver uma ou outra provocação por parte dos jogadores argentinos, já que eles gostam desse tipo de situação.” O comentarista prevê inclusive um desfecho dramático: aposta em vitória inglesa e crê que a Argentina terminará com apenas nove jogadores em campo.

Uma semifinal com peso de decisão

A rivalidade entre argentinos e ingleses nasce no gramado, mas é alimentada por memórias que extrapolam o futebol, como a guerra das Malvinas, no início dos anos 1980. Quatro décadas depois, o confronto volta a condensar camada esportiva, ressentimentos antigos e expectativa global.

Na prática, quem avança garante a chance de erguer o troféu diante de França ou Espanha, que disputam a outra semifinal. Quem cai volta para casa com a sensação de ter desperdiçado um caminho relativamente acessível e com a lembrança de um jogo apontado por analistas como “a verdadeira decisão” para muitos torcedores ingleses.

“Aconteça o que acontecer nesta quarta-feira, esta será uma partida histórica. É uma semifinal que será lembrada na Inglaterra por muitos anos”, projeta Cryer. A pergunta que paira sobre Nova York é simples e define o enredo da noite: o adeus de Messi em Mundiais será amargo, diante de um rival histórico, ou a Inglaterra viverá mais um capítulo traumático contra a Argentina?

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