Ozempic e Wegovy: Novo Nordisk toma decisão que muda venda no Brasil

Empresa para venda direta de medicamentos no Brasil após preocupações sobre legislação e segurança dos pacientes.
Redação NC News
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A Novo Nordisk suspende, por tempo indeterminado, a venda direta ao consumidor de Ozempic, Wegovy e Rybelsus no Brasil, duas semanas após lançar o modelo. A decisão atende a críticas do varejo farmacêutico e reabre a disputa sobre quem controla o acesso às chamadas canetas emagrecedoras.

Em que ponto está o embate

A farmacêutica dinamarquesa comunicou a interrupção do projeto em nota enviada à imprensa. No texto, afirma que a pausa serve para incorporar “aprendizados obtidos durante a fase piloto” e redesenhar a estratégia comercial no país.

O recuo ocorre depois da reação dura da Associação Brasileira das Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), que representa 29 grandes redes do setor. A entidade diz ter “profunda apreensão com a mais nova estratégia adotada pela Novo Nordisk” e acusa a companhia de afrontar a legislação sanitária brasileira.

O modelo testado pela empresa encurtava a cadeia de distribuição e levava os medicamentos diretamente ao paciente, por meio de uma distribuidora. A venda dispensava a farmácia como intermediária, o que tirava receita do varejo e reduzia o controle sobre a dispensação, etapa em que o farmacêutico orienta o uso dos remédios.

O que diz a Novo Nordisk

No comunicado, a Novo Nordisk evita confronto direto com o varejo e trata a suspensão como ajuste de rota. A empresa afirma que a pausa “permitirá o desenvolvimento de um modelo mais integrado ao setor de varejo farmacêutico – um parceiro estratégico da companhia”.

Também reforça o discurso de inovação e ampliação de acesso. Alega que acompanha “a evolução do ambiente de saúde” e busca soluções que melhorem a experiência do paciente e ampliem o acesso a tratamentos para doenças crônicas graves, como obesidade e diabetes, “em plena conformidade com as regulamentações locais aplicáveis”.

A farmacêutica não informa prazo para eventual retomada da venda direta. Internamente, o desafio é encontrar um formato que mantenha algum ganho de eficiência na cadeia, preserve margens e, ao mesmo tempo, reduza o conflito com as grandes redes, hoje canal dominante para Ozempic, Wegovy e Rybelsus no país.

A ofensiva da Abrafarma

Do lado das farmácias, a leitura é oposta. Em nota, a Abrafarma acusa a Novo Nordisk de comercializar canetas emagrecedoras por meio de uma distribuidora “não habilitada como farmácia aberta ao público”, em desacordo com a RDC 44/09, norma da Anvisa que regula o comércio de medicamentos.

Para a entidade, a iniciativa “fere a legislação vigente no país e fragiliza o modelo brasileiro de dispensação de medicamentos”, além de comprometer uma etapa considerada essencial da assistência à saúde. O temor é que a venda diretta transforme produtos de uso controlado em mercadorias comuns de prateleira digital.

Sergio Mena Barreto, CEO da Abrafarma, usa termos duros para criticar a farmacêutica. “Estamos diante de episódios de demonstração de miopia e uma visão de curto prazo. É quando a saúde vira negócio, o ‘topa tudo por dinheiro’ na contramão de todos os requisitos que garantem o uso racional e correto do medicamento. É uma mensagem da banalização do tratamento, que a fabricante jamais deveria apoiar”, afirma.

Ele admite que o setor precisa se modernizar, mas estabelece limites. “A transformação digital é bem-vinda e somos parte dela, mas esse movimento não pode acontecer às custas da segurança do paciente. O que está em debate não é apenas um novo modelo comercial, mas a preservação de um sistema que coloca a assistência em saúde acima dos interesses de curto prazo”, diz.

Quem ganha e quem perde com a pausa

A suspensão congela, por ora, um experimento que ameaçava a posição das grandes redes no mercado de medicamentos para obesidade e diabetes. Ao eliminar intermediários, a Novo Nordisk testava um modelo potencialmente capaz de reduzir preços finais e melhorar a previsibilidade de oferta para o paciente, justamente em um segmento marcado por alta demanda e frequentes relatos de desabastecimento.

Para o varejo farmacêutico, o risco ia além da perda de receita. As redes defendem que a dispensação presencial garante checagem da prescrição, orientação sobre efeitos colaterais, monitoramento de interações e reforço do uso correto das canetas. A venda direta, argumentam, poderia estimular automedicação, uso estético sem acompanhamento e banalização de um tratamento indicado para doenças crônicas.

Na prática, o consumidor sente o impacto na forma de menos opções de compra. Pacientes interessados em Ozempic, Wegovy e Rybelsus voltam a depender exclusivamente das farmácias físicas e de seus canais digitais próprios, com políticas de preço e programas de desconto já conhecidos. A promessa de um canal direto, possivelmente com condições diferenciadas, fica suspensa.

Para a Novo Nordisk, o movimento significa rever planos em um momento de forte demanda global por seus produtos e de escrutínio crescente sobre práticas comerciais. A companhia também testa uma loja oficial no Mercado Livre do México, iniciativa que acende o alerta de investidores sobre o futuro das margens do varejo de saúde na América Latina.

Próximos passos e disputa em aberto

A suspensão cria espaço para uma negociação mais estruturada entre a farmacêutica e as grandes redes brasileiras. Um caminho possível é a construção de modelos híbridos, em que o canal digital direto conviva com o varejo, mas com participação mais clara das farmácias na jornada do paciente e no acompanhamento do tratamento.

O episódio também deve alimentar discussões regulatórias. A Anvisa é pressionada a dizer até onde vai a fronteira entre comércio eletrônico de medicamentos, intermediação por plataformas digitais e venda direta por fabricantes. A RDC 44/09, citada pela Abrafarma, ganha protagonismo nesse debate.

No médio prazo, o caso tende a influenciar como medicamentos para doenças crônicas serão comercializados no Brasil. A forma de vender Ozempic, Wegovy e Rybelsus hoje pode antecipar o que acontecerá com novos tratamentos, como o recente Novo Nordisk Poviztra, e com programas de cadastro e desconto da empresa, que disputam espaço com a assistência farmacêutica tradicional.

Sem data para retomada do projeto, a Novo Nordisk tenta mostrar disposição ao diálogo e à adaptação. O setor de varejo, por sua vez, vê na pausa uma vitória momentânea, mas acompanha atento qualquer sinal de que a venda direta possa voltar em outro formato. A tensão entre inovação comercial e segurança do paciente segue sem solução definitiva.

 

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