A FairSquare sustenta que Infantino quebra o compromisso que assume ao entrar no COI, em 10 de janeiro de 2020. Na ocasião, ele prometeu, segundo o documento, “respeitar a Carta Olímpica” e “cumprir integralmente o Código de Ética do COI”. A denúncia afirma que, desde então, o suíço usa o peso do cargo para se aproximar politicamente de Trump.
O caso central é a criação e a entrega do chamado Prêmio da Paz da Fifa a Trump, durante o sorteio do Mundial de Seleções de 2026, em dezembro de 2025. Ao transformar um dirigente político em protagonista de uma cerimônia esportiva de alcance global, Infantino, segundo a ONG, ultrapassa a linha entre diplomacia esportiva e apoio político explícito.
A FairSquare afirma que “o dirigente da Fifa demonstrou apoio político ao presidente dos Estados Unidos em diversas situações”. Entre elas, o uso público do slogan “Make America Great Again”, associado à campanha de Trump, e declarações defendendo que o republicano receba o Prêmio Nobel da Paz.
Balogun, suspensão anulada e pressão política
O documento protocolado em abril pede ainda que o COI investigue o episódio envolvendo o atacante Folarin Balogun, que atua pela seleção dos EUA no Mundial de 2026. Durante a fase de mata-mata, o jogador enfrenta uma suspensão disciplinar, mais tarde anulada.
Para a ONG, há indícios de interferência política nessa virada. A entidade afirma que “o próprio governo Trump confirmou ter entrado em contato com a Fifa para reverter a punição”. A suspeita é que a direção da federação internacional tenha cedido a pressões externas, afetando a integridade esportiva do torneio.
O caso expõe o ponto mais sensível da denúncia: a fronteira entre decisões técnicas, que deveriam seguir regulamentos claros, e a influência de governos interessados em resultados de campo. Se comprovada, a interferência fragiliza a confiança de jogadores, seleções e torcedores no caráter competitivo do Mundial.
Campanha digital e dados de torcedores no alvo
A ação menciona ainda uma campanha digital voltada para fãs, lançada pela Fifa para promover o Mundial de 2026. Segundo a FairSquare, a iniciativa, impulsionada por Infantino, se conecta a um esquema de coleta massiva de dados de torcedores por entidades ligadas a Trump.
A denúncia não detalha números de usuários envolvidos, mas sustenta que o uso político desse tipo de base de dados ameaça a privacidade e pode transformar a audiência do futebol em ativo eleitoral. Em um cenário em que plataformas digitais definem campanhas políticas, a mistura entre marketing esportivo e estratégias de dados desperta alerta entre especialistas em direitos humanos.
O caso se soma a uma crítica mais ampla sobre como grandes eventos esportivos lidam com informações pessoais de fãs. Patrocinadores e organizadores veem nesses dados um ativo comercial valioso. Grupos de direitos digitais temem que, sem regras claras, esse material seja redirecionado para fins políticos, como aponta a FairSquare no caso envolvendo aliados de Trump.
Pressão externa e risco de expulsão do COI
Esta não é a primeira vez que Infantino enfrenta a ONG britânica. Em dezembro de 2023, a FairSquare já havia protocolado denúncia no Comitê de Ética da Fifa, também por supostas violações éticas relacionadas à neutralidade e ao uso político do cargo. A iniciativa recebe apoio formal da Federação Norueguesa de Futebol e de membros do Parlamento Europeu, o que amplia o alcance político do caso.
A ofensiva de abril, agora direcionada ao COI, mira diretamente o lugar de Infantino na estrutura olímpica. O estatuto prevê que membros podem ser expulsos se descumprirem obrigações éticas e compromissos assumidos ao tomar posse. A ONG lembra esse ponto no texto entregue ao comitê e sustenta que a conduta do presidente da Fifa é incompatível com a exigência de neutralidade política.
Um eventual afastamento do COI não atinge apenas a imagem pessoal de Infantino. Afastaria também a principal liderança do futebol mundial do espaço onde se discutem diretrizes de governança e calendário esportivo global, em um momento em que o Mundial de Seleções de 2026 remodela o formato do torneio.
Impacto no Mundial de 2026 e na governança do futebol
O timing da denúncia aumenta a pressão sobre a preparação do Mundial de 2026, planejado para três países e com expansão de participantes. A suspeita de que decisões disciplinares, premiações e campanhas de comunicação do torneio sirvam a interesses políticos abala o discurso de neutralidade que a Fifa busca manter.
Federações nacionais e clubes que dependem da receita e da visibilidade do campeonato encaram o risco de instabilidade na cúpula. Parceiros comerciais, sensíveis a crises de reputação, observam o desenrolar da investigação. A imagem de um Mundial associado a um projeto político específico pode afastar parte do público e acender debates internos sobre transparência e limites para chefes de Estado em cerimônias esportivas.
Entidades que defendem maior controle sobre dirigentes, por outro lado, veem na denúncia uma oportunidade. Se o COI der andamento ao caso e aplicar sanções, o episódio pode estimular revisão de códigos de ética, regras de conflito de interesse e mecanismos de fiscalização na Fifa e em outras organizações esportivas.
O desfecho ainda é aberto. O COI deve analisar o teor da denúncia e decidir se abre processo formal contra Infantino, com possibilidade de punições que incluem a expulsão. O Comitê de Ética da Fifa, pressionado pela repercussão internacional e pelo apoio de federações e parlamentares europeus à FairSquare, pode ser levado a reavaliar sua própria atuação.
Se as acusações forem rejeitadas, dirigentes críticos temem que isso soe como autorização tácita para a mistura entre esporte e estratégia eleitoral. Se avançarem, podem marcar um ponto de virada na forma como o futebol lida com poder político, dados de torcedores e grandes líderes globais no palco do Mundial.